Os primeiros nomes são os mesmos, mas as pronúncias são diferentes: o menino brasileiro Henry Borel e o jovem britânico Henry Nowak. Outro paralelo é que a injustiça contra ambos decorre da institucionalização do identitarismo.
Henry Nowak, britânico de 18 anos, foi morto a facadas em dezembro de 2025 por Vickrum Digwa, 23 anos, descendente de imigrantes indianos e adepto da geralmente muito pacífica e respeitável religião sikh — Digwa já havia sido expulso do templo sikh local, um indicativo de padrão de comportamento antissocial.
O assassino usou uma acusação falsa de racismo contra Nowak, motivando a polícia a algemar o esfaqueado e ignorar as súplicas de seus últimos fôlegos em que o jovem denunciava que foi esfaqueado por Digwa e repetia, nove vezes ao todo, que não conseguia respirar.
Digwa já tinha passagem pela polícia, em 2023, por roubar facas cerimoniais do templo sikh. Uma adaga cerimonial longa foi a arma do crime.
Desde a ascensão do identitarismo de raça em 2020, impulsionada por uma interpretação muito estreita da forma como o americano George Floyd morreu sob a custódia da polícia nos Estados Unidos, a polícia britânica havia recebido um treinamento supostamente “antirracista” em que foi orientada a “produzir igualdade de resultados de policiamento para pessoas de grupos étnicos diferentes”, o que “não significa tratar a todos ‘do mesmo jeito’ ou ser ‘cego à cor’ (igualdade racial)” — aqui é revelado o ovo da serpente: é a doutrina identitária da “equidade”, que rejeita a igualdade de tratamento entre grupos e prega explicitamente tratamento especial para os pré-selecionados como oprimidos. Foi exatamente o que fizeram os policiais que chegaram à cena da morte de Nowak: o assassino de etnia indiana estava automaticamente certo, a vítima de etnia europeia, automaticamente errada.
Este é exatamente o mundo que o progressismo identitário ajudou a criar desde 2011. É a data em que, nos protestos de “ocupação de Wall Street” em Nova York, implementaram a “lista progressiva” de prioridade de tratamento moral que coloca mulheres negras na frente de mulheres brancas, que por sua vez ficam na frente de homens brancos homossexuais, que ficam na frente de homens brancos heterossexuais, que não ficam na frente de ninguém, pois são suspeitos antes de abrir a boca. O nome honesto para isso, claro, é sexismo e racismo, também com pressupostos xenofóbicos anti-Ocidente que este grupo político trata com normalidade, como um pequeno amargor ignorável de seu remédio para atingir a suposta “justiça social”.
Muita gente que “fez o L” em 2022 continua insistindo que esse movimento e essa visão de mundo são inofensivos e que a ameaça antidemocrática só vem do “populismo nacionalista”. Eu não tenho tanta certeza.
Juíza pratica injustiça no caso de Henry Borel com argumentos assumidamente identitários
O caso do menino brasileiro Henry Borel, morto aos meros quatro anos em 8 de março de 2021, tornou-se hoje mais um exemplo inegável de influência nefasta do identitarismo — dessa vez, o identitarismo de “gênero”, nome mais preciso para certas versões de feminismo.
Henry foi fruto do relacionamento entre o engenheiro Leniel Borel e a professora Monique Medeiros, entre 2011 e 2020. No ano da separação, a mãe se envolveu com o médico Jairo Souza Santos Júnior, mais conhecido como “Dr. Jairinho”, então vereador do Rio de Janeiro.
Na noite do dia 7 de março, Leniel deixou o filho com Monique e Jairinho. De banho tomado e pronto para dormir, Henry vomitou, o que não causou estranheza em Leniel porque era comum quando o menino chorava muito. Termina aqui a parte testemunhada pelo pai.
Henry dormia no quarto de Monique e Jairinho, enquanto eles assistiam TV. A mãe alegou que, às 3h30 da madrugada, foi checar como estava o filho e o encontrou deitado no chão, com mãos e pés gelados e olhos revirados. Ela disse que o colocou de volta na cama e, como ele não respondia, ela e Jairinho o levaram ao hospital. A equipe hospitalar do Hospital Barra D’Or disse que Henry já chegou morto. As investigações mostraram, com base nas câmeras do condomínio, que o menino já estava morto ao sair do apartamento.
Um laudo do Instituto Médico Legal rejeitou a explicação da mãe e do padrasto de que teria ocorrido apenas uma queda da cama, e mostrou que Henry tinha 23 lesões distribuídas pelo corpo. O menino de quatro anos morreu por hemorragia interna (assim como Henry Nowak) e ruptura no fígado causadas por “forte ação contundente”, ou seja, golpes violentos e covardes.
A Polícia Civil concluiu que Henry era vítima de agressões recorrentes. O agressor era o padrasto Jairinho, mas o inquérito indicou que a mãe sabia da violência. Logo, era negligente ou cúmplice, até mesmo ao levar o corpo sem vida do filho a um hospital e ajudar a construir uma narrativa mentirosa sobre o que aconteceu.
Mãe e padrasto, denunciados pelo MP-RJ por homicídio triplamente qualificado, foram presos em abril de 2021. Em 2022, a defesa de Monique alegou que ela própria era vítima de perseguição e agressão de Jairinho. Ela foi solta em abril, depois foi alvo de mais um pedido de prisão que foi revogado. Houve um vai-e-vem de prende-e-solta para Monique em que até Gilmar Mendes se envolveu, determinando prisão em abril de 2026.
Em 2022, a defesa de Jairinho pediu o afastamento da juíza Elizabeth Machado Louro, acusando-a de parcialidade. O motivo era que ela seria “apoiadora declarada da família do assistente de acusação”. Enquanto isso, o Senado aprovava uma lei com o nome de Henry para aumentar pena para crimes contra crianças.
O julgamento dos dois por júri popular, concluído neste mês, foi o mais longo da história do Rio de Janeiro, com 11 dias. Ontem, em sua alegação final, o promotor Fábio Vieira afirmou que “Jairo é um psicopata severo e Monique é narcisista” — a mãe chegou a fazer uma selfie enquanto visitava a delegacia para depoimento.
Hoje, veio o resultado. Jairinho foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão, enquanto Monique teve a acusação desclassificada para homicídio culposo e recebeu perdão judicial.
Segundo Elizabeth Louro, Monique é uma vítima do patriarcado, que exige que a mulher seja uma “mãe perfeita”. A magistrada chegou a defender explicitamente o “setor das lutas identitárias”, criticando oposição a ele que, segundo ela, “opera de forma sutil” e “atualmente chegou ao extremo da misoginia declarada”.
Só faltou a juíza fazer campanha para o PL da Misoginia, aprovado por unanimidade pelo Senado e, agora na Câmara, sob relatoria da deputada pró-identitarismo Tabata Amaral. Se virar lei, podemos dar outro adeus à liberdade de expressão e à possibilidade de conter o aparelhamento identitário do Estado brasileiro, já validado até em decisão do STJ, praticamente um tribunal woke.
Para o delegado, Monique sabia que Henry apanhava do padrasto. Segundo um perito que examinou o corpo, o menino sofreu muito. Nada disso abalou a convicção da juíza de ajudar Monique.
“Fosse o pai e não a mãe na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado, como é regra nos processos de igual natureza. É que o papel culturalmente reservado à mulher nos moldes patriarcais não só dela exige ser mãe, mas, muito além, a mãe perfeita. Mãe suficiente não basta”, palestrou a magistrada na decisão.
Enquanto a juíza repete paranoias ativistas sobre um suposto “patriarcado”, uma teoria da conspiração socialmente aceita entre progressistas identitários diplomados, do outro lado temos a ciência.
O chamado “efeito mulheres são magníficas” é um fato científico. Foi encontrado e replicado desde os anos 1990, e validado em mais de 40 culturas, como mostraram os cientistas. Significa que as mulheres são tratadas com mais leniência e simpatia que os homens. Os pesquisadores também descobriram que as mulheres são mais corporativistas para com seu próprio sexo do que os homens, que também tendem a preferir as mulheres.
Quem é honesto sobre o sexismo contra as mulheres, inclusive as teóricas do feminismo que têm a cabeça no lugar, sabe que ele tem um elemento de infantilização e hiperproteção a elas. Não é só ódio misógino assassino, como querem fazer parecer os ativistas que empurram o censório PL da Misoginia goela abaixo no Brasil. Inclusive, a insistência na hipérbole que faz uso da última parte é estratégica, pois esconde a primeira parte: que ser mulher, em certas situações, como sob o peso de acusações criminais, é na verdade um privilégio. É um daqueles privilégios que foram varridos para debaixo do tapete pela incansável propaganda das várias formas de identitarismo na última década.
O Brasil precisa escolher: ou o tratamento igual perante a lei é um dos valores pétreos da nossa República, ou pode ser vandalizado, erodido por mil mordidas de movimentos ideológicos da moda nas universidades, nas redações e, como estamos vendo, nos tribunais.
Até que essa escolha seja feita do jeito certo, a indecisão deixará vítimas pelo caminho. “Mataram meu filho pela terceira vez”, disse o pai de Henry ao saber da desclassificação acolhida no júri e do perdão judicial concedido pela juíza. Um júri formado por seis mulheres e um homem. Mas não ouse suspeitar de viés de gênero pró-mulher. Não é permitido num país em que o establishment é claramente progressista e identitário.
