Marcos Dantas, o professor aposentado da Escola da Comunicação da UFRJ, ajudou a formar algumas gerações de jornalistas, serviu ao governo Lula e integrou o Comitê Gesto da Internet. Mas era um notório desconhecido até incitar a morte da filhinha de Roberto Justus por exibir na internet uma bolsinha cara. Pego no pulo, pediu desculpas e disse que a guilhotina era uma metáfora da brutal desigualdade da sociedade brasileira.
Só que não foi a primeira vez. Uma pesquisa rápida em suas postagens mostra que o professor aposentado nutre há tempos uma ‘simpatia quase amor’ pelo método de solução de conflitos preferido do jacobino Robespierre. Nos primeiros anos da Revolução Francesa, o líder do Comitê de Salvação Pública enviou milhares para a guilhotina, até mesmo o cientista Antoine Lavoisier, pai da química moderna.
Ao contrário do enforcamento e da decapitação com machado, a guilhotina oferecia uma morte rápida, indolor, limpa. Método que se ajustou perfeitamente ao Tribunal Revolucionário e a seus julgamentos sumários. Quem não estivesse alinhado à revolução era enquadrado na Lei dos Suspeitos. Se houvesse servido à monarquia, era um homem morto.
O Comitê de Salvação Pública, criado para ser provisório, concentrou todo o poder da dita República. Controlou o judiciário, o legislativo e o executivo, inclusive o exército. Estabeleceu um teto para salários e congelou preços. Em defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade, Robespierre instaurou um regime tirânico e, ironicamente, morreu pela mesma guilhotina.
Marcos Dantas, se pregasse a intervenção militar com uma bíblia na mão, estaria hoje na Papuda — mesmo que tudo não passasse de uma metáfora. No auge de seus 77 anos, ao professor de pijama só lhe cabe mesmo proferir ofensas e incitar a violência institucional nas redes. Ironicamente, defendeu em artigo recente a regulação estatal do conteúdo online.
Criticou o poder das big techs e se mostrou indignado ao ter uma postagem censurada pela própria plataforma.
“Não cabe a empresas privadas definir regras de conversas públicas. Cabe ao poder público. Esse é o princípio de qualquer regulação”, escreveu.
Marcos Dantas, que prega a guilhotina para mocinhas com bolsinhas caras, é a própria metáfora do atual regime de exceção. Uma ditadura que se identifica como democracia; que diz defender a civilização, enquanto incentiva a barbárie; que prega a moral, mas vive em concubinato com bilionários corruptos e políticos condenados.
Censura e prende dissidentes, faz vista grossa para a violência retórica e física de seus apoiadores; cerca-se de privilégios e escraviza o trabalhador com impostos, persegue empresários independentes.
Militantes raivosos, como os influenciadores reunidos por Janja no Palácio do Planalto e o professor de pijama da UFRJ — a mesma que abriga o NetLab –, podem espalhar o ódio à vontade. Em vez de guilhotina, pedem aplausos ao tênis de R$ 10 mil de Lula, à bolsa de R$ 21 mil de Janja e ao look de R$ 200 mil de Erika Hilton.
Sejamos justus. Não é luta de classes, é guerra civil.