Governos se ajoelham perante superstições tribais para sinalizar virtudes - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Artigos Exclusivos

Governos se ajoelham perante superstições tribais para sinalizar virtudes

Monte Taranaki, na Nova Zelândia. Foto: Ulrich Lange/Wikimedia Commons.
Monte Taranaki, na Nova Zelândia. Foto: Ulrich Lange/Wikimedia Commons.

Compartilhe em

Foto do autor

Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O monte Taranaki, com 2.518 metros, é um vulcão dormente localizado na parte oeste da Ilha Norte da Nova Zelândia. É uma bela montanha que rivaliza com o mais famoso monte Fuji, no Japão.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

Os neozelandeses tratam o Taranaki de um modo que é no mínimo improvável que os japoneses imitem com o Fuji: em janeiro, depois de anos de negociações, o governo da Nova Zelândia declarou que o monte Taranaki é uma pessoa. Sério.

Como colocou a BBC, a decisão “reconhece a visão de mundo maori segundo a qual paisagens naturais, incluindo as montanhas, são ancestrais e seres vivos”.

A primeira pergunta, claro, é esta: se o vulcão voltar à atividade e matar pessoas, como fez o Vesúvio contra os habitantes de Pompeia e Herculano (região de Nápoles, na Itália) no ano 79, será indiciado e condenado por homicídio? Farão uma gaiola de 2,5 km de altura para prendê-lo? Afinal, o sr. Taranaki é uma pessoa.

Não basta estarmos em uma era em que até cientistas fingem que não há uma distribuição binária dos sexos na espécie humana: agora uma montanha tem direitos de pessoa.

Paul Goldsmith, o ministro responsável pelas negociações com os nativos, justificou a decisão dizendo que “devemos reconhecer a dor causada pelos erros do passado, para que possamos olhar para o futuro”.

Os maoris tiveram terras tomadas pelos colonizadores imperiais britânicos, com quem fizeram guerra. Essa parte da história todo mundo sabe. A parte da história que é menos discutida e motiva menos políticas públicas é esta: nas Ilhas Chatham, 800 km ao leste da Nova Zelândia, os nativos, chamados morioris, com língua e cultura próprias, foram alvo de massacre e até canibalismo dos maoris durante as Guerras dos Mosquetes na década de 1830. Os maoris mataram ou expulsaram 95% dos morioris.

Quando se trata de “reparações históricas”, uns são sempre mais reparados que os outros.

Mas não percamos de vista o que mais importa: reparação histórica seria devolver as terras tomadas, pedir desculpas pelos maoris mortos e alvo de discriminação pelo governo estabelecido pelos colonizadores. Em momento algum, os colonizadores precisam abandonar suas próprias crenças e fingir que uma montanha é uma pessoa.

Há uma diferença entre reconhecer erros e abandonar o racionalismo adquirido a duras penas na Idade das Luzes, após muitas guerras religiosas na Europa. Fingir que se acredita na superstição alheia é respeito? Para mim, parece desrespeitoso tratar o outro como tão inferior que não se pode nem comunicar para ele a verdade: montanhas não são pessoas — muito menos ancestrais de pessoas.

Com esse tipo de genuflexão da civilização em nome do relativismo cultural, o último a sair não vai precisar apagar a luz, porque já estará tateando no escuro.

Austrália manda enterrar fósseis em nome de respeitar aborígenes

Desde que o ser humano surgiu na África há centenas de milhares de anos, sem ser parido por nenhuma montanha, uma das jornadas mais impressionantes que realizou foi há dezenas de milhares de anos por toda a Ásia, até chegar à Austrália.

Hoje, a Austrália é um anel de áreas verdes habitáveis em torno de uma enorme área árida. Na parte leste desse deserto, na região que os colonizadores chamaram de Nova Gales do Sul, há lagos secos contendo sítios arqueológicos documentando presença humana 50 mil anos atrás.

A região dos Lagos Willandra, como é conhecida, contém o há muito seco Lago Mungo, de onde foram extraídos fósseis conhecidos pelos australianos como a Mulher de Mungo, descoberta em 1968, um dos mais antigos registros de cremação do mundo, e o Homem de Mungo, descoberto em 1974, datado em 40 mil anos — o período do Pleistoceno, quando havia água ali.

Há restos mortais de outras 106 pessoas na área. Alguns líderes aborígenes, nativos com tanta influência hoje na Austrália quanto os maoris têm na Nova Zelândia, estão exigindo que o governo enterre os 106 fósseis, e as autoridades da Nova Gales do Sul (entre as quais há aborígenes) pretendem atender o pedido em breve.

Há um apagão na imprensa a respeito, minha fonte é o arqueólogo australiano Michael Westaway, da Universidade de Queensland. Ele abriu uma petição contra o que ele considera a destruição dos fósseis no dia 5 de março, mas acumulou pouco mais de 800 assinaturas. A petição é em nome de lideranças aborígenes que discordam do reenterro e de arqueólogos que estudam esses fósseis.

A propósito, a Mulher de Mungo e o Homem de Mungo estão inclusos nos planos de reenterro desde 2022, e há relatos de que ambos até haviam sido reenterrados pelo governo na época, contra a vontade de alguns líderes aborígenes. Mas eles admitem que a vontade de reenterrar vem de superstições próprias: o que ofendeu Jason Kelly, um líder da tribo mutthi-mutthi, não foi o reenterro em si, mas que “vai contra a vontade de centenas de anciães do passado e do presente que pediram por um reenterro culturalmente apropriado dos nossos ancestrais”.

Claro, não é superstição querer fazer um serviço funerário para entes queridos mortos. Esse anseio é mais do que humano: não fica só na espécie Homo sapiens, porque temos evidências de que nossos parentes de outra espécie humana, os neandertais, enterravam seus entes queridos falecidos com rituais.

A superstição está em indivíduos do presente reinvidicarem parentesco direto com fósseis de 40 mil anos atrás. Um indivíduo contribui com 50% dos genes de seu filho. Para um tempo de 175 anos, a contribuição estimada de um indivíduo é de 1% para os genes de seus descendentes. Imagine depois de 40 milênios!

Para complicar, um estudo com 144 autodeclarados aborígenes australianos revelou que 70% deles carregavam cromossomos Y (herança paterna) de origem europeia. E não é zero a quantidade de australianos “brancos” com alguma ancestralidade aborígene, que teriam tanto parentesco com as múmias quanto as tribos.

Aliás, a Austrália não é o único país a reenterrar restos humanos históricos. Nos Estados Unidos, já houve casos como o reenterro de uma múmia de 9.500 anos, reivindicada pela tribo paiute-shoshone de Nevada. Descoberta na Caverna dos Espíritos em 1940, era a múmia mais velha da América do Norte. Um teste de DNA foi feito com a múmia, com um resultado previsivelmente vago: seu material genético era similar ao de muitas tribos das Américas. Nenhum parentesco especial com aquela tribo específica foi comprovado, como previsto. Mas ela foi entregue à tribo, que a sepultou em um local secreto.

“Nenhuma evidência ligou os restos mortais a qualquer grupo específico” e o critério para entregar os restos para os paiutes-shoshones foi apenas de colocalização geográfica, como contou a revista Nature.

Regimes estáveis protegendo a memória do mundo: um direito e um dever

O mundo é um fluxo, como observou Heráclito. E esse fluxo destrói a memória humana lentamente. Mas podemos fazer algo para preservá-la ao máximo, e uma das formas de fazer isso é guardar artefatos em museus que estão em países com regimes estáveis, diferentemente da região do Levante, que continha a cidade antiquíssima de Palmira, na Síria, em grande parte destruída pelo Estado Islâmico em 2015.

A múmia da sacerdotisa Sha-Amun-em-Su, preservada desde 750 a.C., foi dada de presente a Dom Pedro II no século XIX. O corpo ficou intacto por 2.768 anos até ser queimado no incêndio de 2018 do Museu Nacional. Ela sobreviveu a muita coisa, mas não sobreviveu ao Brasil.

Queimou por causa da má administração do Museu Nacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Convido o leitor a guardar rancor por isso. Sete anos de rancor são muito pouco comparados aos quase três milênios da múmia jogados fora.

No mínimo, a sacerdotisa merece mais 2.761 anos de rancor. Cada pessoa responsável pelo desastre merece uma praga do Egito dentro de casa. Para um, uma chuva de sapos no banheiro; para outro, nuvem de gafanhotos na cozinha; e para um terceiro, sangue na caixa d’água; e assim por diante.

Chega de politicamente correto na preservação da memória da humanidade. Países ricos preservam melhor a memória do que democracias falhas nas quais juízes agem como imperadores, e estas, por sua vez, são um pouco melhores que Estados falidos com milícias de fundamentalistas dominando as ruas.

Chega de pedir desculpas por existir. A civilização foi criada já ouvindo povos nativos. A Aspirina veio do chá tradicional da casca de salgueiro. A ciência contém o suficiente de conhecimento oriental: os primeiros sismógrafos foram chineses, e a filosofia que pariu a ciência foi preservada por muçulmanos do Califado Abássida, por exemplo. Mas o pré-requisito é que seja de fato conhecimento. O conhecimento, no fim das contas, é apátrida e cosmopolita por natureza. Declarar que montanhas são pessoas e reivindicar laços de família diretos com fósseis não é conhecimento.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade