Desinformação, fake news e teorias da conspiração são problemas reais. Basta olhar para casos como o da americana Candace Owens.
De uma comentarista conservadora razoável nos anos 2010, que questionava por que pessoas negras como ela precisavam sempre votar para o Partido Democrata, ela se tornou uma suposta agência de inteligência de uma mulher só — a CIA, de Candace Intelligence Agency, como ironizam seus críticos.
A “CIA” é alvo de um processo judicial por insistir que Brigitte Macron, primeira-dama da França, é um homem de nascença. Nesta semana, ela alegou — sem provas, como de praxe — que o casal Macron já encomendou o seu assassinato.
Antes pró-Trump, Owens anda insinuando que o governo que ela ainda nominalmente apoia estaria por trás do homicídio de seu amigo Charlie Kirk, em setembro. Também estaria por trás do crime a Legião Francesa, é “claro”.
A solução que a esquerda tem proposto para o problema dos produtores de lorotas, contudo, não tem nenhuma garantia de sanar o problema. A censura e a perseguição validam o sintoma psiquiátrico da paranoia associada às crenças heterodoxas, reforçando-as.
Assim como no problema do aquecimento global antropogênico, a esquerda erra ao aplicar suas recorrentes ferramentas de alarmismo e autoritarismo. Não estamos falando só de uma esquerda produtora de comentário, mas que ocupa instituições midiáticas, acadêmicas e governamentais. Falemos, então, de uma instituição cada vez mais desafiada: a British Broadcasting Corporation (BBC).
Paladina da BBC contra “desinformação” mentiu no currículo
Um dos produtos do pânico moral com tendências progressistas contra a “desinformação” foi o curioso aparecimento, nos últimos 15 anos, de profissionais e agências “checadoras de fatos”, paralelos às instituições tradicionais do jornalismo.
A BBC, cujo viés político foi eloquentemente demonstrado no caso de uma edição desonesta de um discurso de Donald Trump, criou em 2023 sua própria agência checadora, a “BBC Verify”, e contratou para a equipe a jovem jornalista Marianna Spring (29 anos) como “primeira correspondente de desinformação e redes sociais”, segundo a própria. Spring trabalhou para o programa de reportagens especiais da BBC que fez a edição desonesta, o Panorama (seu nome não apareceu nas denúncias, contudo).
Um ano após a contratação de Spring, o jornal britânico The New World revelou que a repórter mentiu no currículo em 2018, quando ela tinha 22 anos, antes de começar a trabalhar como repórter para a BBC.
Na época, ela estava interessada em ser uma correspondente freelancer em Moscou para o site de notícias americano Coda Story. Ao se candidatar, ela apresentou um currículo em que alegava já ter trabalhado para uma correspondente da BBC, Sarah Rainsford, no contexto da Copa do Mundo da Rússia. “Na verdade”, esclareceu o jornal, “ela apenas tinha se encontrado com Rainsford em algumas poucas situações sociais. A alegação era uma mentira”.
The New World também teve acesso a emails de Spring em que ela pediu perdão. “Não há nenhuma desculpa para isso, mais uma vez, sinto muito”, ela escreveu ao potencial empregador. “A única explicação é meu desespero de ser repórter em Moscou, e eu achar que não seria um grande problema, o que foi muito ingênuo e tolo da minha parte. De novo, sinto muito por esse erro horrendo da minha parte”.
A desonestidade de Spring, confessadamente para ganho pessoal, parece menor em gravidade que as campanhas de desinformação de Candace Owens, que não tiveram somente a primeira-dama francesa como alvo, mas até os judeus. Owens é uma inegável antissemita, não só ao criar difamações contra os judeus, mas ao desenterrar difamações históricas.
Porém, há uma diferença notável. Não sabemos até que ponto Owens realmente acredita nas lorotas que espalha. Até o momento, só temos provas de desinformação consciente — ou seja, mentira — por parte da caçadora de desinformação da BBC.
Uso excessivo do pronome “eu”
A notícia da mentira de Spring é antiga, mas reemergiu agora, com o escrutínio renovado do público britânico sobre o viés da BBC. A jovem jornalista foi premiada no país, foi objeto de matérias propagandísticas e sessões luxuosas de fotos de fazer inveja a Alexandre de Moraes em revista internacional.
“A correspondente de desinformação da BBC tentou desinformar para ganhar um emprego”, comentou o editor da revista Spiked, Tom Slater. “Ironia deliciosa nem é suficiente para descrever a situação”.
Para Slater, há dois problemas principais com o trabalho de Spring. “Síndrome jornalística do protagonista: ela usa em excesso o pronome de primeira pessoa, coloca a si mesma no centro de toda notícia sobre as críticas que ela atrai dos lunáticos conspiracionistas”. O título do documentário que a jornalista criou para o Panorama em 2021 (mesmo ano da fraude jornalística contra Trump) era “Por que você me odeia?”
O segundo problema é que checadores de fatos como Spring “exageram em muito o problema, insistindo que enormes números de pessoas comuns caíram nesses modos disparatados de pensar”.
Como exemplo disso, Slater mostra que Spring disse, no Parlamento britânico, que “É muito importante que as pessoas entendam que essas coisas certamente não estão limitadas aos cantos escuros da internet ou aos extremos, mas afetam todas as nossas vidas, o tempo todo”. Como eu informei nesta coluna, a revista científica Nature discorda desse alarmismo desinformante em si mesmo.
“Às vezes um charuto é apenas um charuto”
Às pressas, desde 2016, a esquerda tentou fingir que sua nova obsessão contra “fake news” e “desinformação” era muito científica e não um pânico moral por perder eleições e referendos, como era de fato.
A humilhação foi científica e acadêmica. Além do artigo da Nature mostrando que desinformação é, sim, dieta de uma minoria reincidente de participantes da praça pública digital, não uma enorme ameaça à democracia, houve outro caso de especialista que se revelou tudo, menos íntegra e coerente.
Joan Donovan, recrutada em 2018 para “pesquisar” desinformação na Escola de Governança John F. Kennedy, da Universidade de Harvard, caiu em completo descrédito em 2024, revelando-se uma mera ativista com uma paranoia digna de Candace Owens.
Um dos grandes insights do filósofo Karl Popper sobre a integridade da ciência, ou das boas explicações, é que seus defensores se expõem a ser refutados e, se são íntegros, estão dispostos a abandonar suas teorias de estimação. As mentes viciadas em dogmas se comportam da forma oposta: não só defenderão às vezes até a morte suas crenças de estimação, como reinterpretarão qualquer crítica à luz de suas teorias falhas. Você criticou o marxismo? É porque você é burguês. Criticou a psicanálise? É porque não quer admitir que sofre de Complexo de Édipo.
Era assim que Sigmund Freud se comportava. Certa vez, um psicólogo criticou a teoria freudiana dizendo que ela erotizava exageradamente o mundo dos sonhos. O crítico deu como exemplo um sonho recorrente próprio no qual ele apenas subia escadas. O pai da psicanálise replicou em 1911, em uma nota de uma nova edição de “A Interpretação dos Sonhos”, alegando que “escadas (e coisas análogas) eram indiscutivelmente símbolos de copulação”. Indiscutivelmente!
“É difícil não ver”, continuou Freud, pois “nós chegamos ao topo numa série de movimentos rítmicos e com crescente falta de ar e depois, com alguns saltos rápidos, podemos voltar a descer. Deste modo, o padrão rítmico da copulação é reproduzido no ato de subir escadas”.
Apesar desse notório exemplo de dogmatismo e reinterpretação de críticas justas para salvar a teoria, Freud ficou famoso pelo contrário, uma atitude não-dogmática, de não ver sempre conotação fálica em objetos roliços. “Às vezes, um charuto é apenas um charuto”, diz a frase famosa, mas completamente apócrifa, atribuída ao psicanalista.
Quando descobri que, junto ao meu colega de investigação jornalística David Ágape, sou alvo de uma representação criminal acolhida pelo STF feita pela jornalista Letícia Sallorenzo, na minha opinião uma ativista pró-censura que atuou como delatora de meras opiniões junto ao TSE, lembrei-me do meu artigo sobre ela publicado neste portal.
No artigo, mostrei que a hipótese de estimação de Sallorenzo, a do firehosing (uma suposta técnica de desinformação que consiste em espalhar grande volume de mentiras em vários canais, como uma mangueira de incêndio — firehose — espalhando água), sofreu refutações empíricas já publicadas na literatura especializada.
Adivinhe qual é uma das acusações de Sallorenzo contra o nosso trabalho sobre sua atuação, inclusive colocando no próprio currículo Lattes que ela teria sido “colaboradora informal do TSE” em 2022 (o tribunal nega). Ela alega que nosso trabalho, inclusive meu artigo sobre a fragilidade de sua tese acadêmica, é em si um exemplo de firehosing. Freud ficaria orgulhoso.
O pânico moral contra “fake news” já foi desmoralizado, mas o Brasil será o último a saber. É a maldição de Millôr: as ideias que ficam velhas lá fora vêm curtir sua aposentadoria aqui. É também o caso do woke e do comunismo. Quanto menos científico, mais atrativo para a elite diplomada brasileira. E ainda nos perguntamos por que não temos Nobel.
