Os Estados Unidos devem anunciar amanhã (15) a decisão sobre a aplicação de novas tarifas às exportações brasileiras. Enquanto busca uma última rodada de negociações com Washington, o governo brasileiro já trabalha internamente com a possibilidade de que a sobretaxa seja confirmada.
Antes do anúncio, representantes do Brasil e o chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, tentam realizar uma nova reunião virtual. A expectativa do governo é obter uma sinalização sobre o resultado da investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.
Planalto considera cenário desfavorável
Apesar das negociações em andamento, integrantes da equipe técnica avaliam que a imposição das tarifas se tornou o cenário mais provável.
Na última sexta-feira (10), o presidente Lula reuniu ministros do Palácio do Planalto para avaliar o andamento das tratativas. Participaram do encontro o chanceler Mauro Vieira e o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, responsáveis pelas negociações com os Estados Unidos.
Segundo interlocutores do governo, a orientação é manter o diálogo até a divulgação da decisão, sem abrir mão de temas considerados estratégicos, como o sistema de pagamentos Pix.
Última reunião pode indicar decisão americana
O governo brasileiro tenta viabilizar um quinto encontro com Jamieson Greer antes do prazo final.
A expectativa é que o representante comercial dos Estados Unidos antecipe a conclusão da investigação baseada na Seção 301, aberta para avaliar supostas práticas comerciais brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos.
Além dessa investigação, Washington conduz uma segunda apuração envolvendo o Brasil e outros 59 países sobre medidas relacionadas ao combate ao trabalho forçado. Caso ambas tenham resultado desfavorável ao Brasil, elas poderão servir de base para novas tarifas que, somadas, podem alcançar 37,5% sobre determinados produtos.
Na última semana, Greer afirmou que ainda existe “muita distância” entre os dois governos.
“Tenho conversado com os brasileiros. Temos tentado negociar. Acredito que ainda há uma grande distância entre nós; portanto, vocês verão uma decisão final sobre o Brasil muito em breve, pois temos um prazo legal que se encerra em 15 de julho.”
Brasil aposta em ampliação das exceções
Embora considere provável a aplicação das tarifas, o governo tenta reduzir seus efeitos por meio da ampliação da lista de produtos isentos.
Em junho, a administração Donald Trump anunciou uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após abrir investigação envolvendo temas como desmatamento ilegal, propriedade intelectual e o sistema Pix. Posteriormente, foi anunciada uma tarifa adicional de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado.
As duas medidas vieram acompanhadas de listas de exceções destinadas a reduzir impactos para consumidores e empresas dos Estados Unidos. A estratégia brasileira é ampliar esse conjunto de produtos preservados das sobretaxas.
Segundo o Itamaraty, pelo menos 43 empresas e associações empresariais norte-americanas solicitaram ao governo dos Estados Unidos que determinados produtos brasileiros sejam excluídos das novas tarifas por não possuírem substitutos competitivos no mercado americano.
Lula prepara resposta
Caso o tarifaço seja confirmado, o governo pretende analisar o alcance das medidas antes de definir a reação.
Entre as alternativas em estudo estão a continuidade das negociações diplomáticas e eventual utilização da Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao Brasil adotar medidas em resposta a barreiras comerciais impostas por outros países.
Internamente, integrantes da equipe técnica também avaliam que a disputa ultrapassou o campo econômico e passou a ter forte componente político, o que reduziu o peso dos argumentos apresentados pelo Brasil durante as negociações.
Flávio Bolsonaro pediu adiamento
Paralelamente às tratativas conduzidas pelo governo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou manifestação ao USTR defendendo que a decisão sobre as tarifas fosse adiada para depois das eleições brasileiras.
Na semana passada, durante audiência pública realizada em Washington, o parlamentar voltou a sustentar o adiamento da medida, afirmando que sua adoção neste momento poderia favorecer politicamente o presidente Lula.
A participação ocorreu em caráter individual e não representou a posição oficial do governo brasileiro nem do Itamaraty. Após o anúncio da decisão americana, a equipe econômica e o Ministério das Relações Exteriores deverão avaliar os impactos das medidas e definir os próximos passos das negociações entre Brasília e Washington.