Espiões russos, terroristas e máfia chinesa: Brasil não é mais berço esplêndido - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Espiões russos, terroristas e máfia chinesa: Brasil não é mais berço esplêndido

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

A Rússia está criando espiões no Brasil, revelou a “Operação Leste” da Polícia Federal em investigação com cooperação internacional durante os últimos três anos, coberta hoje pelo New York Times. E não é o único caso recente em que os brasileiros são surpreendidos com ameaças de segurança internacional no quintal de casa.

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Aqui, estão se criando terroristas do Hezbollah e da máfia chinesa. Também somos alvo de hackers da Coreia do Norte e programadores maliciosos que visam o Pix.

Acabou a ilusão de que o Brasil está afastado das intrigas internacionais. Estremeceu a percepção de que, apesar da violência interna, estamos blindados do resto do globo no nosso berço esplêndido. É hora de acordar.

Devo lembrar, contudo, que um dos maiores furos investigativos do jornalista Claudio Dantas, que dá nome a este portal, foi a descoberta de um núcleo de inteligência que operava dentro do Itamaraty durante o Regime Militar. No caso, era uma operação internacional de dentro para fora. Agora, temos mais ameaças de fora para dentro.

Espiões russos

Uma investigação do NYT sugeriu que o Brasil é um criadouro de oficiais de inteligência de elite russos conhecidos como “ilegais”.

Um deles era “Gerhard Daniel Campos Wittich”, com este nome que parece um sanduíche gringo com recheio brasileiro. Parecia um autêntico carioca de 34 anos, bem de vida e com um negócio de impressão 3D no Rio. Seu nome verdadeiro é Artem Shmyrev. Ele e outros criaram uma vida inteira com camuflagem brasileira, envolvendo até relacionamentos.

“A meta não era espionar o Brasil, mas se tornar brasileiro”, diz o jornal. Assim, obtendo nosso cobiçado passaporte, poderiam partir para projetos mais ambiciosos nos Estados Unidos, Europa ou Oriente Médio. O fato de o Brasil ser muito racialmente diverso ajudava porque, apesar da maioria miscigenada, não há uma cara que não pareça brasileira.

Os agentes de Vladimir Putin também tiraram proveito de vulnerabilidades no sistema brasileiro de registro civil. A PF mostrou que eles conseguiam obter certidões de nascimento falsas, emitindo-as em cartórios de regiões rurais, com menor implementação de segurança digital. A partir das certidões, eles emitiam também RG, CPF e passaporte.

Se o Brasil passar a ser percebido internacionalmente como um porto seguro de fabricação de identidades, podemos dar adeus ao conhecido soft power dos nossos passaportes.

Um caso emblemático foi o de “Victor Muller Ferreira”, nome verdadeiro Sergey Vladimirovich Cherkasov. Ele foi preso em abril de 2022 em Amsterdã, tentando entrar na Holanda com passaporte brasileiro falso. Seu alvo era o Tribunal Penal Internacional (TPI), onde queria entrar como estagiário. A CIA detectou a ameaça.

Cherkasov viveu como Victor Ferreira no Brasil por 12 anos. Com essa identidade, fez uma pós-graduação na prestigiosa Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

Ele foi condenado, aqui, a 15 anos, com pena depois reduzida para cinco anos, pelo crime de forjar documentos. A Rússia pediu pela extradição, alegando que Cherkasov era um traficante de drogas. Mas nossas autoridades recusaram o pedido, para continuar investigando as atividades de espionagem.

Este mês, o STF indeferiu a entrega antecipada do homem a seu país natal, citando as investigações pendentes por espionagem, lavagem de dinheiro e corrupção.

Nessas investigações, a PF descobriu uma rede de apoio a Cherkasov no país e movimentações financeiras suspeitas, incluindo transações com criptomoedas.

Outros espiões russos descobertos: Aleksandr Utekhin (“Eric Lopes”, proprietário de joalheria), “Maria Isabel Moresco Garcia” (modelo), Mikhail Mikushin (fingiu ser um pesquisador brasileiro e foi para a Noruega), Vladimir Aleksandrovich Danilov (“Manuel Francisco Steinbruck Pereira”, foi para Portugal e desapareceu), Yekaterina Leonidovna Danilova (“Adriana Carolina Costa Silva Pereira”); e três que atuavam no Uruguai — Roman Olegovich Koval, Irina Alekseyevna Antonova e Olga Igorevna Tyutereva.

Importante notar que a linha do tempo da Operação Leste envolve principalmente o período desde que Putin invadiu a Ucrânia. Bom saber que há ações contra as atividades da Rússia no Brasil, apesar do mal disfarçado alinhamento de Lula com essa autocracia.

Minha dica: que a PF volte sua atenção para o que está acontecendo no litoral do Rio de Janeiro. Encontrei algumas coisas potencialmente estranhas por lá, envolvendo embarcações pesqueiras.

Hezbollah opera no Brasil

A região favorita do grupo terrorista libanês Hezbollah para atividades no Brasil é a Tríplice Fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai). Um dos principais propósitos do grupo na região é arrecadar fundos com atividades criminosas como lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e contrabando.

No final do ano passado, Patricia Bullrich, ministra da Segurança de Javier Milei, acusou Hussein Ahmad Karaki de ser o chefe de operações do Hezbollah na América Latina e afirmou que ele já tinha recrutado pessoas no Brasil. Karaki estaria por trás do atentado a bomba contra a embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992 — ele teria usado passaporte brasileiro na operação.

No momento, o Departamento de Estado americano está oferecendo uma recompensa de US$ 60 milhões a quem fornecer informações que fechem a torneira de dinheiro do Hezbollah na região.

A PF já conhece uma dupla de sírios naturalizados brasileiros, Mohamed Khir Abdulmajid e Lucas Passos Lima, a quem acusa de serem “protagonistas na criação de uma rede nacional ligada ao grupo terrorista estrangeiro”. Abdulmajid está foragido, Lima está preso.

Lucas Passos Lima tinha posse de vídeos que a PF diz que eram atos preparatórios para um atentado terrorista em Brasília. Os vídeos mostram carros passando pela porta de sinagogas. Quando eles foram revelados no começo de 2024, liguei para as sinagogas. Ninguém quis se manifestar.

Máfia chinesa

Sei de jornalistas que tiveram que fugir do Brasil porque investigaram as atividades da máfia chinesa no país. Na verdade, é um conjunto de organizações conhecidas como “Tríades”, mas o termo pode ser uma generalização equivocada.

Boa parte da atividade mafiosa tem ligação com a província de Fujian, na China. Esta é a origem, por exemplo, de um grupo criminoso desbaratado pela Polícia Federal em dezembro passado que operava em Pacaraima (Roraima). Os chineses foram acusados de homicídio, roubo qualificado, extorsão, sequestro e organização criminosa. Seu líder, Liu Bitong, passou três anos escondido na Venezuela.

As investigações da PF sugeriram que o Grupo Bitong fazia extorsão contra comerciantes chineses no centro de São Paulo. Se você imaginou que tem algo a ver com a 25 de Março e a Rua Santa Efigênia, acertou. O “dinheiro de proteção” extorquido pela máfia chegava a R$ 10 mil por mês. Há suspeita de assassinato contra três comerciantes que se recusaram a pagar esse “imposto paralelo”.

A operação envolveu 20 mandados de prisão preventiva, 33 mandados de busca e apreensão. Sete armas de fogo foram apreendidas com o grupo. Em janeiro de 2025, foi preso outro líder: Lin Xianbin.

É muita complicação para o Brasil. Para lidar com isso tudo, o anão diplomático vai ter que crescer.

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