Quando a imprensa se une ao regime na destruição dos direitos individuais
O Estadão, que vive um caso dramático de bipolaridade editorial, acordou hoje pedindo a cassação de Eduardo Bolsonaro e comparando-o ao pai, chamado de “dejeto da democracia” em editorial do mesmo jornal em 2000. Li com curiosidade as razões apresentadas para se tentar retirar do deputado federal um mandato conferido por 1,84 milhão de eleitores — o deputado mais votado do Brasil até hoje.
O raciocínio aplicado pelo editorialista tem a profundidade — e o conteúdo — de uma poça de lama e expõe uma subordinação intelectual que deixaria os membros mais rasos do PCCh com inveja. Afinal, não dá para crer que a óbvia tentativa de criminalização da atividade política e do próprio debate público, com o consequente silenciamento de 1,84 milhão de vozes, é apenas falha analítica ou ingenuidade.
O Estadão acha realmente que o líder da maior potência militar e econômica do mundo se guia por palpites de um deputado estrangeiro? Acha que esses palpites são suficientes para travar negociações entre países e atores econômicos? Acredita que o 03 é capaz de decidir o destino de ministros do STF, do presidente da República e dos chefes das Casas Legislativas?
O jornal se incomoda com lives e postagens de Eduardo na internet, dele “arvorar-se negociador diplomático”, de “regozijar-se do lobby que fez junto ao governo dos EUA”, e até de “reclamar de governadores” que tratam o tarifaço como um problema exclusivamente comercial e não político, como Trump deixou claro em sua carta.
O jornal desconsidera a cena geopolítica global, ignora o regime de força instalado no país e omite as razões que levaram o parlamentar a não pisar mais em solo brasileiro. Faz inferências descoladas dos fatos. Pior, desloca de forma maliciosa o ônus da falta de interlocução de autoridades brasileiras nos EUA, atribuindo a um deputado estrangeiro o super poder de dizer quem entra ou não na Casa Branca.
Se Lula passou a campanha e a primeira metade de seu mandato atacando Trump, se os canais diplomáticos entre os dois países estão fechados desde a posse do republicano, se senadores brasileiros não conversam com seus pares americanos, se a cúpula do atual governo critica os principais aliados dos EUA e se alia a seus inimigos, apoiando suas guerras militares e comerciais, se usa o Judiciário para perseguir internamente seus críticos, a culpa é da “impostura” de um deputado brigão?
Goste-se ou não, Eduardo é um político e atua politicamente na defesa de sua visão de mundo e interesses pessoais e partidários, inclusive se beneficiando de relações pessoais que construiu ao longo dos anos. Se acha – e com razão – que sofre perseguição e não tem a quem recorrer dentro do país, que denuncie ao mundo. Isso é política!
É urgente que políticos voltem a fazer política, juízes voltem a aplicar o direito e jornalistas voltem a defender a liberdade de imprensa e expressão que lhes permitem fazer seu trabalho, mesmo que de forma intelectualmente desonesta. Isso é democracia. Não é Eduardo que afronta a suposta democracia brasileira, é o Estadão que afronta a inteligência dos leitores.

