O programa ALive, apresentado pelo jornalista Claudio Dantas no YouTube nesta segunda-feira (27), falou sobre a decisão do governo do presidente Lula (PT) de negar os vistos aos diplomatas americanos Riley M. Barnes e Samuel Samson, integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Ao comentar o episódio, o analista internacional Marcos Degaut criticou a postura do governo brasileiro e afirmou que “o Lula continua com esse discurso hipócrita, se apegando ao manto surrado da soberania”.
Segundo Degaut, a reação do governo à visita dos representantes americanos contrasta com episódios anteriores em que o próprio presidente Lula manifestou apoio público a lideranças políticas e governos estrangeiros.
“Nós temos tudo aqui, menos condições normais. Nós temos um poder judiciário que solapou completamente o ordenamento jurídico nacional, rasgou a Constituição, escreve as leis que quer, tem alinhamento político, tem alinhamento partidário e tem projeto de poder”, declarou.
O analista afirmou ainda que o governo brasileiro adota critérios distintos ao tratar de manifestações internacionais sobre política doméstica. Durante sua participação, ele relembrou o apoio de Lula à ex-presidente argentina Cristina Kirchner, ao presidente colombiano Gustavo Petro, ao chileno Gabriel Boric e ao regime de Nicolás Maduro, na Venezuela.
Degaut também mencionou a concessão de asilo diplomático à ex-primeira-dama do Peru, Nadine Heredia, e afirmou que o presidente brasileiro já fez declarações em favor de candidatos e grupos políticos durante eleições na França e nos Estados Unidos.
“O Lula continua com esse discurso hipócrita, se apegando ao manto surrado da soberania. E tem gente que cai”, afirmou.
Relação com os Estados Unidos
O vereador brasileiro nos Estados Unidos Maurício Galante avaliou que a negativa dos vistos representa um agravamento da relação diplomática entre os dois países.
“O cenário de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Brasil é um cenário tenebroso. É um cenário nunca visto antes”, declarou.
Segundo Galante, impedir a entrada de representantes do Departamento de Estado rompe uma prática comum das relações internacionais.
“A segunda vez já que se nega o visto de um diplomata. (…) Eles queriam fazer ações diplomáticas, sentar, conversar com o pessoal do TSE, conversar com a sociedade civil, conversar com o governo brasileiro. Para as nações, isso é um trabalho que todos os países do mundo fazem”, afirmou.
Na avaliação do vereador, o governo brasileiro estaria elevando o nível de tensão com Washington.
“Me parece que o Brasil está forçando mesmo uma situação para que os Estados Unidos não aceitem o resultado das eleições no Brasil esse ano”, disse.
“Mentalidade revolucionária”
A analista política Bruna Torlay afirmou que a atuação da esquerda decorre do que classificou como uma “mentalidade revolucionária”, conceito que, segundo ela, impede a aceitação da alternância de poder.
“Eles estão com a verdade, eles estão com o bem, e qualquer pessoa que não está com eles deve ser massacrada, destruída e tirada da frente para que o bem possa imperar”, afirmou.
Ainda segundo Torlay, essa lógica leva à rejeição da oposição política.
“Quem não estiver conosco será apagado, tirado, sabotado de todas as formas. É isso que a gente vai assistir até o final de outubro”, declarou.
Claudio Dantas fala em “perseguição brutal”
Durante o programa, o jornalista Claudio Dantas também criticou a postura da esquerda em relação aos adversários políticos.
“É uma perseguição brutal. A esquerda nega a coexistência de oposição. Esse é o grande problema”, afirmou.
Segundo Dantas, a direita admite a convivência com opiniões divergentes, enquanto a esquerda buscaria eliminar essas divergências.
“A esquerda quer censurar, quer calar, quer prender. Ela não tem capacidade de dialogar porque naturalmente seus argumentos são furados”, disse.
O jornalista também criticou a situação econômica do país e afirmou que um eventual governo eleito em 2027 enfrentará dificuldades para reorganizar as contas públicas.
Liberdade de expressão
O analista internacional Eli Vieira afirmou que a visita dos representantes americanos não tinha como foco apenas o sistema eleitoral brasileiro.
Segundo ele, a agenda previa reuniões com autoridades, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir também liberdade religiosa e liberdade de expressão.
“O Departamento de Estado respondeu que Barnes e Samson visitariam Brasília para se encontrar com oficiais do governo, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir integridade eleitoral, mas também liberdade religiosa e liberdade de expressão”, afirmou.
Vieira disse ainda que enxerga a negativa dos vistos como uma reação do governo brasileiro às iniciativas americanas voltadas ao financiamento de projetos ligados à defesa da liberdade de expressão.
“Eu vejo isso como retaliação. O governo Lula quer passar censura (…) e está escalando esse conflito com os Estados Unidos também por causa disso”, declarou.
Contexto
O Itamaraty negou os pedidos de visto apresentados por Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Os dois diplomatas permaneceriam no Brasil entre os dias 27 e 30 de julho para cumprir uma agenda que previa encontros com autoridades brasileiras, representantes da sociedade civil, líderes religiosos e profissionais da imprensa.
Após a negativa, o Departamento de Estado classificou como falsa a versão de que a missão teria o objetivo de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.
“Qualquer insinuação de uma ‘manobra’ para minar a eleição de uma nação democrática é uma mentira sem fundamento”, afirmou o órgão em resposta à agência Associated Press (AP).
A decisão do governo brasileiro também ocorreu poucos dias após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitar o pedido de credenciamento de observadores internacionais do Eurolat Forum para acompanhar as eleições brasileiras de outubro.
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