O Departamento de Estado dos EUA chamou de “mentira sem fundamento” a versão de que a visita ao Brasil de diplomatas americanos teria como objetivo descredibilizar o sistema eletrônico de votação. “Qualquer insinuação de uma ‘manobra’ para minar a eleição de uma nação democrática é uma mentira sem fundamento”, disse o órgão à agência AP.
A agenda de Riley Barnes, secretário assistente, e Samuel Samson, secretário assistente adjunto, incluiria encontros com autoridades, líderes religiosos e profissionais de imprensa. Na sexta-feira, o Itamaraty negou os vistos solicitados aos dois diplomatas.
Embora o governo Lula não tenha se manifestado oficialmente sobre a decisão, plantou na imprensa a fake news de que a visita serviria para atacar as urnas. Em ato público, o petista disse que “quem quiser de fora se meter nas eleições brasileiras vão (sic) apanhar muito”.
Fabricar notícias para depois gerar um fato político de repercussão é um estratagema bastante manjado, assim como o discurso de defesa da soberania. Espera, assim, mobilizar a militância, colar em Flávio Bolsonaro a pecha de sabujo de Donald Trump e colher dividendos eleitorais.
A narrativa, porém, não resiste aos fatos. Atribuir tentativa de interferência a uma visita de segundo escalão da administração Trump soa ridículo, considerando a ação ostensiva da administração Joe Biden, durante o pleito de 2022, para coagir o governo de Jair Bolsonaro.
Em julho daquele ano, por exemplo, desembarcou em Brasília o então secretário de Defesa, Lloyd Austin, que se reuniu com seu homólogo brasileiro e os comandantes militares. Na ocasião, fez um discurso público enfatizando a “necessidade” de que as Forças Armadas permanecessem “sob firme controle civil” e que respeitassem os “resultados democráticos” das urnas.
Antes, dele, Victoria Nuland, então subsecretária de Estado para Assuntos Políticos, liderou uma delegação em visita ao Itamaraty, onde discursou publicamente sobre a “confiança” de Washington nas instituições brasileiras e no sistema eleitoral, numa clara reação à reunião de Bolsonaro com embaixadores.
Naquele primeiro semestre, Brasília ainda receberia uma dezena de outros funcionários dos departamentos de Estado e Defesa. Meses antes, William Burns (diretor da CIA) e Jake Sullivan (Conselheiro de Segurança Nacional) também estiveram por aqui distribuindo recados.
Depois, soubemos que o próprio ministro Luís Roberto Barroso, quando presidia o TSE, pediu ajuda dos americanos para impedir um segundo mandato de Bolsonaro, dando um significado mais amplo à sua célebre declaração “vencemos o bolsonarismo!”. Faltou apenas o porta-aviões no litoral.