Amanhã, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado (CCT) promoverá uma audiência pública para debater um projeto de lei contra a má conduta científica.
Entre os convidados está a biomédica Helena Bonciani Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professora emérita da Unifesp. Nader também já foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Usuários do portal PubPeer, fórum online em que cientistas sinalizam possíveis problemas em artigos científicos, têm levantado suspeitas sobre a pesquisa publicada por Nader. A conta do Instagram @universidades.br tem chamado a atenção para as denúncias.
O fórum já levou à exposição de fraudes em artigos de outros pesquisadores, por exemplo, no tema do Alzheimer. Muitas das fraudes consistiam em manipulação digital de fotos de géis com bandas de proteínas.
As suspeitas levantadas contra publicações de Nader
Há 33 resultados para postagens no PubPeer com o nome de Helena Nader. Em ciência, é comum que o primeiro e o último autores listados em um estudo sejam os mais importantes. Com frequência, o primeiro tem o crédito principal pelos resultados, e o último costuma ser líder de pesquisa.
A reportagem analisou dois resultados que têm Nader como última autora. São referentes a dois estudos publicados em 2012 e 2019 que tratam da heparina, uma droga anticoagulante usada em problemas cardíacos. Em ambos os casos, a cientista apareceu para responder às suspeitas.
Na postagem sobre o artigo de 2012, um denunciante anônimo alega que as fotos de gel da publicação contêm áreas “mais similares do que o esperado”. Nader respondeu fornecendo duas fotos originais. O jornalista científico e biólogo celular germano-ucraniano Leonid Schneider replicou que o problema persistia, postando exemplos de áreas supostamente clonadas nas fotos.
Nader respondeu novamente, dizendo que “o ponto aqui está sendo distorcido por razões não muito claras” e insistindo que as fotos originais “mostram claramente que nada está sendo escondido na figura”. A mensagem é de março; nem Schneider nem usuários anônimos replicaram.
Na discussão sobre o artigo de 2019, um usuário anônimo apontou que os gráficos de ressonância magnética nuclear de quatro amostras de heparina com contaminantes “todos têm a mesma aparência”.

Nader respondeu que os resultados estavam “em linha com a literatura anterior”. Ela disse que a similaridade dos gráficos “foi reconhecida completamente por nós e até esperada”. Para ela, a similaridade resulta de o contaminante ser o mesmo: sulfato de condroitina super-sulfatado (OSCS). Ela deu outras explicações técnicas e agradeceu ao usuário pela preocupação.
Em seguida, Nader recebeu a tréplica da microbióloga holandesa Elisabeth M. Bik, conhecida por ter detectado fraude por manipulação de foto em publicações científicas e denunciado mais de 4.000 casos de má conduta científica.
“Cara Dra. Nader, obrigada por sua resposta aqui no PubPeer, é sempre apreciada”, disse Bik. “Contudo, embora você explique os experimentos feitos no artigo, as preocupações sobre a Figura 5 [com os gráficos] não foram adequadamente respondidas”.
Bik pediu os arquivos originais e observou que outras publicações sobre compostos de sulfato de condroitina mostram curvas “muito mais detalhadas e mais variáveis”.
Então, Bik mandou uma mensagem adicional levantando suspeita de áreas clonadas em uma foto da Figura 3 do artigo. A mensagem é de março de 2025. Desde então, Nader não respondeu mais.

O Portal Claudio Dantas buscou contato com Helena Nader e oferece espaço para que a cientista explique as denúncias.
A conta @universidades.br aponta mais problemas em artigos em que Nader não é última ou primeira autora, como um artigo na revista Biochimie em 2006, também com suposta similaridade excessiva em figuras.
Motivação do projeto pode ter sido a perseguição a pesquisadores da proxalutamida
O projeto a ser discutido, PL 330/2022, sob a relatoria do senador Hamilton Mourão (Republicanos/RS) desde maio, propõe a criminalização da má conduta científica, definida como “violar protocolos de pesquisa”, “ocultar e/ou alterar indevidamente e de má-fé informações”, “falsificar dados de ensaios clínicos, resultados laboratoriais e registros médicos”, “apresentar seletivamente resultados” e “usar de maneira inadequada dados estatísticos”. O texto original propõe como punições a prisão de três a cinco anos e multa.
A justificativa do projeto, proposto pelo senador Mecias de Jesus (Republicanos/RR), cita supostas irregularidades na pesquisa do medicamento proxalutamida para tratar Covid-19. Essas irregularidades foram descartadas pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul.