Veio da Folha de S. Paulo a notícia de que, desde terça-feira (8), o Conselho Federal de Medicina já tem pronta uma resolução que proíbe o bloqueio medicamentoso da puberdade em crianças com disforia de gênero — aquelas que expressam o desejo de mudar de sexo com frequência e intensidade suficientes para se encaixarem no diagnóstico desse transtorno psiquiátrico.
A nova resolução, que teria sido aprovada por unanimidade, ainda não foi publicada no Diário Oficial. Há também uma alteração das diretrizes anteriores de tratamento, contidas na Resolução 2.265/2019, para aumentar de 18 para 21 anos a idade mínima para procedimentos transexualizadores que levem à infertilidade. Em vez de permitir tratamento hormonal aos 16 anos com autorização dos pais, a nova resolução trocou a diretriz para apenas maiores de idade.
São ótimas notícias, e já era tempo. O estrago que o progressismo identitário tem feito na saúde dessas crianças é substancial. Levaremos anos para desvendarmos todos os efeitos do ativismo pelo assim chamado “tratamento afirmativo de gênero” — a ideia de que validar a palavra da criança com medicamentos e hormônios é a melhor saída terapêutica para a disforia. É bem possível que este seja o maior escândalo médico desde a lobotomia.
Assim como as autoridades de saúde já sabiam, antes da pandemia de Covid-19, que procedimentos como lockdowns são ineficazes, mas ainda assim embarcaram na insensatez do autoritarismo sanitário; a medicina já sabia no começo da década de 2010 que a maioria das crianças disfóricas não se torna trans ao crescer.
Em 2016, o sexólogo James Cantor resumiu os resultados de 11 estudos, os mais antigos dos quais remontavam à década de 1970: entre 60% e 90% das crianças disfóricas têm remissão espontânea, ou seja, melhoram da disforia sem necessidade de transexualização. Desde então, uma maioria de remissão entre 80% e 90% foi confirmada pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico e estudos de acompanhamento a longo prazo, como os do psicólogo canadense Kenneth Zucker.
Por isso, tenho dito desde 2022 que é simplesmente errado chamar crianças disfóricas de “crianças trans”. Rotulá-las como “trans” ajuda a influenciar seu destino, assim como aceitar sem reservas que mudem de vestuário e de nome. Além disso, em condições normais sem incentivos sociais para permanecer no caminho da transexualização, o termo “criança trans” teria, como dito, 90% de chance de errar.
A maioria de desistentes é só parte da história. Bloquear a puberdade é um processo dificilmente reversível que deixa possíveis marcas como o desenvolvimento deficiente da densidade óssea. Há ao menos um caso de uma jovem escandinava que ficou com dores crônicas nas costas por uma lesão na coluna devido à fragilidade dos ossos criada pelo procedimento.
O papel ridículo da imprensa brasileira
No final de janeiro de 2023, o G1 publicou que o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos), do Hospital das Clínicas da USP, estava bloqueando a puberdade de 100 crianças entre os quatro e os 12 anos de idade.
O tom do G1 foi completamente positivo, validando os pontos dos ativistas e mostrando casos de suposto sucesso, como se não existissem riscos no tratamento que, na época, só era permitido pelo CFM em caráter experimental. Agora, com a proibição, o futuro do ambulatório é incerto.
Respondi dias depois com uma reportagem na Gazeta do Povo, em que restaurei o contraponto suprimido pelo G1. Na época, já havia dois anos que o Hospital Karolinska da Suécia havia banido o bloqueio de puberdades de crianças disfóricas, e um ano que o país havia expandido essa política para todo o seu território. Qual é a desculpa do G1 para ter ignorado essa informação? Depois da Suécia, vários outros países abandonaram a prática, com mais impacto o Reino Unido após o “Relatório Cass”.
Ao menos o G1 não é como o programa Last Week Tonight, da HBO, apresentado pelo comediante britânico John Oliver, que chegou a alegar que bloquear a puberdade era equivalente a “pausar uma música”, em 2022. Há poucos dias, o programa insistiu em defender a inclusão de atletas trans no esporte feminino, outra insensatez progressista identitária.
A cobertura que a Folha fez da proibição já tardia no Brasil, na coluna Painel, é tão enviesada quanto aquela reportagem do G1. O termo “crianças trans” aparece já no título. Previsivelmente, a resolução foi associada a “conservadorismo” em vez de a mais pura sensatez de médicos que sabem observar evidências em vez de ouvir o canto de sereia do identitarismo.
A reportagem da Folha, também visando marcar o CFM com a versão política da marca da besta, alega que a cloroquina e a ivermectina, autorizadas dentro da autonomia médica pelo órgão para tratar COVID-19, “não tinham eficácia contra o coronavírus”. Para ser breve: esta afirmação é falsa. E é feita porque a autora da reportagem tem viés político, não porque tem conhecimento das evidências.
Já estou acostumado com esse viés do jornal. Durante a cobertura do caso da pugilista argelina Imane Khelif nas Olimpíadas de Paris — uma atleta com cromossomos masculinos e uma diferença de desenvolvimento sexual que a faz parecer superficialmente uma mulher, mas carrega vantagens masculinas — a Folha alegou que “intersexuais” (pessoas com características sexuais ambíguas) são 2% da população. A fonte da estatística não foi citada, mas é velha conhecida: é uma estatística falsa produzida pela bióloga feminista Anne Fausto-Sterling, refutada pelo médico Leonard Sax há mais de 20 anos.
