Autocensura: EBC retira conteúdos do ar durante período eleitoral
Brasília, Sexta, 03 de julho de 2026
Brasil

Autocensura: EBC retira conteúdos do ar durante período eleitoral

Direção da estatal afirma que medida busca evitar conflitos com regras do TSE

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Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) iniciou uma operação de retirada em massa de conteúdos jornalísticos publicados desde 1º de janeiro de 2023 em seus veículos oficiais. A medida atinge reportagens da Agência Brasil, Radioagência Nacional, TV Brasil, podcasts, fotografias e vídeos hospedados nos canais oficiais da empresa.

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Segundo comunicado interno citado pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), aproximadamente 146 mil conteúdos serão despublicados durante o período eleitoral sob a justificativa de adequação às regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A decisão provocou reação de entidades representativas dos jornalistas, que classificam a medida como inédita, afirmam que ela viola a Constituição e prometem recorrer à Justiça para tentar reverter a determinação.

Além da retirada de reportagens, a reportagem identificou que entrevistas exibidas pela TV Brasil também desapareceram do canal oficial da emissora.

A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, confirmou ao colunista Bernardo Mello Franco, de O Globo, que a empresa adotou uma postura mais restritiva durante o período eleitoral.

“É uma posição conservadora de alinhamento com as regras do TSE, que é muito rigoroso e restritivo. Não seremos nós a criar problemas no período eleitoral”, afirmou.

A declaração foi interpretada por sindicatos e servidores da empresa como uma confirmação de que a direção decidiu ampliar as restrições normalmente adotadas durante o defeso eleitoral. Até eleições anteriores, as limitações costumavam atingir conteúdos novos, transmissões ao vivo e entrevistas com candidatos, sem envolver a retirada de reportagens já publicadas.

Entrevista de Andrei que foi derubada

Entre os conteúdos removidos está a entrevista concedida pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ao programa Dando a Real com Leandro Demori.

Durante a entrevista, Andrei Rodrigues abordou o andamento das investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, falou sobre os desdobramentos dos atos de 8 de janeiro de 2023 e relembrou a atuação da corporação após os acampamentos montados em frente aos quartéis no fim de 2022.

Ao comentar a atuação da Polícia Federal após a Lava Jato, Rodrigues afirmou que a criação de “heróis” dentro da instituição provocou danos à imagem da corporação e defendeu maior separação entre atividade policial e política.

A entrevista deixou de aparecer no canal oficial da TV Brasil, embora ainda possa ser encontrada em outros canais que republicaram o programa.

Esta reportagem identificou outra entrevista retirada do canal: a do advogado Walfrido Warde, exibida em maio de 2025. O advogado integrou, até janeiro de 2026, a equipe de defesa do banqueiro Daniel Vorcaro no caso envolvendo o Banco Master, deixando a representação por divergências estratégicas. Na entrevista, Warde criticou os efeitos da Operação Lava Jato sobre a economia e o sistema de Justiça e comentou iniciativas do Ministério da Justiça para fortalecer o combate ao crime organizado.

Sindicatos acusam censura

A FENAJ e os sindicatos de jornalistas do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo divulgaram nota conjunta classificando a decisão como um caso de censura ao jornalismo público.

Segundo as entidades, a retirada dos conteúdos afeta diretamente o direito da população ao acesso à informação e representa um ataque à autonomia da EBC prevista na Lei nº 11.652/2008.

As entidades afirmam que a empresa confundiu comunicação pública com comunicação institucional.

Pela legislação que criou a EBC, a empresa possui autonomia editorial para produzir e distribuir conteúdo jornalístico, diferentemente da publicidade institucional dos órgãos do Executivo, que está sujeita às restrições do período eleitoral.

Na avaliação dos sindicatos, a decisão cria um precedente inédito ao retirar do ar conteúdos jornalísticos completos produzidos ao longo de três anos e meio.

Corte a partir de 2023 gera questionamentos

Outro ponto levantado pelas entidades é o critério temporal adotado. Segundo os comunicados internos, a despublicação alcança conteúdos produzidos a partir de 1º de janeiro de 2023, enquanto materiais publicados em anos anteriores permanecem disponíveis.

Para sindicatos e servidores, a escolha da data reforça dúvidas sobre os critérios jurídicos utilizados para justificar a medida. As entidades defendem que, caso a interpretação eleitoral fosse aplicada de maneira uniforme, o mesmo entendimento deveria alcançar conteúdos produzidos em governos anteriores.

A exclusão de aproximadamente 146 mil publicações altera a indexação em mecanismos de busca, reduz a audiência histórica da Agência Brasil e compromete a preservação do acervo digital produzido pela empresa, segundo trabalhadores da EBC procurados pela equipe deste site.

O impacto também alcança centenas de veículos de comunicação que republicam gratuitamente reportagens da Agência Brasil.

Fontes internas ouvidas pela reportagem contam a mesma coisa: profissionais de carreira com experiência em comunicação pública perderam espaço na atual gestão Segundo um dos relatos, cargos estratégicos passaram a ser ocupados por pessoas sem histórico na área, o que teria contribuído para decisões consideradas controversas dentro da empresa.

Ações judiciais

A Frente em Defesa da EBC, a FENAJ e os sindicatos de jornalistas do Distrito Federal, de São Paulo e do Rio de Janeiro informaram que estudam medidas judiciais para tentar reverter a decisão da direção da empresa.

As entidades sustentam que a retirada dos conteúdos viola o direito constitucional à informação, desrespeita a Lei nº 11.652/2008, que instituiu a EBC, compromete a preservação da memória jornalística nacional e fere a autonomia editorial da comunicação pública prevista na legislação vigente.

Também está no radar das entidades a solicitação, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), dos pareceres jurídicos que fundamentaram a decisão da direção da empresa.

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