Alerta: Dívida pública pode atingir 100% do PIB em 2030 - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Brasil

Alerta: Dívida pública pode atingir 100% do PIB em 2030

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Por Adrian Almeida

Gastos obrigatórios sufocam investimentos públicos no Brasil

Projeções divulgadas pela Instituição Fiscal Independente (IFI) apontam que o Brasil pode ultrapassar a marca de 100% de dívida pública em relação ao PIB já em 2030, dando sinal de um cenário de risco para a credibilidade fiscal do país. Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, atribui essa trajetória a três fatores principais.

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Três vetores interferem na construção do indicador: ritmo de crescimento da economia, taxa de juros e resultado fiscal primário”, explicou.

A ausência de um plano fiscal consistente de longo prazo preocupa investidores.

A análise da IFI mostra que a dívida bruta brasileira deve saltar de 77,6% em 2025 para 82,4% em 2026, alcançando mais de 100% do PIB em 2030. O ritmo atual de crescimento do PIB, estimado em 2,2% ao ano, combinado com juros reais médios de 5,1% e déficits fiscais recorrentes, dificulta qualquer esforço de estabilização.

O endividamento atual eleva a inflação, encarece o capital e limita os investimentos do Estado, o que agrava a crise econômica.

Déficits públicos em economias aquecidas como a nossa no momento geram inflação. Com isso o real se desvaloriza”, advertiu.

Pestana destacou que o orçamento engessado agrava a crise ao limitar o espaço fiscal.

João Henrique da Fonseca, economista e CEO da Azul Wealth Management, alerta que a elevação da dívida leva à manutenção de juros elevados e à pressão inflacionária.

Com efeito, quando o governo brasileiro gasta mais, ele aumenta a demanda por dinheiro sem que haja amortecimento do lado da oferta. O resultado disso são juros mais altos. Isso não é teoria, é prática”, afirmou.

Ele também sinalizou para os riscos de perda de controle da inflação caso o governo insista em não cortar gastos.

De acordo com Fonseca, manter juros altos agrava a crise fiscal. Um cenário pior, como o da Turquia, levaria à desvalorização abrupta do real e à explosão inflacionária.

No câmbio, os efeitos já são perceptíveis. Fonseca argumenta que, apesar das flutuações de curto prazo, o real segue a trajetória de desvalorização desde 2012.

O dólar iniciou uma longa caminhada para cima desde 2012, saindo de cerca de R$2 e chegando à vizinhança dos R$6 em 2024”, lembrou.

Para ele, a instabilidade fiscal compromete a confiança dos investidores e isso acaba favorecendo apenas o capital especulativo.

Estamos disfarçando a situação porque, diferentemente do que aconteceu na Turquia, o BC brasileiro elevou muito os juros e manteve o câmbio estável. Porém, estamos fazendo isso atraindo o que eu chamo de ‘capital motel’”, explicou Fonseca.

Esse tipo de capital entra e sai rapidamente, elevando o risco de choques cambiais futuros. Agora, sobre o Orçamento, Marcus Pestana critica a rigidez orçamentária brasileira, que praticamente inviabiliza investimentos estratégicos.

De R$ 2,3 trilhões em receitas líquidas primárias, o PAC representa apenas R$ 60 bilhões no Orçamento Geral da União de 2025, segundo Pestana. Ele destacou que o setor de apostas eletrônicas fatura R$ 300 bilhões por ano, cinco vezes o valor do PAC.

Para Fonseca, o cerne do problema está nas despesas obrigatórias que consomem hoje mais de 90% do Orçamento, restando quase nada para investimentos.

Existe uma máquina de gastos que funciona de modo antidemocrático e irresponsável. Tanto faz quem o eleitor colocar no poder, mais de 90% do dinheiro já está gasto para os próximos anos”, criticou.

Pestana reconhece que não há uma crise terminal acontecendo a curto prazo, mas alerta para os riscos crescentes na economia brasileira, mesmo com ajuda do Tesouro Nacional nos investimentos.

O Tesouro Nacional tem conseguido colocar os títulos brasileiros no mercado, mas os juros são altíssimos e as expectativas não estão bem ancoradas”, disse.

Ele cobra um programa crível de médio e longo prazo para conter a deterioração.

Já Fonseca, aponta que a ameaça maior no médio prazo não é o calote, mas uma inflação descontrolada. Para ele, o governo cria mecanismos para o Banco Central emitir moeda e financiar despesas públicas.

Ambos concordam que o atual regime fiscal é insustentável. Enquanto a IFI estima a necessidade de um superávit primário de 2,1% ao ano, o governo projeta déficit de 0,66% em 2025.

No curto prazo, medidas pontuais podem garantir a sobrevivência do arcabouço. Mas em 2027 já teremos um estrangulamento orçamentário absoluto”, concluiu Pestana.

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