Gastos obrigatórios sufocam investimentos públicos no Brasil
Projeções divulgadas pela Instituição Fiscal Independente (IFI) apontam que o Brasil pode ultrapassar a marca de 100% de dívida pública em relação ao PIB já em 2030, dando sinal de um cenário de risco para a credibilidade fiscal do país. Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, atribui essa trajetória a três fatores principais.
“Três vetores interferem na construção do indicador: ritmo de crescimento da economia, taxa de juros e resultado fiscal primário”, explicou.
A análise da IFI mostra que a dívida bruta brasileira deve saltar de 77,6% em 2025 para 82,4% em 2026, alcançando mais de 100% do PIB em 2030. O ritmo atual de crescimento do PIB, estimado em 2,2% ao ano, combinado com juros reais médios de 5,1% e déficits fiscais recorrentes, dificulta qualquer esforço de estabilização.
“Déficits públicos em economias aquecidas como a nossa no momento geram inflação. Com isso o real se desvaloriza”, advertiu.
João Henrique da Fonseca, economista e CEO da Azul Wealth Management, alerta que a elevação da dívida leva à manutenção de juros elevados e à pressão inflacionária.
“Com efeito, quando o governo brasileiro gasta mais, ele aumenta a demanda por dinheiro sem que haja amortecimento do lado da oferta. O resultado disso são juros mais altos. Isso não é teoria, é prática”, afirmou.
Ele também sinalizou para os riscos de perda de controle da inflação caso o governo insista em não cortar gastos.
De acordo com Fonseca, manter juros altos agrava a crise fiscal. Um cenário pior, como o da Turquia, levaria à desvalorização abrupta do real e à explosão inflacionária.
No câmbio, os efeitos já são perceptíveis. Fonseca argumenta que, apesar das flutuações de curto prazo, o real segue a trajetória de desvalorização desde 2012.
“O dólar iniciou uma longa caminhada para cima desde 2012, saindo de cerca de R$2 e chegando à vizinhança dos R$6 em 2024”, lembrou.
Para ele, a instabilidade fiscal compromete a confiança dos investidores e isso acaba favorecendo apenas o capital especulativo.
“Estamos disfarçando a situação porque, diferentemente do que aconteceu na Turquia, o BC brasileiro elevou muito os juros e manteve o câmbio estável. Porém, estamos fazendo isso atraindo o que eu chamo de ‘capital motel’”, explicou Fonseca.
Esse tipo de capital entra e sai rapidamente, elevando o risco de choques cambiais futuros. Agora, sobre o Orçamento, Marcus Pestana critica a rigidez orçamentária brasileira, que praticamente inviabiliza investimentos estratégicos.
De R$ 2,3 trilhões em receitas líquidas primárias, o PAC representa apenas R$ 60 bilhões no Orçamento Geral da União de 2025, segundo Pestana. Ele destacou que o setor de apostas eletrônicas fatura R$ 300 bilhões por ano, cinco vezes o valor do PAC.
Para Fonseca, o cerne do problema está nas despesas obrigatórias que consomem hoje mais de 90% do Orçamento, restando quase nada para investimentos.
“Existe uma máquina de gastos que funciona de modo antidemocrático e irresponsável. Tanto faz quem o eleitor colocar no poder, mais de 90% do dinheiro já está gasto para os próximos anos”, criticou.
Pestana reconhece que não há uma crise terminal acontecendo a curto prazo, mas alerta para os riscos crescentes na economia brasileira, mesmo com ajuda do Tesouro Nacional nos investimentos.
“O Tesouro Nacional tem conseguido colocar os títulos brasileiros no mercado, mas os juros são altíssimos e as expectativas não estão bem ancoradas”, disse.
Ele cobra um programa crível de médio e longo prazo para conter a deterioração.
Já Fonseca, aponta que a ameaça maior no médio prazo não é o calote, mas uma inflação descontrolada. Para ele, o governo cria mecanismos para o Banco Central emitir moeda e financiar despesas públicas.
Ambos concordam que o atual regime fiscal é insustentável. Enquanto a IFI estima a necessidade de um superávit primário de 2,1% ao ano, o governo projeta déficit de 0,66% em 2025.
“No curto prazo, medidas pontuais podem garantir a sobrevivência do arcabouço. Mas em 2027 já teremos um estrangulamento orçamentário absoluto”, concluiu Pestana.
