Alarmistas da pandemia já estão em polvorosa com o vírus H5N1 da gripe aviária - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Alarmistas da pandemia já estão em polvorosa com o vírus H5N1 da gripe aviária

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Algo alarmante está para acontecer. As Cassandras da pandemia de Covid-19 podem sentir no ar, seu paladar acusa o mesmo na água. Se não fizermos algo agora mesmo, a hecatombe é certa.

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Se estivéssemos em maio de 2022, estariam falando da varíola de macaco. Mas como estamos em maio de 2025, o pavio do pânico é o vírus Influenza H5N1, da gripe aviária. O Brasil registrou alguns poucos surtos na criação de frango, levando alguns países a pausar importações.

Há três anos quase exatos, reagi ao surto global de varíola de macaco com uma reportagem cujo título terminava em “cinco motivos para ter calma”. Alguns dos motivos, como a estratégia menos eficiente de transmissão do vírus da varíola, não se aplicam ao H5N1. Mas o fato é que, até agora, nenhuma transmissão da gripe aviária de humano para humano foi detectada, por exemplo.

Mas as Cassandras são preocupadas e se esquecem de tomar suas doses diárias de ansiolítico. Há um mês, o programa de telejornalismo americano 60 Minutes fez uma reportagem especial sobre a gripe aviária.

É um momento em que é fácil soar como um alarmista”, disse ao programa o médico Kamran Khan, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Toronto, Canadá. Mas o esforço para não soar alarmista foi pouco: “esta é uma ameaça muito séria à humanidade”, ele disse. “O mundo nunca viu uma situação desse tipo”, dobrou a aposta.

Outra entrevistada foi a virologista Angela Rasmussen, da também canadense Universidade de Saskatchewan. Ela alegou que o H5N1 tem o potencial de fazer a pandemia de covid “parecer um passeio no parque”. “Eu estou com medo, não estou dormindo muito ultimamente”, estremeceu a cientista.

É bom olhar o histórico da Dra. Rasmussen de tweets na pandemia, para entender que nível de cassandrice aguda ela apresenta. Em abril de 2020, quando uma personalidade da TV propôs a reabertura de escolas nos EUA, ela disse que custaria “milhões de vidas” e xingou o autor da ideia de “charlatão”.

Quando surgiu a variante ômicron, que todo mundo sabe agora que se revelou mais leve, ela disse, em janeiro de 2022, que “chamar a ômicron de ‘leve’ é inacreditável de danoso. Vai acabar em doença generalizada, deficiência e morte”. Ela estava errada.

Outra entrevistada pelo programa, uma veterinária, temerosa sem necessidade pela vida de sua filha em se tratando do H5N1, disse que “arrasaria a Terra se isso terminasse em mortes de crianças”.

Enquanto isso, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA dizem que o risco da gripe aviária para a população em geral é baixo. Estudos recentes mostram que a variante específica do vírus que está matando tantas aves silvestres e domésticas ainda prefere justamente esse grupo de animais. Ainda que preocupe sua capacidade para pular para mamíferos, como o gado leiteiro nos EUA, os casos em humanos permanecem raros: uma só morte nos EUA, com 70 casos.

Uma estatística citada no 60 Minutes é que o H5N1 mataria 50% das pessoas que o contraem. É uma óbvia superestimativa: como disse o próprio Dr. Khan, uma minoria importante dos criadores de gado leiteiro apresentaram anticorpos específicos para o vírus, sinalizando que não estão sendo contabilizados os casos de pessoas que contraem e ficam assintomáticas ou com sintomas leves. A estatística de 50% só se aplica aos casos raros de o quadro evoluir para um estado em que socorro médico é buscado.

Além disso, já se sabe que o vírus pode ser tratado com medicamentos antivirais já existentes (oseltamivir, zanamivir e outros), e a produção de vacinas está avançando há anos, pois não descobrimos o vírus agora.

Qual é o preço do alarmismo? Um caso ilustrativo, embora extremo, foi revelado no começo do mês. Um casal alemão que mora na Espanha manteve em condições de cárcere privado os seus três filhos. Os obrigavam a usar mais de uma máscara, uma por cima da outra. Não iam à escola desde 2021 e não falavam espanhol, apesar de quatro anos morando no país.

A polícia espanhola disse que, quando as crianças saíram de casa, respiraram fundo com entusiasmo, como se fosse a primeira vez. Também ficaram assustadas de ver um caramujo. Estão chamando de “Síndrome da Covid” esse surto dos pais. Tenho um nome melhor. SHISA: síndrome hipocondríaca de insensatez superprotetora e autoritária.

É a aplicação da ideia de “terra arrasada” usada pela veterinária para falar do H5N1.

Não é hora para complacência. Influenza já matou muita gente e já causou uma pandemia há um século, a da Gripe Espanhola. Mas também não é hora para alarmismo. Os alarmistas acham que estão ajudando, mas com frequência o resultado de sua emotividade irracional é atrapalhar.

Os alarmistas podem sempre fazer malabarismo mental para se justificar: se as coisas derem certo, foi porque eles foram ouvidos, eles alegam. Se as coisas dão errado, eles já sabiam, então estão certos de novo. Como alertou Karl Popper, uma ideia que pode sempre ser protegida de refutação, levando seus defensores a estarem certos não importa o que aconteça de fato no mundo, no mínimo não é científica.

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