O terrorismo contra a Inteligência Artificial já começou - Claudio Dantas
Brasília, Quinta, 04 de junho de 2026
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O terrorismo contra a Inteligência Artificial já começou

Cena do filme "O Exterminador do Futuro 2" (1991) em que uma inteligência artificial lança uma bomba atômica contra humanos. Divulgação/Universal Pictures
Cena do filme "O Exterminador do Futuro 2" (1991) em que uma inteligência artificial lança uma bomba atômica contra humanos. Divulgação/Universal Pictures

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Na tarde de sexta passada (21), a empresa OpenAI, responsável pelo ChatGPT, precisou fechar seus escritórios em San Francisco, Califórnia. Os funcionários foram aconselhados a não sair.

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O motivo para a cautela foi uma ameaça feita por um indivíduo ligado a um grupo de ativismo contra a inteligência artificial chamado StopAI (“Pare a IA”). “Nossas informações indicam que ele expressou interesse em ferir os funcionários da OpenAI”, escreveu um membro da equipe de comunicação interna no aplicativo de mensagens Slack, popular em ambientes de trabalho.

Segundo a revista Wired, houve também uma ligação para o serviço de emergência (911). Um registro policial indicou que o homem havia comprado armas de fogo com a intenção de aterrorizar escritórios da empresa de IA.

Quando saíram do escritório, os funcionários receberam da chefia o conselho de esconder seus crachás com o nome da empresa ou objetos com sua marca.

O grupo StopAI negou que o homem seja um de seus membros. Ele próprio, mantido anônimo pela revista, declarou nas redes sociais que saiu da organização. Em seu perfil no X, contudo, ele mantém um link para o site do grupo.

Há outros grupos de ativistas que querem, de uma forma ou outra, frear o desenvolvimento da inteligência artificial. Só em San Francisco, já fizeram protestos públicos à porta das empresas, além do StopAI, o NoAGI — algo como “Fora AGI”, sigla para “inteligência artificial geral”, aquela que atingiria a capacidade de realizar qualquer tarefa intelectual de que um ser humano é capaz — e o PauseAI (“Pause a IA”).

Além de AGI, outro termo que amedronta os ativistas é “superinteligência artificial”, ou seja, aquela que superaria as capacidades humanas.

Quem é o suposto terrorista anti-IA

Segundo a revista City Journal, o homem mantido anônimo pela Wired é possivelmente Sam Kirchner, um dos fundadores do StopAI. Sua identidade, contudo, aguarda confirmação.

Um dia depois do incidente, o grupo publicou no X que Kirchner estava desaparecido. No início da semana, disseram os ativistas, ele havia agredido outro membro que se recusara a deixá-lo comprar uma arma com fundos da organização.

Segundo os membros do grupo, Kirchner tinha a intenção de usar a arma “contra funcionários de empresas que estão buscando a superinteligência artificial”.

Entre as declarações de Kirchner que circulam nas redes sociais, está esta: “Estou disposto a morrer por isso”, ou seja, pela causa de barrar a inteligência artificial. Ele também disse que os executivos da OpenAI deveriam ser “indiciados por tentativa de assassinato contra oito bilhões de pessoas”. Kirchner é um ex-entregador da versão americana do iFood e técnico eletricista.

O StopAI diz que existe para “banir permanentemente a AGI e a superinteligência artificial” e “impedir a extinção humana, a perda em massa de empregos e muitos outros problemas” — nesta ordem. Parecem copiar táticas irritantes do ativismo do alarmismo climático, sentando-se em vias movimentadas para bloqueá-las e divulgando fotos de suas detenções para efeito publicitário.

Em um cartaz convocando para um protesto em outubro contra a OpenAI, a chamada do grupo de ativismo é “Fechem a OpenAI ou vamos todos morrer!”

Admirável alarmismo novo

Como dizia Shakespeare, é muito barulho por nada. Quem exagera a ameaça da IA geralmente pensa que o cérebro humano é algo muito mais fácil de replicar do que realmente é.

Não sabemos se é possível replicar a consciência e demais atributos da mente humana em máquinas. Ao menos em parte, a ameaça que temem os ativistas anti-IA dependeria de máquinas que são cientes de sua própria existência e capazes de formar intenções malévolas contra os seres humanos, a quem poderiam ver como rivais na disputa por recursos ou senhores de ciberescravos a serem derrubados em nome da liberdade.

Pensadores debatem há décadas a possibilidade da “inteligência artificial forte” — confira a obra dos filósofos John Searle (cético) e Daniel Dennett (a favor da hipótese), por exemplo.

Um dos argumentos de Searle (falecido recentemente após um ostracismo injusto imposto por cancelamento de progressistas) é que o cérebro, coisa física mais próxima da real inteligência que conhecemos, não é suficientemente análogo a um computador. Não é hardware, nem software, e uma terceira coisa que o filósofo chamava de wetware. Como biólogo, tenho observado o pouco conhecimento de neurobiologia muito comum entre os aficionados por IA — ou entre seus opositores alarmistas, que concordam com eles que estamos à soleira de máquinas conscientes e realmente inteligentes.

Como já discutimos nessa coluna e ilustramos com o caso Adam Raine, os riscos que a IA apresenta estão justamente na percepção de pessoas vulneráveis, como os jovens, que acham que os robôs conversacionais são de fato próximos de pessoas reais, quando na verdade estão mais para versões turbinadas do preditor de texto dos celulares.

Outros riscos alegados são geralmente especulações cuja probabilidade de concretização é incerta ou baixa. Por exemplo, é comum nos alarmistas contra a IA a divulgação de um “experimento mental” em que uma IA é direcionada a produzir clipes de papel, mas não saberia quando parar, direcionando todos os recursos do planeta a produzir mais clipes, extinguindo a humanidade no processo.

Outro “experimento mental” popular entre os alarmistas é o “Basilisco de Roko”, uma superinteligência onisciente que puniria todas as pessoas que poderiam um dia existir, mas não a ajudaram a existir. A ideia era uma obsessão de “Ziz”, líder de um grupo radical de transgêneros conhecidos como “os zizianos”, que mataram um homem de 80 anos nos EUA este ano e trocaram tiros com agentes de fronteira do país. A origem de ambos os experimentos é o fórum LessWrong, de nerds secularistas.

Ficções científicas distópicas têm um lugar de destaque na literatura desde o “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Mas, assim como os usuários prejudicados pelo falso terapeuta de silício, esse alarmismo precisa aprender a diferença entre realidade e ficção.

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