Presidente do Supremo vê risco de interferência de “poder externo” na Corte
O presidente do STF, Edson Fachin, voltou a defender a elaboração de um código de conduta para os ministros da Corte. Segundo o magistrado, ou os ministros encontram um modo de autolimitação ou “poderá haver eventualmente uma limitação que venha de algum poder externo”.
Em entrevista ao Estadão, Fachin afirmou ter “urgência”, mas não “pressa”, para institucionalizar regras éticas no Supremo. Ele se recusou a comentar a atuação individual dos ministros Dias Toffoli, no processo do Banco Master, e Alexandre de Moraes, relator do inquérito das fake news e que a esposa teve um contrato de quase R$ 130 mi com Daniel Vorcaro.
Na semana passada, porém, Fachin defendeu publicamente Toffoli no caso envolvendo o Banco Master. Na ocasião, afirmou, em nota, que o ministro do Supremo atua de forma “regular” e disse que o STF não se curva a ameaças.
Fachin reconheceu, na entrevista de hoje, que parte dos colegas prefere adiar o debate sobre o código de conduta por se tratar de um ano eleitoral, período em que “as instituições vão estar mais expostas”. Segundo ele, outros ministros, uma minoria, consideram o debate desnecessário, sob o argumento de que já existem regras previstas na Lei Orgânica da Magistratura Nacional.
“Quando tomei posse no STF, em 2015, eu já falava que, a longo prazo, haveria melhora da cultura interna do tribunal. Veio a Lava Jato que, no fundo, com todos os seus erros, que não são poucos, e com seus acertos, que também houve, mostrou um fato inegável: houve corrupção. E grossa corrupção. E o que é a corrupção se não uma infração ética antes de um crime? Esse é um tema que representa um aprimoramento do caminho que o tribunal está seguindo”, afirmou.
“Até porque, ou nós encontramos um modo de nos autolimitarmos, ou poderá haver eventualmente uma limitação que venha de algum poder externo, e não creio que o resultado seja bom, haja vista o que aconteceu na Polônia, na Hungria, no México”, completou o presidente do Supremo.
Segundo Fachin, um “código de conduta” para o STF “é uma medida de defesa do próprio tribunal e é uma evolução desse aprendizado institucional” e que a “história” do Supremo brasileiro “marcha nessa direção, como, aliás, marcharam os tribunais constitucionais de outros países”:
“O código de conduta do Tribunal Constitucional alemão é de 2017, o tribunal foi instalado em 1951. Os princípios éticos da Corte do Canadá são de 2019. As regras de conduta da Suprema Corte dos Estados Unidos, que é centenária, são de 2023. As regras éticas dos juízes portugueses são de 2025”.
Para o ministro, o STF “chegou a um momento de seu aprendizado que tem maturidade institucional para dizer “sim, (as regras) são necessárias””.
Ele também defendeu que parentes de ministros do Supremo possam advogar e que regras éticas sobre o tema sejam debatidas “sem filhofobia”. Para ele, é necessário apenas transparência nesses casos.
“Todos nós somos seres humanos falíveis. Portanto, a vida não é uma vida de impecabilidade. Todos nós temos circunstâncias. Eu, por exemplo, tenho uma filha que é advogada. Mas a regra deve ser a transparência. Tudo sobre a mesa. Inclusive, sem “filhofobia”. Por que um filho deve mudar de profissão quando o pai vira juiz? Não precisa. Agora, precisa ter transparência. Faz o quê? Advoga onde? Em que termos? Em quais ações? Tudo isso tem que estar transparente”, afirmou o magistrado.
Fachin disse ainda que o avanço de um pedido de impeachment contra um ministro do STF “significaria uma crise institucional muito grave”: “Nós teremos condições de tirar aprendizados dessa crise e resolver isso institucionalmente, sem criar uma crise institucional efetivamente grave”.
O ministro informou também que, em fevereiro, o CNJ, órgão que preside, vai discutir os limites da atuação de magistrados nas redes sociais. “Quais são os limites democráticos que preservam a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, também preservam um ambiente social saudável no que diz respeito aos magistrados. Magistrado pode ter rede social, mas não pode postar tudo. Qual é o limite? É o que nós vamos debater”.
