Queiroz vê “risco de inadimplência e descapitalização” em plano que envolve imóveis da estatal
Durante participação no programa Alive, apresentado no YouTube pelo Claudio Dantas nesta quinta-feira (23), o analista financeiro Hugo Queiroz explicou que a operação entre os Correios e a Caixa Econômica Federal pode representar “um processo de desestruturação da empresa”.
Segundo ele, embora o monopólio postal ainda gere receita, a ausência de aportes em infraestrutura, o passivo bilionário e o aumento das despesas nos últimos anos corroeram a capacidade operacional da companhia.
“A operação consiste na utilização de ativos da empresa para angariar recursos, elevando o endividamento em um momento de deterioração dos fundamentos”, destacou.
Para o analista, a transferência de imóveis para terceiros, com remuneração baseada no fluxo de caixa dos Correios, cria risco de inadimplência e execução de garantias, o que pode resultar na perda dos bens.
“Essa dinâmica configura um processo de descapitalização”, disse.
Ele alertou ainda que o governo recorre a mecanismos de financiamento em um cenário de dificuldade para obter crédito, diante do risco de insolvência da estatal.
Fundos de pensão
Queiroz comparou a estrutura da operação à criação de um fundo imobiliário tradicional, mas destacou que, diante da fragilidade financeira dos Correios, a viabilidade do modelo é questionável.
“Investidores privados exigiriam uma taxa de capitalização de 20% para compensar o risco. No entanto, se os recursos vierem de fundos de pensão, como já ocorreu em operações semelhantes, o cap rate pode cair para 8% ou 10%, abrindo espaço para perdas significativas”, avaliou.
Diante disso, citou exemplos passados, como o caso da Invepar, em que fundos de pensão foram utilizados em operações de alto risco, resultando em prejuízos bilionários.
“Há o receio de que essa operação repita práticas antigas, drenando recursos de fundos como o Postales”, afirmou.
Ele lembrou que o Postalis, fundo de pensão dos Correios, acumula um rombo de R$ 15 bilhões, causado por investimentos em empresas com balanços duvidosos.
“Essas perdas recaem sobre os próprios carteiros e servidores, que contribuem para garantir suas aposentadorias”, completou.
‘Repete erros do passado”
A entrada da Caixa Econômica Federal nesse processo levantou novas dúvidas. O governo planeja um empréstimo de até R$ 20 bilhões aos Correios, com garantia do Tesouro Nacional, para cobrir déficits previstos em 2025 e 2026. Inicialmente, o Banco do Brasil seria o financiador, mas a queda nas ações da instituição gerou insegurança e redirecionou a operação para a Caixa, considerada mais controlável politicamente por ser uma empresa pública.
A cientista política Júlia Lucy também participou do programa e classificou a operação como “um agravamento da situação dos Correios”.
Na avaliação dela, o modelo de venda e posterior locação dos imóveis (leasing back) transfere o patrimônio da estatal para a Caixa, enquanto os Correios continuam pagando aluguel e juros para usar os mesmos espaços.
“A solução ideal seria a alienação direta desses imóveis no mercado, o que permitiria liquidez sem onerar a empresa com novos custos fixos”, afirmou.
Lucy destacou ainda que a operação “abre espaço para manobras financeiras pouco transparentes” e repete erros do passado.
Para Dantas, o caso “repete práticas antigas de uso político dos fundos de pensão”.
“Os fundos, historicamente, foram utilizados para adquirir ativos de baixo valor sob justificativas estratégicas. Servidores públicos, funcionários da Caixa, do Banco do Brasil, da Fundação dos Economiários Federais (Funcef) e os carteiros devem estar atentos”, declarou.
