O senador Jaques Wagner (PT-BA) teve bloqueada a venda de um terreno de R$ 15,8 milhões por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça no âmbito da 9ª fase da Compliance Zero, que investiga irregularidades envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro. A informação é do jornal O Estadão.
Segundo o jornal, o petista protocolou a transferência do imóvel 1 dia após ser alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF). O cartório, porém, recebeu uma ordem de indisponibilidade de bens expedida por Mendonça e impediu a conclusão da negociação.
O terreno, de 51 mil metros quadrados, fica em Camaçari (BA) e foi negociado por R$ 15,8 milhões. O imóvel havia sido adquirido por Wagner em 2000 por R$ 28 mil.
“Em cumprimento ao protocolo nº (…), expedido pelo ministro André Luiz de Almeida Mendonça, fica averbada nesta data a indisponibilidade sobre o imóvel objeto da matrícula supra, de propriedade de Jaques Wagner”, registrou o cartório, de acordo com documento obtido pelo site.
Além do terreno, Wagner também teve bloqueada a venda de um apartamento em Salvador, negociado por R$ 10 milhões. A transferência da propriedade foi barrada após a decisão do STF, embora a negociação tenha sido protocolada em cartório uma semana antes da operação da PF.
De acordo com o Estadão, o senador já recebeu ao menos R$ 12 milhões referentes às duas transações, apesar de os imóveis permanecerem indisponíveis.
A investigação da PF apura suspeitas de que Wagner teria solicitado ao então sócio do Master, Augusto Lima, a compra de um apartamento de luxo de R$ 2,5 milhões em Salvador para sua filha. Segundo os investigadores, o imóvel foi adquirido por uma empresa registrada em nome de um laranja, com recursos enviados pela corretora Reag, também investigada por suposta participação em crimes relacionados ao Master.
Antes da operação da PF, Wagner alterou a forma de pagamento pela venda do terreno. Inicialmente, receberia R$ 15,8 milhões por meio de uma nota promissória com vencimento em 2029. Depois, o acordo foi modificado para um pagamento imediato de R$ 2 milhões, já quitado, e outros R$ 13,8 milhões em lotes do empreendimento imobiliário que será construído na área.
O terreno foi vendido à Lagoons Empreendimentos, responsável por um projeto imobiliário ao lado do novo centro de treinamento do Esporte Clube Bahia SAF e que tem participação do City Football Group.
Em nota, a empresa afirmou que o processo de aquisição dos imóveis começou em 2024 e envolveu diferentes proprietários, seguindo critérios técnicos e de mercado: “O processo de aquisição de imóveis foi iniciado em 2024, dando inicio à compra de terrenos de diferentes proprietários, seguindo critérios técnicos relacionados à implantação do empreendimento”.
Segundo a empresa, “o terreno mencionado foi adquirido em maio de 2025 e integra 9,6% do espaço onde será implantado o empreendimento anexo ao Centro de Treinamento do Esporte Clube Bahia SAF”.
A Lagoons também afirmou que “todas as aquisições realizadas seguiram critérios de mercado e foram validadas por consultorias independentes, além de passar por uma due diligence, incluindo a obtenção das certidões emitidas pelo Cartório de Registro de Imóveis, que não apontavam qualquer restrição que impedisse a realização da escritura pública de compra e venda”.
“Assim, o comprador apenas deu prosseguimento aos trâmites registrais necessários à formalização da transferência do imóvel, iniciada em Maio de 2025″, completou.
O apartamento foi vendido ao prefeito de Conceição do Coité (BA), Marcelo Passos de Araújo (União Brasil), por R$ 10 milhões. O pagamento foi concluído integralmente, mas a transferência da propriedade também acabou bloqueada pela decisão de André Mendonça.
Araújo afirmou que a negociação havia sido fechada antes da operação da PF e que pediu ao cartório e ao STF a liberação da transferência por ter agido de boa-fé.
“Tenho um nome a zelar e nunca estive envolvido em nenhuma irregularidade. Essa transação foi feita dentro da mais absoluta legalidade e os documentos comprovam isso. O contrato de compra e venda data de dezembro de 2025, todos os pagamentos foram feitos diretamente na conta de Jacques Wagner até meados de abril e a escritura foi lavrada em maio. Em 10 de junho demos entrada para registro, portanto, antes da deflagração da operação. Infelizmente, acabei figurando nessa história como terceiro de boa fé”, afirmou.
Por meio da defesa, Jaques Wagner negou irregularidades. “A defesa do senador Jaques Wagner esclarece que ele não se manifestará sobre condutas que não sejam sobre sua campanha eleitoral. Todos os demais assuntos estão e continuarão sendo tratados judicialmente. Todos os fatos apurados são públicos e com registros públicos. Não há mínima irregularidade e nem nada a esconder”, afirmou o advogado Pablo Domingues.
Após a publicação da reportagem do Estadão, a defesa enviou uma nova nota afirmando que “a venda do imóvel é resultado de uma negociação iniciada em 2024 e formalizada em 2025 pelo City Football Group, conforme demonstram os documentos”.
“O acordo previa a permuta do imóvel por lotes do empreendimento e o pagamento antecipado de R$ 2 milhões, valor devidamente declarado, com o recolhimento do imposto sobre o ganho de capital (DARF pago em 30/06/2025). A escritura publica foi lavrada em maio de 2026, preservando a natureza da operação como uma permuta”, diz a defesa.