Trump quer reconfigurar segurança regional - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Trump quer reconfigurar segurança regional

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Por Redação

Entenda a Iniciativa Anticartel de Trump e suas Implicações para o Brasil

Por Marcos Degaut*

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A declaração incisiva do Presidente Donald Trump ao Congresso – Os cartéis estão em guerra contra a América, e é hora de a América declarar guerra aos cartéis – já prenunciava inflexão doutrinária que promoveria uma reorientação estratégica na política de segurança nacional dos Estados Unidos.

A diretriz presidencial que autoriza o Pentágono a empregar força militar contra cartéis de drogas na América Latina não é mera escalada na guerra às drogas, mas uma resposta a ameaças transnacionais que há muito transcenderam a esfera do crime organizado, adentrando o domínio da segurança estatal.

Historicamente, a abordagem dos EUA ao narcotráfico oscilou entre a repressão policial e a ajuda de segurança, muitas vezes com resultados ambíguos. No entanto, a ascensão de cartéis com capacidade paramilitar, vastas redes de influência e impacto devastador na saúde pública americana, exemplificado pela crise do fentanil, demandava recalibração radical.

A designação oficial de oito cartéis latino-americanos, incluindo seis mexicanos, como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) em fevereiro, constitui o pilar legal e conceitual dessa nova abordagem.

Ao categorizar os grupos Tren de Aragua, Mara Salvatrucha (MS-13), Cártel de Sinaloa, Cártel de Jalisco Nueva Generación, Cártel del Noreste (anteriormente conhecido como Los Zetas), La Nueva Familia Michoacana, Cártel de Golfo e Cárteles Unidos não apenas como criminosos, mas como atores que ameaçam diretamente a segurança nacional, Washington habilita um arsenal de ferramentas mais robustas, incluindo a ação militar direta.

Mais do que uma ampliação das táticas antidrogas, trata-se da elevação do combate aos cartéis ao nível de prioridade de segurança estratégica, alinhada ao enfrentamento de grupos terroristas globais como Al-Qaeda e ISIS.

Essa categorização dos cartéis como FTOs, que ocorreu dias após a aprovação pelo Senado mexicano da presença do 7º Grupo de Forças Especiais do Exército dos EUA para treinamento conjunto com o Corpo de Fuzileiros Navais do México, ampliou a capacidade de lançar operações secretas autorizadas pelo presidente.

Somado a isso, outras medidas recentes do governo Trump, como a imposição de novas tarifas a Canadá e México para pressionar por maior cooperação, o envio de novas tropas do Comando Norte dos EUA para a fronteira sul e os voos de drones de vigilância da CIA sobre o México, confirmam a velocidade e a escala dessa contraofensiva.

A operacionalização dessa diretriz sugere uma estratégia multifacetada, baseada em sequência de movimentos calculados e assertivos, fundamentados em análise detalhada das dinâmicas regionais e das capacidades dos cartéis. A primeira etapa, que já vinha sendo desenvolvida, passa pelo fomento de parcerias e treinamento.

Nessa moldura, a construção de relacionamentos confiáveis na cooperação EUA-México parece ser um desafio de certa complexidade, dada a comprovada infiltração dos cartéis em instituições mexicanas.

Casos como os do ex-Ministro da Defesa Gen. Salvador Cienfuegos Zepeda (acusado em 2020 de usar sua posição para auxiliar o Cartel H-2), e do ex-Secretário de Segurança Pública Genaro García Luna (sentenciado em 2024 por aceitar propina do Cartel de Sinaloa) sublinham a profundidade do problema.

A nomeação de Ron Johnson como embaixador dos EUA no México – um ex-Boina Verde, veterano da CIA com experiência em operações paramilitares – reflete a disposição de Trump em mitigar riscos de contrainteligência e garantir cooperação.

O segundo estágio corresponderia à identificação dos alvos prioritários, em contexto do qual o Cartel de Sinaloa emerge como o principal alvo. Não apenas é uma das duas organizações responsáveis pela maioria do tráfico de drogas para os EUA, mas sua influência abrange extorsão, mineração ilegal, roubo de petróleo e lavagem de dinheiro em negócios formais.

O que o torna estrategicamente crucial é sua profunda ligação com a China no comércio de fentanil – dependendo de precursores químicos chineses e utilizando redes de lavagem de dinheiro chinesas para lavar lucros ilegais.

O Cartel de Sinaloa, ao aliar-se a um adversário estatal majoritário para inundar os EUA com drogas mortais, representa uma violação direta da soberania americana e uma ameaça à segurança nacional.

Atacá-lo primeiramente não só teria o condão de desorganizar um dos maiores produtores de fentanil no Hemisfério Ocidental, mas enviaria uma mensagem inequívoca a outros cartéis para que se abstenham de engajar com a China e outros estados hostis aos EUA.

Na sequência, a ação mais lógica seria a transição do combate aos cartéis de uma abordagem predominantemente policial, baseada nas ações da Drug Enforcement Agency (DEA) e do Federal Bureau of Intelligence (FBI) para uma estratégia de “Choque e Espanto” (Shock and Awe), operações abertas, conduzidas por militares, ou secretas, conduzidas por operativos da Central Intelligence Agency (CIA).

Essa modalidade, já preferida por Trump em esforços contraterroristas contra a Al-Qaeda e o ISIS, utilizaria oficiais paramilitares da CIA ou unidades de forças especiais, frequentemente sob o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC).

A designação dos cartéis como FTO segue o precedente do governo Trump ao listar a Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) como terrorista, oito meses antes da eliminação do General Qasem Soleimani. No contexto dos cartéis, a estratégia de “Choque e Espanto” visaria sobrepujar suas forças através de ataques coordenados, eliminando alvos da média hierarquia do grupo.

Isso incluiria apoio aéreo pesado para prevenir contraofensivas e o uso de drones para destruir centros de comando, laboratórios de fentanil e depósitos de armas. Tais ações diretas complementariam, mas não substituiriam, as extradições de líderes seniores, focando na desarticulação dos bandos armados e dos chamados “sicários” que impõem o domínio do cartel pela violência.

Após esse estágio de pressão extrema, a administração Trump historicamente busca o engajamento em nível político, sendo esperado que pressione o governo mexicano a adotar medidas mais efetivas para a interrupção do tráfico de drogas (sobretudo sintéticas) e de pessoas para os EUA, exigindo também a diminuição na ênfase de laços comerciais com adversários estatais como a China.

Dessa forma, longe de ser uma solução puramente militarista, a visão de buscar negociações pós-pressão para forçar a cessação de atividades ilícitas aponta para uma estratégia de longo prazo que combina o poder discricionário com a busca por estabilidade.

Implicações Diplomáticas e a Redefinição da Estratégia Nacional

As implicações diplomáticas, particularmente com nações como México e Venezuela, demandam navegação cuidadosa. A preocupação com a soberania nacional, expressa por alguns governos latinos, é legítima em princípio.

Contudo, a magnitude da ameaça que os cartéis representam para a estabilidade regional e a governança interna desses países, e de toda a região, supera, em muitos casos, as objeções protocolares.

A cooperação já existente entre forças especiais americanas e a Marinha mexicana, por exemplo, serve como precedente que demonstra a viabilidade de parcerias operacionais, mesmo em ambientes sensíveis.

A infiltração dos cartéis nas instituições estatais mexicanas torna a assistência externa não apenas desejável, mas potencialmente vital para a capacidade do México de combater essa ameaça internamente. O desafio não é a imposição, mas a construção de uma aliança genuína contra um inimigo comum que não respeita fronteiras ou soberanias.

Por outro lado, a adoção dessa postura mais assertiva carrega riscos inerentes, incluindo a possibilidade de retaliação dos cartéis ou a exacerbação de tensões regionais. No entanto, o custo da inação ou de abordagens meramente paliativas tem se mostrado incomensuravelmente maior, medido em vidas perdidas e na desestabilização de nações parceiras.

A diretriz de Trump não é um salto no escuro, mas uma aposta calculada na capacidade dos EUA de projetar poder para proteger seus cidadãos e seus interesses vitais. Ela sinaliza que a tolerância à impunidade e à desestabilização regional causada por esses atores não-estatais chegou ao limite.

O emprego de força militar contra cartéis na América Latina é uma atualização necessária na doutrina de segurança dos EUA, que reconhece a natureza terrorista dessas organizações, e valida uma resposta proporcional à ameaça que representam, oferecendo oportunidade sem precedentes para redefinir as dinâmicas de segurança no hemisfério.

Em termos de eficácia e adaptabilidade das políticas de segurança internacional, essa medida não é apenas justificada; é um passo estratégico e audacioso que demonstra a seriedade com que Washington encara a proteção de seus interesses e a estabilidade regional diante de ameaças que se tornaram existenciais.

É um imperativo da força para os tempos desafiadores em que vivemos. Como articulado pelo Secretário de Defesa Pete Hegseth, “o caos acontece quando a percepção da força americana não é completa. E assim, buscamos restabelecer essa dissuasão, e isso começa em nossa própria fronteira sul. Começa com a defesa de nossa pátria.”

Efeitos no Brasil

Todavia, embora focada inicialmente em ameaças provenientes de México e Venezuela, a diretriz presidencial projeta sombras e potenciais impactos em todo o continente, incluindo o Brasil.

Considerando a presença de organizações criminosas altamente estruturadas e influentes como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) no Brasil, essa iniciativa poderia reverberar significativamente nos campos geopolítico, político, militar e econômico brasileiros.

A ação dos EUA estabelece precedente para uma abordagem mais intervencionista na região contra organizações criminosas transnacionais. Isso gerará pressões, diretas e indiretas – todas necessárias –, sobre o Brasil para que adote medidas mais agressivas ou para que aumente a cooperação com os EUA no combate a essas facções criminosas, o que poderá criar mais tensões no já delicado relacionamento atual entre os dos países.

Do ponto de vista tático, uma supressão bem-sucedida na América Central poderia forçar as rotas de tráfico a se deslocarem para o sul.

O Brasil, com suas fronteira porosas e sua posição estratégica como ponte entre os países produtores de cocaína (Andes) e os mercados consumidores (Europa, África), poderia se tornar um hub ainda mais proeminente para o narcotráfico. Isso poderia fortalecer economicamente as facções locais, aumentando a pressão sobre as forças de segurança brasileiras.

O aumento da proatividade militar dos EUA na região pode reconfigurar as dinâmicas de poder e influência na América do Sul. O Brasil, ator tradicionalmente central na busca por soluções regionais e na promoção da integração sul-americana, pode encontrar-se em posição onde a liderança dos EUA se torna mais dominante em questões de segurança, diminuindo o espaço para iniciativas regionais brasileiras.

Essa situação poderia reacender no Brasil o sensível debate sobre a soberania nacional e a possibilidade de interferência externa. Partidos políticos e movimentos sociais de esquerda, em particular, criticariam qualquer aproximação militar com os EUA.

Não se descuida, ainda, que a ênfase na ação militar contra cartéis nos EUA pode encorajar uma maior utilização das Forças Armadas brasileiras em operações de segurança interna. Embora nossas Forças Armadas já atuem em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e combate a crimes transfronteiriços, essa iniciativa americana poderia intensificar tais operações e levá-las a um novo patamar de engajamento contra facções como PCC e CV, desafiando a tradicional doutrina de defesa nacional.

Nesse sentido, a experiência dos EUA no combate a grupos designados como FTOs pode influenciar a doutrina militar brasileira, levando a uma maior especialização em guerra assimétrica e em operações de contrainteligência e contraterrorismo direcionadas a organizações criminosas urbanas e transnacionais.

Em conclusão, a diretriz de Trump, embora focada em outra parte da América Latina, gera uma série complexa de potenciais impactos para o Brasil. Da pressão para uma maior militarização da segurança interna e alinhamento com a agenda de segurança dos EUA, passando pelo risco de redirecionamento de fluxos de tráfico e pelo impacto nas relações diplomáticas, o Brasil teria que navegar um cenário geopolítico e doméstico mais complexo, equilibrando sua soberania com a urgência de combater ameaças transnacionais que desafiam a própria estabilidade do Estado, em um contexto em que o combalido governo brasileiro atual tem pouquíssima capacidade de interlocução com o governo norte-americano, consequência de uma série de escolhas de política externa equivocadas e da ausência de um projeto de país.

* Marcos Degaut é Doutor em Segurança Internacional, Pesquisador Sênior na University of Central Florida(EUA), ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e Ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

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