Trump adota 'diplomacia de guerrilha' contra Moraes - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Trump adota ‘diplomacia de guerrilha’ contra Moraes

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Por Claudio Dantas

Como registramos há pouco, Jason Miller, conselheiro de Donald Trump, escreveu no X que “não vai parar” até que Jair Bolsonaro esteja “livre”. A manifestação se soma a pronunciamentos oficiais, entrevistas e postagens que vêm sendo feitas por diferentes funcionários do alto escalão do governo americano, numa estratégia inédita de pressão contra Alexandre de Moraes, o STF e o governo Lula.

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A maior parte dessas manifestações é reproduzida no X pelo perfil da Embaixada dos EUA em Brasília, reverberando posições de Trump e de seus secretários.

Durante quase todo o primeiro semestre, as publicações trataram da cooperação bilateral e de questões sobre a imigração ilegal — em fevereiro, dezenas de brasileiros foram deportados, inclusive criminosos, o que gerou uma tensão inicial sem outras consequências. Apear do atrito, o clima permaneceu ameno.

No início de maio, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, chegou a se reunir com Fernando Haddad, e a embaixada reproduziu comentário seu sobre o ministro da Fazenda. “Foi bom ouvir suas perspectivas sobre os laços econômicos entre os Estados Unidos e o Brasil, e enfatizei a importância do nosso relacionamento bilateral no Hemisfério Ocidental”, disse.

Bessent foi justamente o responsável pela aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, no último dia 30 de julho. Se o assunto “Moraes” foi tratado com Haddad, nada vazou. Mas, no fim do mês, o secretário de Estado, Marco Rubio, anunciou a “nova política de restrição de vistos” dos EUA, a ser aplicada “a autoridades e pessoas estrangeiras que sejam coniventes com a censura de americanos”.

A representação diplomática traduziu e postou o pronunciamento de Rubio, que alertava: “A liberdade de expressão é essencial para o nosso modo de vida – um direito de nascimento sobre o qual governos estrangeiros não têm autoridade.”

A partir daquele momento, parecia claro que a Casa Branca escalaria no discurso. No dia seguinte, o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental elevou o tom e foi retuitado pela embaixada: “Que fique claro: nenhum inimigo da liberdade de expressão dos americanos será perdoado.” Mas quase um mês se passaria antes de uma nova postagem polêmica.

Em 22 de junho, a embaixada agitou as redes ao publicar imagem feita pela Nasa da Serra de Caldas, especificamente da região que foi a cratera de um extinto vulcão; área de jazida de terras raras. Mesmo sem qualquer citação ao STF e a Lula, especulou-se sobre a existência de urânio e uma resposta à crítica do Brasil ao ataque americano no Irã.

Já em 9 de julho os recados ganharam contornos de ações concretas com a carta de Donald Trump a Lula, ameaçando taxar as exportações brasileiras em 50% e exigindo o encerramento da ação penal contra Jair Bolsonaro e o fim da “caça às bruxas” contra a direita.

Cinco dias depois, a embaixada voltaria no tema com a republicação de uma postagem do representante sênior do Escritório para Diplomacia Pública do Departamento de Estado, Dearren Beattie, alertando sobre a imposição de “consequências há muito esperada ao Supremo Tribunal de Moraes e ao governo Lula, em resposta aos ataques a Jair Bolsonaro, à liberdade de expressão e ao comércio dos EUA”.

“Esses ataques são vergonhosos e desrespeitam as tradições democráticas do Brasil. As declarações do presidente Trump são claras. Estamos acompanhando de perto a situação.”

No dia 16, outras duas publicações reforçaram a notícia da abertura de uma investigação baseada na Seção 301 do USTR, para responsabilizar o Brasil “por suas práticas comerciais desleais e garantirá que as empresas americanas sejam tratadas de forma justa”.

Dois dias mais tarde, quando Jair Bolsonaro foi alvo de buscas e obrigado a usar tornozeleira eletrônica, a embaixada fez nova postagem com a tradução da um tuíte do próprio Rubio, citando a ameaça de Trump de responsabilizar “cidadãos estrangeiros responsáveis por censurar a liberdade de expressão protegida nos Estados Unidos”.

No dia 24, o perfil da representação diplomática no X reproduziu novamente postagem de Dearren Beattie, ainda mais dura. Ele acusou Moraes de ser “o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro, que, por sua vez, tem restringido a liberdade de expressão nos EUA”. “Graças à liderança do presidente Trump e do secretário Rubio, estamos atentos e tomando as devidas providências.”

MAGNITSKY CONTRA MORAES

Quase como numa reação à escalada contra Bolsonaro promovida por Moraes, o Departamento do Tesouro anunciou no dia 30 de julho a aplicação da Lei Global Magnitsky contra Moraes; e a Casa Branca antecipou o anúncio do tarifaço, antes previsto para o dia 1 de agosto.

Naquele dia, não houve publicações sobre o tema. Mas, em 4 de agosto, a embaixada voltaria a reproduzir tuíte do Escritório para o Hemisfério Ocidental dirigido diretamente ao ministro do STF.

Antes da manifestação de Miller, a embaixada repostou no sábado publicação fortíssima do subsecretário de Estado, Christopher Landau, que ainda não tinha entrado publicamente na briga.

O número 2 de Rubio disse que Moraes “destruiu a relação histórica de proximidade entre Brasil e Estados Unidos”, ressaltando que “um único ministro do STF usurpou poder ditatorial ao ameaçar líderes dos outros poderes, ou suas famílias, com detenção, prisão ou outras penalidades”.

“A situação é sem precedentes e anômala, justamente porque essa pessoa veste uma toga judicial. Sempre é possível negociar com líderes dos poderes Executivos ou Legislativos de um país, mas não com um juiz, que deve manter a aparência de que todas as suas ações são ditadas pela lei. Assim, nos encontramos em um beco sem saída, o usurpador se reveste do Estado de Direito, enquanto os demais poderes afirmam estar impotentes para reagir.”

De fato, é uma situação sem precedentes e anômala. Parte dessa nova ‘diplomacia de guerrilha’ é resultado da falta de iniciativa do governo Lula para tentar resolver a tensão via canais diplomáticos tradicionais. A reunião entre Haddad e Bessent, em maio, demonstra que não há “ausência de interlocução”, mas falta de vontade política por parte da atual gestão petista.
A má vontade parece ter como objetivo o agravamento da crise para justificar um afastamento estratégico em relação aos EUA, com aproximação ainda maior da China e de outros países do eixo autocrático global.   

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