Tiago Santineli ainda é um adolescente revoltado com os pais - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 03 de julho de 2026
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Tiago Santineli ainda é um adolescente revoltado com os pais

Tiago Santineli. Foto: Reprodução/YouTube.
Tiago Santineli. Foto: Reprodução/YouTube.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Tiago Santineli, uma personalidade socialista das redes sociais que se diz “ex-comediante”, teve cancelado seu visto para os Estados Unidos após fazer uma piada em que comemorava a morte de Charlie Kirk.

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Dessa vez, ele voltou a ser comediante. “Eu sou o primeiro comediante do mundo que foi banido de entrar nos Estados Unidos, que teve o visto revogado, por causa de piada”, afirmou ontem, ao divulgar a notícia.

Ele também replicou comentários de outros perfis de esquerda alegando que a revogação do visto seria sinal de hipocrisia de quem disse antes defender a liberdade de expressão.

Cobrar coerência é a crítica política mais preguiçosa que existe. Difícil é dar o exemplo oposto, de defesa de princípios. Santineli certamente não é exemplo nenhum do valor que agora está cobrando dos americanos.

Segundo o humorista Cassius Ogro, desafeto de Santineli, o socialista ofereceu cobrir custos das passagens já pagas caso casas de eventos cancelassem shows de Cassius. Se for verdade, Santineli é um praticante ativo do cancelamento do qual já foi alvo.

Santineli gosta de testar limites. Com quase um milhão de seguidores no YouTube, ele segue provocando conservadores e especialmente bolsonaristas como puder. Há dois anos, ele fez para um de seus shows uma simulação de espancamento contra o empresário Luciano Hang.

Quando uma juíza de São Paulo condenou o humorista Léo Lins à cadeia, contudo, Santineli não expressou nenhuma solidariedade. Pelo contrário. Debatendo com Claudio Manoel do Casseta e Planeta e outros humoristas no podcast Inteligência Limitada, o “ex-comediante” utilizou todo tipo de argumento clichê da cultura woke para justificar a condenação: que não é permitido humor que venha “de cima para baixo”, que “não existe racismo reverso” e que Lins não será preso porque é um homem branco.

Penduricalho de platitudes e contradições

O problema das opiniões de Santineli é que, com alta frequência, não fazem sentido nenhum. Quando ele fez piada com a simulação de Luciano Hang, por exemplo, o empresário ainda estava sob censura de Alexandre de Moraes.

É difícil para um socialista entender, mas um indivíduo censurado sendo gravemente insultado por outro indivíduo, que goza de direitos de expressão que ele não tem, é um caso de alvo “de cima para baixo”, não importa quanto dinheiro o primeiro tenha. Não que essa regra woke contra o humor seja válida — é mais uma besteira.

Para qualquer observador, defender ou minimizar uma condenação à prisão de Léo Lins por piadas ditas de “mau gosto”, enquanto se faz piada com o assassinato de um comentarista político ou sobre matar a pauladas um empresário, é simplesmente uma posição contraditória.

E uma posição contraditória é saliente por sua falta de nexo lógico, o que é um defeito muito mais importante com o rótulo político que se pode colar nela.

Santineli, revoltado com a religião de seus pais

Assisti a algumas horas de conteúdo de Santineli entre seus shows, comentários e entrevistas. A história que ele conta é que cresceu pobre em Samambaia, a região de classe média do Distrito Federal. Ele foi criado evangélico, por pais estritos, e perdeu a fé depois de ler alguns livros sobre contradições da Bíblia.

É comum que ateus criados em lares religiosos passem por uma fase de revolta contra a religião. Sei disso por experiência própria. Se sentem traídos por terem sido educados na religião, passam a considerar a religião um mal que “envenena tudo” (como colocou em um subtítulo de livro o jornalista britânico Christopher Hitchens).

É uma espécie de adolescência espiritual, que pode ou não ser correlacionada com a adolescência literal e vem com a mesma carga de excesso de confiança em si mesmo, uma dose de ingratidão e uma postura de enfrentamento contra quem acredita.

Com a idade e o amadurecimento, os ateus encontram formas mais positivas de viver sua vida sem fé. Abraçam o humanismo secular, se dedicam a estudar a religião de forma desapaixonada, entendem que a religião é um fenômeno universal no ser humano e que um mundo sem religião seria uma utopia. Na verdade, distopia, já que não há garantia nenhuma de que seja um mundo melhor.

A questão da verdade de existir ou não um Deus, ou mais de um, continua importante, é um dos temas filosóficos mais salientes da vida, afinal. Mas pode-se perseguir a verdade nisso com a postura calma de um investigador. “Deus sabe” que a postura combativa de um militante da antifé mais atrapalha que ajuda. Amar ou odiar demais uma hipótese acima das outras é um impedimento ao exame dos méritos de cada uma.

Mas Tiago Santineli, já com 33 anos — idade de Cristo —, não saiu dessa adolescência. “Os crentes estão destruindo o planeta” é o título de seu vídeo mais recente, no qual ele acusa a senadora Damares Alves de comemorar a morte de crianças indígenas e chama o deputado Nikolas Ferreira de “dejeto humano”.

O vídeo consiste em longos 40 minutos de comentários de notícias em que ele acha que suas platitudes e superficialidades são tão especiais que ele diz à audiência que está fazendo a sua parte para “conscientizar vocês e libertar vocês da ignorância”.

As platitudes são os produtos mais baratos da feira de crenças da esquerda: alarmismo climático, demonização de evangélicos, demonização de empresários e o velho sonho do fim do “capitalismo”.

Revolta com a religião virou revolta com o capitalismo

Santineli perdeu uma namorada quando perdeu a fé no cristianismo. Quando criança, expressou o desejo de se tornar escritor e foi desencorajado pela mãe evangélica.

Em seu show “Pai da Mentira” (uma brincadeira sobre o Diabo, mas também sobre ele ter nascido em 1º de abril), o influenciador se colocou como parte da “classe trabalhadora”. “A gente que é classe trabalhadora, a gente tem que tomar a frente nesse tipo de decisão”, disse ele, arejando crenças socialistas.

A forma como ele descreve sua conversão ao socialismo lembra muito depoimentos de convertidos ao evangelicalismo. Ele diz, mais de uma vez, que em algum ponto impreciso do passado ele viu que “teu lugar no capitalismo é ser uma engrenagenzinha” cuja função é “só gerar lucro para alguém e morrer”.

Mas aqui, também, há contradições. Parte da experiência, ele diz, foi ter feito por pressão dos pais um concurso público para os Correios. Ele confessa que mal estudou para a prova e, ao fazê-la, teve uma epifania: “Em que momento da minha vida eu decidi virar carteiro?” Ele usa o caso para tentar exemplificar como o “capitalismo” remove a liberdade pela limitação das escolhas. O fato de que uma família pobre só vê esperança para o futuro dos filhos no concurso público, para ele, é culpa do capitalismo. Faz sentido?

Apesar de ele dizer em seu canal que suas opiniões são cientificamente embasadas — a melhor piada que ele já contou —, o que tem embasamento científico é que a liberdade econômica é a principal força para tirar as pessoas da pobreza, não políticas socialistas. Até o cantor Bono Vox, do U2, depois de perder décadas de sua vida criticando o capitalismo e enxugando gelo com caridade, reconheceu em entrevista de 2022, já sexagenário, que o que tira as pessoas da pobreza “é o comércio” e “o capitalismo empreendedor”. Tiago vai esperar até essa idade para parar de falar besteira contra a liberdade econômica?

Tiago parece não enxergar, mas realizou seu sonho de ser escritor, pois seus shows nada mais são do que texto declamado. Talvez ainda pense que não realizou porque sua realidade atual, que é a de escrever críticas sociais superficiais e terraplanismo econômico para uma plateia de esquerda, contrasta muito com aquela imagem idealizada de um Ernest Hemingway ou de um Machado de Assis, vivendo do texto e gozando de prestígio.

Na cabeça de Santineli, foi o “capitalismo” que tirou sua liberdade de fazer o que ele sonhava em fazer. Mas é o contrário: as outras pessoas que são livres, em suas decisões econômicas, de financiar piada polemiquinha mal construída acima dos Grandes Sertões: Veredas que ele acredita que seria capaz de escrever.

O tipo de “liberdade” socialista que Santineli reivindica é a liberdade de agir no mundo sem ser limitado por escassez de recursos ou pelas vontades e preferências de seus concidadãos. Esse tipo de liberdade, sim, é uma ilusão. A escassez é um fato da realidade contra o qual os terraplanismos econômicos da esquerda lutam em vão há séculos.

Mas ele acha que está arrasando quando diz a liberais que eles são livres para tentar usar o dinheiro que não têm para passear pela Europa amanhã, “provando” para eles que é um erro ancorar crenças políticas na liberdade sob o regime “capitalista”. Enquanto isso, quem está fazendo turnê pela Europa é Santineli, não o personagem de sua lacrada que ele relatou com orgulho no show — resta saber se o “argumento” convenceu o interlocutor de direita, que não está ali para se defender da lacrada.

Para agravar as coisas, a liberdade que realmente importa — de não ser coagido por pensar como se pensa, contar a piada que lhe pareça engraçada e desafiar universitários progressistas a debater —, esta Santineli aplaude quando é violentamente diminuída no mundo. Mas quando é com ele, ele reclama, claro.

Santineli, portanto, aplicou sua irrazoabilidade de ex-crente à política. Encontrou no socialismo uma nova religião e no anticapitalismo um novo deus. Não bastava ser de esquerda para contrariar os pais, ele abraçou o comunismo, a extrema-esquerda.

Não há um hater pior que um ex-fã. Não há ateu mais antirreligioso que aquele que já foi fervoroso em sua fé. E os convertidos ao anticapitalismo com frequência carregam ressentimento porque seus sonhos criativos tinham uma baixa demanda no mercado.

Afinal, é “ex-comediante” ou comediante?

Seus críticos e ex-colegas da comédia, quando dizem que Tiago não é mais humorista, têm certa razão, ainda que digam isso por implicância política.

Olhemos essa crítica por diferentes ângulos. Primeiro, a duração dos shows.

Enquanto um comediante experiente de stand-up leva muito tempo para produzir no máximo uma hora de conteúdo para apresentar em um especial — consulte a duração dos shows de monstros dessa modalidade de comédia como George Carlin, Norm Macdonald, Jim Gaffigan, Bill Burr, Joan Rivers e Louis C. K. — o show de comentário político intercalado com piadas óbvias de Santineli dura longas duas horas e meia. Ele está entregando quantidade, não necessariamente qualidade.

E a qualidade do que está sendo entregue pode ser aferida da reação da plateia. Metade das reações, se não mais, são aplausos em vez de risadas. O comediante canadense Norm Macdonald tinha uma tese filosófica a esse respeito: o riso é involuntário, as palmas são voluntárias. Se quem está no palco provoca mais palmas que risos, não está entregando exatamente humor, mas dizendo o que a plateia quer ouvir.

Se Santineli quer ser ainda um humorista que faz piadas limítrofes e provocativas, ele tem que se provar como tal arrancando mais risos que aplausos da plateia enquanto a faz, ao mesmo tempo, se sentir culpada por ter rido de coisas que, removendo o animus jocandi, seriam horríveis. E ele precisaria fazer isso ampliando seu leque de alvos. A preferência por evangélicos e bolsonaristas deixa muito claro que a intenção não é tanto humorística, mas vingativa e rancorosa, emoções que pouco combinam com humor.

Talvez, por trás de todas as discussões teológicas, políticas e pessoais, Santineli seja apenas um eterno adolescente. Se antes quis levar alegria para o coração dos mal-humorados, agora virou coach de socialista, como ele próprio diz.

Mas ele diz isso e muito mais sob o verniz de ironia e humor que aplica em tudo o que sai de sua boca, para não precisar se responsabilizar por nada e poder sempre fazer uso da negabilidade plausível. Uma acusação que fazem contra Léo Lins, mas é verdadeira apenas para Tiago Santineli.

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