A Polícia Federal concluiu que o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) teria alertado o então parlamentar Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias, sobre a deflagração da Operação Zargun, que teve como alvo integrantes do Comando Vermelho.
A informação consta no relatório final do inquérito, que aponta a existência de indícios de vazamento de dados sigilosos às vésperas da ação policial, realizada em 3 de setembro de 2025.
De acordo com o documento, o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado como liderança da facção no Complexo do Alemão, afirmou que TH Joias confirmou ter recebido o aviso. O diálogo teria ocorrido durante uma audiência de custódia.
No termo de declarações anexado ao inquérito, Gabriel relatou:
“Falei, pô, mano, você já sabia da operação? Ele, pô, já sabia, pô. O Bacellar me avisou. O Bacellar me avisou e tal.”
Para a PF, o trecho reforça a suspeita de que informações sobre a operação foram repassadas antes do cumprimento dos mandados.
Ligações na véspera e esvaziamento de imóvel
Os investigadores identificaram registros de chamadas e mensagens entre Bacellar e TH Joias na tarde de 2 de setembro, um dia antes da operação. A corporação sustenta que o contato não foi “fortuito”, mas parte de uma possível articulação para antecipar a ação policial.
Quando os agentes cumpriram os mandados no endereço ligado a TH Joias, na Barra da Tijuca, o ex-deputado não foi localizado. O relatório aponta indícios de retirada prévia de objetos e ausência de itens considerados relevantes para a investigação.
“Ao chegar no endereço aposto nos mandados, havia indícios de prévio vazamento da realização da ação policial”, registra o documento. Segundo a PF, o cenário indicava remoção organizada de pertences, e não reviravolta típica de busca surpresa.
A Operação Zargun resultou em 18 mandados de prisão preventiva, 22 de busca e apreensão e bloqueio de bens estimados em R$ 40 milhões. A ação foi conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da PF em conjunto com o Ministério Público Federal.
Indiciamentos
Foram indiciados Rodrigo Bacellar, TH Joias, Flávia Júdice Neto, Jéssica Oliveira Santos e Tharcio Nascimento Salgado. O desembargador Macário Judice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, não foi indiciado, segundo a PF, em razão das regras específicas previstas na Lei Orgânica da Magistratura.
Em dezembro, Bacellar foi preso na Operação Unha e Carne, desdobramento das apurações sobre o suposto vazamento. Dias depois, ele deixou a prisão por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que substituiu a detenção por medidas cautelares. Posteriormente, a Assembleia Legislativa do Rio votou pelo relaxamento da prisão.
Suspeita de infiltração política
A Polícia Federal afirma ter identificado um esquema que envolveria lideranças do Comando Vermelho e agentes políticos, com objetivo de obter acesso a informações estratégicas e garantir proteção institucional. A investigação aponta ainda suspeitas de tráfico internacional de armas, importação de equipamentos antidrones e lavagem de dinheiro.
TH Joias foi preso sob suspeita de intermediar a compra de armas e drogas para a facção. Ele havia assumido mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro meses antes da operação, mas perdeu o cargo após a prisão.
