Sr Fafo ou Sr Fake?
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Sr. Fafo ou Sr. Fake?

Saleh al-Jafarawi em seus vários papéis. Fotos: reprodução/redes sociais.
Saleh al-Jafarawi em seus vários papéis. Fotos: reprodução/redes sociais.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Propagandista pró-Hamas que “faleceu” várias vezes em vídeos morre de verdade pelas mãos de palestinos

O rosto de Saleh al-Jafarawi  tornou-se notório cedo na guerra de propaganda entre Hamas e Israel, paralela à guerra real desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. Por causa de um dos memes favoritos de Elon Musk, FAFO, sigla para algo como “faça m e descubra” em inglês, ele foi apelidado de “Sr. Fafo”.

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Após apenas um mês desde o início da guerra, a revista Tablet documentou as aparições. Em um vídeo, o Sr. Fafo aparecia se contorcendo de dor em um hospital de Gaza, com eletrodos dramáticos colados pelo corpo. Um ou dois dias depois, ele se transformava em um “radiologista”, ajudando um paciente ensanguentado a fazer ressonância magnética.

Até aquela data, 14 de novembro de 2023, al-Jafarawi  havia “morrido” na frente das câmeras duas vezes. “Como Lázaro, voltou à vida”, comentou Liel Leibovitz, editor da revista.

O filho do Sr. Fafo, uma boneca de plástico, foi tragicamente vítima de um bombardeio israelense. De todos os personagens, de combatente portando fuzil a cantor, o que ficou mais tempo foi o papel de “jornalista”, como prefere chamá-lo a Al Jazeera, veículo do Catar que está longe de imparcial sobre o conflito.

Foi com o colete de imprensa que al-Jafarawi  fez uma aparição final, no domingo (12), agora finalmente com a seriedade pretendida por ele desde o início da guerra: morto com um tiro na cabeça. Tragicamente, a vida imitou a arte.

Al-Jafarawi  foi impedido, aos 28 anos, de ver a chegada dos efeitos do cessar-fogo e, potencialmente, da paz em Gaza.

As fontes da Al Jazeera informaram que ele foi morto por membros de uma “milícia armada” no bairro de Sabra, na Cidade de Gaza. Na reportagem, o veículo alegou que a milícia é “ligada a Israel”. A fonte da acusação contra Israel é o “Ministério do Interior” de Gaza, ou seja, o Hamas.

A milícia, no caso, é um grupo palestino inimigo do Hamas conhecido como clã Doghmush. Coloquemos os fatos da forma como o veículo do Catar não quer: Saleh al-Jafarawi foi morto por seus concidadãos palestinos.

Sr. Fafo não era desonesto só nas imagens

A Al Jazeera deixou de fora um fato de seu breve obituário: o Ministério da Saúde em Ramallah (não confundir com o “Ministério da Saúde de Gaza”, que é do Hamas) em março acusou al-Jafarawi  de embolsar US$ 10 milhões em doações para a reconstrução do Hospital Pediátrico Al-Nasr.

As informações são do jornal The Jerusalem Post, que preferiu chamar o palestino de “influenciador”. O fabulista teria feito uma transmissão em vídeo usando o logo do ministério e da Sociedade Humanitária do Kuwait, alegando que foram as autoridades de Gaza que sugeriram a meta de doações.

Foram arrecadados no mínimo 9,9 milhões de dólares e muitos palestinos ficaram indignados com o suposto desvio. Logo, o Sr. Fafo fez muitos inimigos em Gaza.

“Desde o 7 de Outubro”, disse o jornal, “al-Jafarawi  foi visto em muitos vídeos de propaganda ‘Pallywood’ em Gaza, atuando como pai, cirurgião, ‘combatente da liberdade’, um cadáver suspeitosamente móvel, entre outros”.

“O Sr. Fafo ganhou um Hamáscar e uma Cabra de Ouro de melhor ator e melhor diretor tanto na categoria de documentário quanto na categoria de série de comédia”, disse o comentarista mais bem-avaliado no jornal.

O termo Pallywood, trocadilho de Palestina e Hollywood, foi cunhado pelo acadêmico Richard Landes para descrever uma “tradição cinemática” local em que “uma grande variedade de partidos políticos e grupos terroristas criam vídeos falsos dramáticos e os mandam para veículos simpáticos da mídia ocidental que pagam por essas fabricações comicamente óbvias e depois as apresentam, cinica e credulamente, como provas da crueldade do Estado judeu”, disse Leibovitz.

A estratégia também é usada pelo regime de Putin na Rússia, que o governo francês pegou em 2022 fabricando uma cova coletiva no Mali com cadáveres que os russos coletaram de outros locais. A intenção era filmar e culpar a França.

Leibovitz, contudo, declarou amor pelo Sr. Fafo: “Por que o amamos tanto? Porque ele é a encarnação pura de uma verdade mais ampla: vivemos em uma era que progrediu para além do argumento racional. Deveria estar óbvio a este ponto que muitos dos canalhas que alegam chorar pela Palestina não se importam realmente com palestinos, mortos ou vivos, ou com israelenses, ou com as complexidades históricas e morais do conflito Israel-Palestina. O que querem é uma desculpa para odiar judeus. Torcem pelo Sr. Fafo não apesar do fato de que ele está obviamente fingindo, mas por causa disso.”

O clã Doghmush é ligado a Israel?

Resta saber se a alegação da Al Jazeera e do Hamas tem algum mérito: a milícia que matou o Sr. Fafo é ligada a Israel?

Não há indícios suficientes disso. O Hamas é um grupo intolerante que responde à dissidência política com balas na cabeça. Outros grupos palestinos têm motivo de sobra para odiá-lo.

O clã é salafista, o ramo fundamentalista sunita seguido por Osama Bin Laden. O grupo raptou o repórter da BBC Alan Johnston em 2007, ano de ascensão do Hamas ao poder.

O Doghmush surgiu de uma cisão com o Hamas há duas décadas e disputa poder com ele, o que suscita acusações de alinhamento a Israel.

Isso não quer dizer que a acusação é completamente sem mérito, contudo. Em junho, como noticiou o Financial Times, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu alegou que Israel estava dando armas para facções de Gaza opostas ao Hamas.

O mandatário confirmou a informação após ela surgir como acusação de seu opositor de direita, Avigdor Liberman. “O que há de errado nisso?”, disse Netanyahu. “É uma coisa boa, salva vidas de soldados”.

O jornal The Palestine Chronicle, que é americano, simpático aos palestinos e acusa Israel de tentar um genocídio em Gaza, em reportagem desta segunda-feira disse com base em fontes do Norte de Gaza que a família Doghmush é “infame” por lá. Um morador disse ao veículo que é um clã criminoso que costumava roubar carros. “Pergunte a qualquer um em Gaza, eles são conhecidos por criar problemas”, disse o homem.

“Apesar dessa reputação”, disse o jornal, “muitos membros dessa família se recusaram explicitamente a colaborar com Israel e foram assassinados por isso, o clã também perdeu quase 100 parentes por causa dos bombardeios de Israel”.

Não há provas, até o momento, que o clã Doghmush tenha matado Saleh al-Jafarawi  a mando de Israel. O grupo tem mais motivos para ser grato ao influenciador, por sua propaganda anti-Israel, mas também para se irritar com ele pelo alegado desvio de doações para o hospital.

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