Em gravação feita por um ex-aliado, Anne Moura exige que o comitê de cultura do Amazonas priorize “artistas parceiros combinados na política” e afirma que a cúpula do Ministério da Cultura autorizou o PNCC para “ajudar” campanhas eleitorais de 2024. O Ministério nega e promete providências jurídicas. Anne Moura alega que o diálogo pode ter sido retirado de contexto. As informações são do Estadão.
A secretária nacional de Mulheres do PT, Anne Moura, afirmou que comitês de cultura criados pelo governo Lula e pela ministra Margareth Menezes foram utilizados para favorecer aliados nas eleições municipais. Em reunião gravada por Marcos Rodrigues, ex-presidente do comitê do Amazonas, ela reforça que “quem foi para a frente da prisão” deve receber tratamento diferenciado “na hora da parte boa”.
O Programa Nacional de Comitês de Cultura (PNCC), criado em 2023, prevê R$ 58,8 milhões para mobilização e formação de artistas. A gestão no Amazonas ficou com o Instituto de Articulação de Juventude da Amazônia (Iaja), ONG fundada por Anne Moura, que recebeu R$ 1,9 milhão para coordenar as atividades.
Na gravação, Anne Moura cobra o envolvimento do comitê na campanha dela a vereadora de Manaus, eleição na qual foi derrotada. “Marcos, quando eu fui lá no MinC agora, da última vez, o pessoal me perguntou: ‘Anne, o comitê tá te ajudando?’. Eu disse: não, Roberta, não tá.” Ela cita Roberta Martins, secretária do MinC responsável pelo PNCC, e afirma que a gestão do comitê no Amazonas não estava alinhada com as diretrizes petistas. “Os comitês no Brasil todo tão articulados com nosso povo. Isso aqui foi uma estratégia organizada com o presidente Lula”, disse.
A secretária critica a escolha de artistas “sem combinar na política quem são os parceiros” e manifesta descontentamento com a presença de Wanda Witoto (Rede) em um ato do comitê. “Vocês escolherem artistas sem combinar na política quem são os artistas parceiros…”. Ela ainda ameaça intervir no comitê para enfraquecer um militante do PSOL que havia assumido protagonismo.
Apesar das queixas, o comitê promoveu publicações favoráveis à candidatura de Anne Moura, descumprindo uma orientação formal do Ministério da Cultura, que determinava que conteúdo das redes sociais tivesse “caráter exclusivamente educativo, informativo ou de orientação social”, vedando “promoção pessoal de candidatos”.
A disputa entre Anne Moura e Marcos Rodrigues resultou no afastamento dele da presidência do Iaja em dezembro de 2024. Ele acusa a petista de usar a estrutura do comitê para fins pessoais. Anne, por sua vez, diz ser vítima de calúnia e difamação. A briga provocou divisão na esquerda no Amazonas.
Em nota, Anne Moura afirmou que não reconhece o teor da gravação e que suas falas “podem estar sendo reproduzidas fora de contexto”. Ela se diz tranquila para prestar esclarecimentos e nega envolvimento em qualquer irregularidade. “Tenho mais de 20 anos dedicados à luta do povo e nunca estive ligada a prática de nenhuma ilicitude”, afirmou.
O Ministério da Cultura afirmou ao Estadão que, ao contrário do que aparece na gravação, Anne Moura não teve conversas com servidores do ministério e que ela não tem relação com a escolha da ONG Iaja para coordenar o comitê de cultura no Amazonas.
