Como descobriram os conservadores brasileiros entre julho e dezembro de 2025, o mesmo Donald Trump que dá é o que tira. É uma espécie de Shiva da política: com uma mão cria, com a outra, destrói. Nos jogos de interpretação de mesa (RPGs), ele seria um personagem classificado como “caótico neutro”.
Poucos dias depois da elogiada captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, Trump voltou com seu papo do início do mandato de anexar a Groenlândia, grande ilha do Atlântico Norte que pertence à Dinamarca, mas tem autonomia política parcial. Se era piada, já perdeu a graça, ao menos para a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.
No domingo (4), um dia depois da operação militar americana em Caracas, Trump disse em entrevista no avião presidencial que “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”. O presidente americano também alegou que a Dinamarca não faz o suficiente para proteger o território.
Groenlândia e Dinamarca respondem
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, respondeu no mesmo dia: “Quando o presidente dos Estados Unidos nos conecta à Venezuela e à intervenção militar, não apenas é errado; é muito desrespeitoso. (…) Ameaças, pressão e papo de anexação não existem entre amigos.”
Frederiksen respondeu na segunda. “Se os Estados Unidos escolherem atacar outro país da OTAN, então tudo teria um fim. A comunidade internacional como a conhecemos, as regras democráticas do jogo, a OTAN, que é a aliança defensiva mais forte do mundo — tudo isso entraria em colapso se um país da OTAN escolhesse atacar outro”, disse a mandatária. É sua declaração mais forte sobre o assunto até agora.
Na terça, Frederiksen articulou uma declaração conjunta com os líderes da Alemanha, Espanha, França, Itália, Polônia e Reino Unido, na qual disseram que “a Groenlândia pertence a seu povo”. A carta reiterou que “Cabe à Dinamarca e à Groenlândia, e só a elas, decidir questões que tocam a Dinamarca e a Groenlândia”.
Congresso dos EUA começa a tratar como assunto sério
Trump não está exatamente sendo ignorado pelos colegas do Partido Republicano. Por exemplo, o senador Eric Schmitt disse que expandir a influência dos EUA na ilha “faz muito sentido estrategicamente”. Ele alega, contudo, que “não sei se alguém está falando em tomar”.
O conselheiro presidencial Stephen Miller também estimulou as declarações de Trump: “Com que direito a Dinamarca afirma controle da Groenlândia? Obviamente, a Groenlândia deveria ser parte dos Estados Unidos”.
Na oposição democrata, o senador Chris Murphy disse que, se antes as declarações do presidente podiam ser dispensadas como meras provocações, os eventos na Venezuela mudaram a avaliação. “É preciso levá-lo a sério, depois do que aconteceu”, afirmou, segundo o site Semafor.
Parlamentares de ambos os partidos que trabalham em comissões sobre a OTAN foram mais explicitamente críticos. Os líderes da bancada “Amigos Congressistas da Dinamarca”, um deputado republicano e outro democrata, criticaram Trump sem citar seu nome. “A verdade é que já temos acesso a tudo de que poderíamos precisar na Groenlândia”, disseram em nota. Os EUA já têm base militar no território.
Alguns congressistas permanecem céticos, inclusive o senador democrata John Fetterman, que tem sido acusado por colegas de partido de simpatizar demais com o movimento político de Trump. Para ele, o presidente “só está pensando alto”.
Fetterman também está aberto à ideia de comprar a Groenlândia. A Dinamarca, contudo, afirma enfaticamente que a ilha não está à venda.
Está virando um problema para os republicanos
A estrela da operação na Venezuela é o secretário de Estado, Marco Rubio. Analistas têm comparado Rubio a um grande nome das relações internacionais americanas, Henry Kissinger. Assim como o descendente de cubanos, Kissinger também acumulou vários cargos da máquina estatal.
Rubio funciona como um tampão de sanidade sobre as declarações bombásticas do chefe. Hoje, ele disse que se encontraria com membros do governo dinamarquês na próxima semana, sem dar detalhes.
Menos de 24 horas após a captura de Maduro, Rubio discretamente tentava amenizar a retórica de Trump sobre estar “controlando” a Venezuela. “O que estamos ‘controlando’ é a direção” do futuro do país, insistiu o secretário. “Nós mandamos lá”, disse Trump logo depois.
Não deixa de ser um jeito de Trump pressionar a OTAN. Ele tem comemorado que, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, os membros europeus da aliança concordaram em aumentar seus gastos de 2% para 5% de seus PIBs.
“Acho que não há plano para o jeito que Trump coloca as coisas”, disse um senador republicano que preferiu ficar anônimo. “É um padrão. Ele vai longe demais, depois tem que recuar para uma opinião mais realista”. Esses recuos são “o trabalho do Rubio”.
O comentarista político democrata Bill Maher, que tem um programa há décadas na HBO, foi a um jantar com Trump no começo de 2025. Ele relatou que Trump, pessoalmente, é uma pessoa perfeitamente razoável e moderada. Segundo ele, o presidente bombástico é um personagem.
Que função teria o personagem fora de campanha eleitoral, no último mandato permitido a ele pela Constituição do país, só Trump sabe dizer.
