Relatório pede investigação da Lei Rouanet após alerta do TCU
Brasília, Terça, 16 de junho de 2026
Política

Relatório pede investigação da Lei Rouanet após alerta do TCU

Estudo enviado ao Congresso afirma que falhas de fiscalização e controle identificadas pelo tribunal exigem mudanças na legislação e maior transparência no financiamento cultural

TCU
Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

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Por Redação

O cientista político e pesquisador cultural Manoel J. de Souza Neto lançou um relatório em que defende a abertura de investigações parlamentares, audiências públicas e uma ampla revisão da Lei Rouanet após auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) apontarem falhas na fiscalização e no acompanhamento de recursos destinados ao setor cultural.

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O estudo, intitulado “Rouanet não é escândalo de artistas: é colapso de governança e controle público no fomento cultural em meio à guerra de narrativas”, sustenta que o debate sobre o financiamento da cultura no Brasil foi dominado por disputas ideológicas e acusações direcionadas a artistas e personalidades públicas, enquanto problemas estruturais de gestão permaneceram sem solução.

Segundo o pesquisador, a principal questão não estaria relacionada a artistas específicos, mas à capacidade do Estado de monitorar, fiscalizar e avaliar os bilhões de reais movimentados por diferentes mecanismos de incentivo cultural. O relatório reúne pesquisas, artigos, auditorias, reportagens e análises produzidas ao longo de mais de duas décadas sobre o tema.

Entre os pontos destacados está o Acórdão 726/2026 do TCU, que apontou fragilidades nos sistemas de controle do Ministério da Cultura (MinC) e da Agência Nacional do Cinema (Ancine). De acordo com o tribunal, há problemas de monitoramento de processos, riscos de prescrição, baixa integração entre sistemas e dificuldades para acompanhar aproximadamente 30 mil prestações de contas relacionadas a projetos culturais. O relatório menciona ainda a existência de mais de R$ 22 bilhões vinculados a processos pendentes de análise.

Para Souza Neto, a constatação do TCU representa uma mudança de foco no debate sobre a política cultural brasileira.

“A confirmação do TCU encerra a fase da negação administrativa e inaugura uma fase de responsabilidade legislativa. O debate precisa sair da guerra cultural e entrar definitivamente no campo das evidências, dos dados e das soluções institucionais”, afirma o pesquisador.

O documento encaminhado ao Congresso Nacional propõe uma série de medidas, incluindo Propostas de Fiscalização e Controle (PFCs), requerimentos de informação, audiências públicas e a criação de uma matriz nacional de rastreabilidade dos recursos destinados à cultura.

A proposta prevê a análise integrada de diferentes instrumentos de financiamento, como a Lei Rouanet, o Fundo Nacional de Cultura (FNC), a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), a Lei Paulo Gustavo, recursos da Ancine e emendas parlamentares. O objetivo seria ampliar a transparência sobre beneficiários, patrocinadores, prestações de contas, devoluções de recursos, glosas e critérios de distribuição regional.

O relatório também defende mudanças legislativas para fortalecer mecanismos de controle e modernizar a gestão do setor cultural. Entre as sugestões estão a integração de bases de dados governamentais, a criação de sistemas permanentes de auditoria, a ampliação da transparência pública e o fortalecimento do Fundo Nacional de Cultura.

Ao longo do estudo, o pesquisador argumenta que tanto setores da direita quanto da esquerda transformaram a Lei Rouanet em símbolo de disputas políticas, desviando a atenção de problemas estruturais relacionados à governança dos recursos públicos. A avaliação é de que a polarização contribuiu para obscurecer discussões sobre concentração de verbas, efetividade das políticas culturais e capacidade de fiscalização do Estado.

Na conclusão, Souza Neto afirma que o financiamento à cultura deve continuar existindo, mas acompanhado por mecanismos mais robustos de controle e transparência.

“O Brasil possui uma política cultural economicamente relevante e socialmente necessária, mas institucionalmente vulnerável. O fortalecimento da cultura exige liberdade artística, diversidade e financiamento público, mas também prestação de contas, rastreabilidade e fiscalização efetiva”, conclui o relatório.

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