O relator da CPI do Crime Organizado no Senado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou nesta quarta-feira (4) que a nova fase da Operação Compliance Zero, que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, reforça indícios de atuação de crime organizado e justifica o avanço das investigações no Congresso.
“As notícias recentes, com prisão de Vorcaro e parceiros flagrados combinando ações violentas e corrupção de agentes públicos, deixam claro o óbvio: é atuação típica de crime organizado de altíssima periculosidade e pode e deve ser objeto de atuação da CPI no Senado”, afirmou.
A nova prisão de Vorcaro foi determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e ocorreu na manhã desta quarta-feira. A decisão faz parte da terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.
Vorcaro era esperado para prestar depoimento na CPI nesta quarta-feira, assim como seu cunhado, o empresário Fabiano Zettel. Ambos haviam sido convocados pelo colegiado.
Na véspera, Mendonça analisou pedido da defesa e retirou a obrigatoriedade de comparecimento de Vorcaro à comissão, transformando a convocação em facultativa com base no direito constitucional de não autoincriminação.
Na decisão, o ministro citou precedentes do STF que indicam que investigados não são obrigados a comparecer a interrogatórios, inclusive em comissões parlamentares de inquérito. O direito ao silêncio, segundo o entendimento, inclui a faculdade de decidir se comparecer ou não, sem sanção pelo não comparecimento.
Fabiano Zettel também era esperado na comissão. O empresário foi alvo de mandado de prisão preventiva na operação e se apresentou às autoridades após a deflagração das medidas.
A informação sobre as prisões circulou entre integrantes da CPI em grupos de mensagens entre parlamentares. Nos bastidores, senadores afirmaram que a operação da Polícia Federal alterou o cenário da investigação no Congresso.
O senador Sergio Moro (União-PR), integrante da comissão, comentou a decisão judicial.
“A CPI vê com satisfação a justiça sendo realizada. A permanência de Vorcaro em liberdade ameaçava a investigação, considerando o poder econômico e a sua rede de influência. O ministro André Mendonça tem mostrado zelo pela justiça, então era uma medida provável”, afirmou.
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), também membro da CPI, disse que já considerava provável que Vorcaro não comparecesse ao depoimento.
“Eu não tinha dúvida de que ele não iria comparecer, pois o silêncio é a melhor arma dele”, declarou.
A sessão da CPI prevista para esta quarta-feira foi cancelada após decisões do STF que tornaram facultativa a presença de Vorcaro e Zettel. Em nota, a comissão afirmou que a ausência dos depoentes não interrompe os trabalhos e que as investigações continuam com análise de documentos e outras diligências.
A repercussão da prisão também chegou à Câmara dos Deputados. O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), afirmou que a comissão seguirá investigando o caso.
“Vejo a prisão de Vorcaro como uma necessidade premente diante dos graves fatos expostos. Já defendia essa medida mais restritiva, porém agora o investigado passou de todos os limites. A CPMI do INSS vai seguir investigando o Master e outras instituições financeiras”, disse.
O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), integrante da comissão, afirmou que o episódio reforça a necessidade de aprofundar as investigações.
“Queremos que esta investigação sobre o Master seja levada às últimas consequências, porque o Brasil precisa conhecer o subterrâneo desse banqueiro que se tornou bilionário a partir de decisões adotadas dentro do governo Bolsonaro”, afirmou.
Também integrante da comissão, o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO) comentou a possibilidade de colaboração premiada.
“Existe muita apreensão no meio político, e uma eventual delação, que já é esperada, pode abalar todas as instituições da República”, disse.
A terceira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira. A operação incluiu quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
A decisão do ministro André Mendonça também determinou o afastamento de investigados de cargos públicos e o bloqueio e sequestro de bens que podem chegar a R$ 22 bilhões.
A investigação apura suspeitas de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionados ao Banco Master.
Segundo investigadores, o esquema teria utilizado estruturas do mercado financeiro para captar recursos e movimentar ativos de alto risco ou baixa liquidez, além de operações destinadas a ocultar prejuízos e desviar recursos.
A Operação Compliance Zero teve início em novembro de 2025. A primeira fase investigou a venda de carteiras de crédito sem lastro. A segunda fase, em janeiro deste ano, ampliou o foco para fundos de investimento ligados à gestora Reag utilizados para movimentação de recursos. A terceira fase incluiu novas prisões e medidas cautelares relacionadas ao caso.
