Em outubro de 2021, o banqueiro André Esteves bateu no peito para dizer a clientes exclusivos do BTG que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central, lhe telefonava sempre para pedir conselhos. Não sei o que o avô do RCN diria, mas para ser independente o BC precisa parecer independente.
Para quem acha um absurdo, sugiro um exercício de lógica simples: se quem sabatina e aprova esses diretores é o Congresso, por que diabos ele não pode ter o poder de destituí-los. Não custa lembrar que o Legislativo é eleito pelo voto popular para representar os interesses da sociedade. O nome disso é Democracia Representativa, não a democracia relativa de tecnocratas querendo mandar mais que o povo.
BC VAI REGULAR A SI PRÓPRIO?
Desde que o Congresso (lembra dele?) aprovou a autonomia administrativa do Banco Central, instalou-se na autarquia uma espécie de cultura de intocabilidade. Para se ter uma ideia, há também em discussão uma PEC que pretende transformar o BC em instituição de natureza especial com “autonomia orçamentária e financeira”.
Significa que o BC poderá elaborar, aprovar e executar seu próprio orçamento. Parece bom, a princípio. Mas para gerar receita, adivinhem só, o texto dará à entidade poder para tributar e atuar como registrador de novos serviços e produtos financeiros. As perguntas subsequentes também respeitam uma lógica simples:
Quem vai bancar a ‘autonomia financeira’ do BC? Quem vai regular os serviços e produtos financeiros oferecidos pelo próprio BC? Quem serão os parceiros do BC nesse novo mercado?
Agora, se a autonomia institucional precisa ter limites, imagine a ‘autonomia individual’, considerando que até um presidente acha normal se aconselhar com banqueiros.
Vira e mexe temos denúncias na imprensa de diretores que se aproximam de banqueiros, tomam decisões favoráveis a suas empresas e, ao deixarem o BC, ganham um confortável assento — além de um gordo contracheque — nessas mesmas companhias. Sem contar que a recente Operação Carbono Oculto, além da própria Lava Jato e outras anteriores, demonstram que o mercado financeiro vem sendo usado para todo tipo de crime.
Se o crime organizado já tenta cooptar CEOs de fintecs e bancos, o que dizer de diretores do Banco Central?
