Precatório vendido ao Master é alvo de suspeita de fraude e remessas ao exterior
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
Justiça

Precatório vendido ao Master é alvo de suspeita de fraude e remessas ao exterior

Ativo bilionário do Grupo João Santos foi negociado por menos de 20% do valor; Justiça bloqueou crédito

Venda de precatório ao Master é apontada como fraude com envio de recursos ao exterior

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Por Redação

O Banco Master incorporou ao seu balanço um precatório bilionário do Grupo João Santos após adquiri-lo por valor inferior a 20% da estimativa de mercado. Documentos obtidos pelo Estadão indicam que a operação é tratada como fraudulenta por decisões judiciais e que parte dos recursos recebidos pelo grupo foi enviada ao exterior.

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O antigo controlador do conglomerado, Fernando Santos, afirmou que a negociação ocorreu dentro dos parâmetros de mercado. A atual gestão sustenta que a decisão foi isolada, tomada pela diretoria anterior, e que a operação gerou prejuízo estimado em R$ 1,8 bilhão. O dono do Master, Daniel Vorcaro, não comentou.

O ativo envolve um direito creditório decorrente de condenação da União para indenizar usinas sucroalcooleiras por prejuízos causados entre 1989 e 1994. A Companhia Agro Industrial de Goiana (Caig), dona da Usina Santa Tereza, em Pernambuco, foi uma das beneficiadas. O valor original da condenação foi de R$ 983 milhões, dos quais R$ 171 milhões são incontroversos. Com atualizações, o crédito é estimado em cerca de R$ 2,2 bilhões.

Entre 2019 e 2020, o precatório foi transferido por meio de uma cadeia de fundos de investimento — Amazonita, Luna, Noruega, Atenas, Dublin e Horizon — que, segundo documentos da CVM apresentados à Justiça, tinham o Master como cotista majoritário ou como destinatário final do crédito. O grupo recebeu R$ 180 milhões pela venda quando o ativo já era avaliado em cerca de R$ 1 bilhão.

Recursos enviados à Suíça

Relatórios encaminhados à Polícia Federal e à Justiça indicam que R$ 32 milhões foram remetidos para três empresas na Suíça — Agricultural, Cement & Land e Sugar & Land — entre 2019 e 2022. Outros R$ 75 milhões foram transferidos para contas de Gustavo Elijah Figueiredo Góes, genro de Fernando Santos, e empresas ligadas à família.

As transferências foram justificadas como pagamento de variação cambial de contratos de empréstimos em dólar. As empresas estrangeiras teriam emprestado US$ 100 milhões ao grupo pouco após serem constituídas. A Polícia Federal investiga se as operações foram utilizadas para simular dívidas e enviar recursos ao exterior. O caso é apurado na Operação Background, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Decisões judiciais e bloqueio

Em setembro de 2025, a Justiça Federal de Pernambuco reconheceu a fraude na transferência do precatório e determinou o bloqueio do crédito. A decisão foi confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região. Segundo as sentenças, o grupo não poderia ter transferido o direito creditório porque possuía débitos com a União e deveria utilizar o valor para quitar dívidas fiscais.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional apontou que a cessão ocorreu “num claro intuito de evitar o pagamento de dívidas fiscais”. O grupo acumulava cerca de R$ 10 bilhões em débitos com a União e fechou acordo para pagamento de R$ 4 bilhões em 2023.

O Banco Master sustenta que adquiriu o ativo de forma regular, considerando o risco jurídico e o fato de parte do valor ainda estar sob contestação. A instituição também argumenta que a Justiça de Pernambuco não teria competência para decidir sobre crédito que tramita no Distrito Federal.

O recurso do Master contra o bloqueio ainda não foi julgado. Não há sentença definitiva no processo que discute o precatório na Justiça Federal do Distrito Federal.

Tentativa de revenda e liquidação do Master

Antes do bloqueio, Daniel Vorcaro teria tentado revender o precatório a outros bancos. Houve interessados, entre eles o BTG Pactual, mas as tratativas não avançaram por decisão judicial.

O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025 após identificação de fraudes em negociações com o Banco de Brasília (BRB). O precatório é considerado um dos principais ativos remanescentes da instituição.

Laudos periciais já reconheceram o direito das usinas à indenização. Em dezembro, a Justiça Federal do DF voltou a condenar a União ao pagamento, mas ainda cabem recursos.

O que dizem os envolvidos

Fernando Santos afirmou que negociou o ativo diante da necessidade de captação de recursos e que a operação ocorreu por meio de instrumentos públicos de cessão. Segundo ele, os valores foram recebidos nas contas do grupo e parte foi utilizada para quitar R$ 120 milhões em acordos trabalhistas entre 2018 e 2021.

A atual gestão do Grupo João Santos pediu a nulidade da venda e sustenta que a operação foi simulada, com prejuízo aos credores e ao Fisco. O advogado Gustavo Matos declarou que medidas judiciais estão sendo adotadas para recuperar o ativo.

Daniel Vorcaro não se manifestou até o momento.

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