Poses e Trejeitos - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Poses e Trejeitos

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Por Leonardo Correa

Advogado

O episódio que levou a ministra Marina Silva a deixar uma audiência pública no Senado é mais do que uma troca de ofensas: é um retrato fiel da degradação da política brasileira. No lugar do embate racional, encenações. No lugar da deliberação, performances. Senadores elevam o tom. A ministra invoca sua condição. O petróleo sai de pauta. Entram em cena os personagens — com suas poses e trejeitos — de um teatro cada vez mais longe da realidade.

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Não é preciso simpatizar com a política ambiental do governo para reconhecer o desrespeito de alguns parlamentares. Cortar o microfone de uma ministra em plena audiência, como fez o senador Marcos Rogério, revela uma postura autoritária e antidemocrática. E a frase de Plínio Valério — “a mulher Marina merece respeito; a ministra, não” — é uma tentativa infeliz de separar a pessoa do cargo com uma ironia que revela mais desprezo do que crítica. Parlamentares existem para fiscalizar, sim, mas com firmeza institucional e não com ataques performáticos.

Contudo, o outro lado também precisa ser examinado com seriedade. Ao se dizer “humilhada” e enquadrar a cena como violência de gênero, Marina Silva escorrega para o recurso fácil da vitimização simbólica. O debate não era sobre sua condição de mulher — era sobre petróleo, meio ambiente, desenvolvimento. Ao invocar a identidade como escudo contra a crítica, a ministra enfraquece o valor das lutas reais contra o machismo e transforma qualquer discordância em opressão. Isso não fortalece as mulheres; enfraquece o debate.

O tema saiu de cena. No palco ficaram os egos, interpretando seus papéis em uma ópera bufa institucional, onde gritos valem mais que argumentos e ofensas ensaiadas substituem o contraditório. A política brasileira não produziu um embate de ideias, mas um esquete de palhaços — ridículo, vazio e desprovido de pudor.

A audiência terminou sem respostas. Sem dados. Sem luz. Apenas com manchetes sobre gritos, gestos e abandonos. Essa é a política que desistiu do argumento e trocou o contraditório pelo espetáculo. Um país que não consegue conversar civilizadamente sobre seu futuro energético está fadado a repetir os erros do passado — com mais vaidade e menos vergonha.

Chegamos ao ponto em que a autoridade não se mede pela qualidade do argumento, mas pelo tom da voz ou pela identidade que se invoca. E, nessa confusão entre quem grita e quem se ofende, a verdade segue sem porta-voz.

*Leonardo Corrêa – Advogado, LL.M pela University of Pennsylvania, sócio de 3C LAW | Corrêa & Conforti Advogados, um dos Fundadores e Presidente da Lexum.

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