O Partido Liberal (PL), sob a liderança de Valdemar Costa Neto, está intensificando um processo para expurgar sua “ala centrão” e se consolidar como o maior partido conservador e de direita do Brasil. O objetivo, segundo o líder da legenda na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), é chegar às eleições de 2026 com o partido “quase 100% ideológico”.
A mais recente ameaça de expulsão recai sobre o deputado Antônio Carlos Rodrigues (PL-SP), um dos mais fiéis aliados históricos de Valdemar e ministro dos Transportes na gestão Dilma. A medida foi tomada após Rodrigues fazer elogios ao ministro do STF Alexandre de Moraes e declarações críticas a Donald Trump.
Embora Valdemar tenha publicado uma nota anunciando a saída do deputado, Rodrigues ainda permanece filiado e aguarda a notificação formal. A situação é notável, pois Rodrigues chegou a ocupar interinamente a presidência do partido enquanto Valdemar esteve preso, condenado por participação no mensalão no governo Lula 1.
“O Valdemar já trocou o chip há muito tempo, não vejo ninguém mais conservador e de direita que ele. Tem nosso total apoio”, disse Sóstenes Cavalcante à Folha de SP.
Outro quadro histórico que pode deixar a legenda é o deputado Wellington Roberto (RN), 20 anos no PL e que liderou o partido na Câmara de 2019 a 2021. “Toda mudança, quando é rápida demais, é preocupante”, critica.
O deputado Robinson Faria é outro que deixou o partido por não se encaixar na legenda. Segundo Faria, o posicionamento do partido contra a reforma tributária, que ele votou a favor, foi decisivo para saída. “Meu voto é mais ao centro, e o PL estava com uma pauta que eu não concordava”, justificou.
Sóstenes Cavalcante explica que as expulsões são um sintoma do “divórcio” entre o antigo PL, que aderiu a governos de diferentes espectros políticos, e o novo perfil ideológico. O líder da bancada afirma que, dos 25 deputados mais “centristas” eleitos em 2022, cerca de 15 já deixaram a sigla.
Eles migraram para partidos como PP, Republicanos, MDB e PSB. A expectativa é que o restante saia na próxima janela partidária, no primeiro trimestre de 2026. Por outro lado, o PL planeja zerar as perdas com a entrada de cerca de 30 deputados bolsonaristas de partidos como União Brasil, PSD, PP e Podemos.
Essa reconfiguração representa uma nova fase para o PL. Com a chegada do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021, a sigla saltou de 33 deputados eleitos em 2018 para 99 em 2022, o que resultou em uma injeção significativa nos fundos eleitoral e partidário.
Apesar da busca por uma identidade mais alinhada com o bolsonarismo, a trajetória do PL é marcada por guinadas políticas. O partido é uma das “crias” da Arena, sigla que apoiava o regime militar.
Já em 2002, a legenda formou uma aliança com o PT, indicando José Alencar como vice na chapa de Lula. Nos anos seguintes, o PL esteve na órbita dos governos petistas. A sigla também teve um momento de ascensão em 2010, quando o palhaço Tiririca se tornou o deputado mais votado do país.
