A Polícia Federal investiga se houve vazamento da ordem de prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em inquérito que tramita sob sigilo, segundo apuração doO Globo.
A suspeita se baseia, entre outros pontos, em um pedido protocolado pela defesa no mesmo dia em que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, assinou a decisão.
A ordem de prisão foi assinada às 15h29 do dia 17 de novembro. Dezoito minutos depois, às 15h47, os advogados de Vorcaro enviaram por e-mail à Justiça Federal petição em que se posicionavam contra “medidas cautelares eventualmente requeridas”, alegando que poderiam provocar “impacto relevante” e causar “prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master”.
A prisão deveria ser cumprida na manhã do dia 18, mas foi antecipada. Vorcaro foi detido às 22h do dia 17, no aeroporto internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar em jato particular para Dubai, com escala em Malta.
Para investigadores, o pedido protocolado pela defesa e a viagem ao exterior, descrita como feita às pressas, reforçaram a suspeita de possível vazamento da decisão da Justiça Federal de Brasília, onde o caso tramitava antes de ser remetido ao Supremo Tribunal Federal por determinação do ministro Dias Toffoli.
Em nota, a defesa afirmou que a petição foi enviada para “ter acesso à suposta investigação, para ofertar colaboração com as autoridades e para prevenir deferimento de cautelares, como a prudência requer em casos como esse”. Segundo os advogados, o e-mail foi encaminhado à 10ª Vara porque desconheciam o número do inquérito e o juiz responsável.
Depoimento à PF
Em depoimento no dia 30 de dezembro, a delegada Janaína Palazzo questionou Vorcaro sobre eventual conhecimento prévio da vara responsável pelo processo.
“Aconteceu uma coincidência que, no dia da prisão do senhor, o advogado do senhor protocolou uma petição na Vara correta. Na Vara correta, ele protocola um pedido ao juiz”, afirmou a delegada. “O senhor, de algum modo, teve essa informação da Vara, onde estava ocorrendo o processo do senhor?”, perguntou.
Vorcaro respondeu: “[Foi] Feito isso diversas vezes, em outros locais, assim que saiu uma matéria”. E acrescentou: “Saiu uma notícia disso. Teve repórteres ligando no…A gente já sabia, na verdade.”
Questionado se teve acesso a documento sigiloso, afirmou: “Não me recordo, acredito que não. A não ser que tenha sido algum repórter, alguém que tenha me passado, mas não me recordo”.
Sobre a tentativa de viagem, declarou: “A questão de fuga é, desculpe, uma questão completamente fora de contexto. Eu já tinha viajado uma semana antes para tratar com os mesmos investidores, amplamente divulgado”.
Reportagens citadas
Na petição, a defesa alegou ter acionado a 10ª Vara após reportagem do site O Bastidor que mencionava a abertura de inquérito sobre suposta fraude envolvendo a compra do Master pelo BRB. A publicação ocorreu às 11h08 do dia 17 de novembro.
Nenhuma das matérias divulgadas naquele dia mencionava a existência de ordem de prisão. A decisão judicial era sigilosa e, em tese, restrita ao gabinete do juiz e aos investigadores.
Na petição, os advogados afirmaram que o Banco Master e seus administradores estavam “inteiramente à disposição da Justiça” e que “não havendo, em decorrência disso, qualquer razão jurídica para determinação de medidas cautelares de qualquer espécie, se eventualmente requeridas”.
O documento é assinado por advogados de quatro escritórios, entre eles Walfrido Warde, Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União.
Liquidação e reunião com o BC
Em resposta ao Tribunal de Contas da União, o Banco Central informou que decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro por “crônica crise de liquidez”, “reiterado descumprimento de normas” e “prática de ilícitos graves no âmbito de operações de cessão de ativos a terceiros”.
Oito horas antes da prisão, Vorcaro participou de videoconferência com o diretor de fiscalização do Banco Central, Aílton de Aquino Santos. A reunião ocorreu entre 13h30 e 14h10 do dia 17 de novembro.
Segundo documento do BC, o executivo informou que viajaria para Dubai para negociar solução de mercado para o conglomerado. Não houve, porém, “correspondência, e-mail ou mensagem escrita” sobre a viagem, apenas comunicação verbal durante a videoconferência.
No dia 28 de novembro, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região substituiu a prisão por medidas cautelares, incluindo uso de tornozeleira eletrônica, retenção do passaporte e proibição de contato com outros investigados.
