Outros tempos: quando Trump pediu ajuda a Zelensky - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Outros tempos: quando Trump pediu ajuda a Zelensky

Zelensky, Trump e Vance discutem na Casa Branca em 28 de fevereiro de 2025. Crédito: The White House.
Zelensky, Trump e Vance discutem na Casa Branca em 28 de fevereiro de 2025. Crédito: The White House.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

A desastrosa coletiva de imprensa com o presidente americano Donald Trump, o vice-presidente J. D. Vance e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no dia 28, virou um teste de Rorschach para os analistas. Onde alguns veem insolência, despreparo e falta de pragmatismo de Zelensky até na escolha de vestuário, outros veem credulidade de Trump e Vance com propaganda russa, e há quem veja as duas coisas.

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Até essas três posições são uma simplificação, dada a diversidade de opiniões entre as pessoas que realmente usam a própria cabeça, em vez de seguir cartilhas já prontas.

Independentemente do ângulo favorito do leitor, um fato pouco lembrado agora sobre a relação entre os dois presidentes pode lançar luz sobre a situação atual: houve um tempo em que Trump é quem precisava de Zelensky.

O ano era 2019, três anos antes da invasão russa. Zelensky havia sido eleito em 20 de maio. Trump já estava preocupado com a reeleição no ano seguinte e sabia que seu adversário seria o democrata Joe Biden.

Trump estava desconfiado da relação da família Biden com a Ucrânia no passado – Hunter Biden, filho do futuro presidente, inexplicavelmente foi membro da diretoria da empresa ucraniana de energia Burisma por cinco anos, deixando o cargo um mês antes da posse de Zelensky, na data aproximada em que ele ganhou as eleições em segundo turno.

Trump queria desenterrar os podres dos Bidens na Ucrânia, o que lhe daria vantagem nas eleições. Pedir ajuda do presidente recém-eleito do país era uma estratégia que fazia sentido. A própria Casa Branca, comunicando o conteúdo da ligação telefônica de Trump para parabenizar Zelensky sobre a vitória, informou que ambos os líderes tinham a intenção de “desenraizar a corrupção”.

A imprensa primeiro notou a aproximação por causa da movimentação do advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani. Ele não fazia segredo da estratégia: “Não estamos interferindo em uma eleição, estamos interferindo em uma investigação, o que temos o direito de fazer. Não há nada de ilegal nisso”, disse Giuliani ao New York Times em 9 de maio de 2019. Ele anunciava planos de visitar a Ucrânia.

Não confia no New York Times? Tudo bem: Giuliani fez declarações quase idênticas na Fox News e nas redes sociais.

Naquela data, Giuliani já havia se encontrado mais de uma vez com o procurador ucraniano encarregado da investigação, Yuriy Lutsenko, e Zelensky estava expressando intenção de substituí-lo. Um encontro foi em Nova York, já em janeiro, outro foi na Polônia, no mês seguinte, segundo o próprio Lutsenko em entrevista com a agência Bloomberg.

Nos meses seguintes à posse, Giuliani continuou seu lobby junto ao governo Zelensky. A campanha culminou com uma ligação do presidente Trump para o ucraniano em 25 de julho de 2019, com duração de 30 minutos.

Durante a ligação, cuja transcrição está disponível na CNN, Zelensky usou o vocabulário de Trump: “estamos trabalhando duro para drenar o pântano no nosso país”.

E Trump pediu explicitamente ajuda de Zelensky para investigar Biden, além de pedir que o ucraniano conversasse com Giuliani:

“Há muita conversa sobre o filho do Biden, que Biden parou o processo de acusação e muitas pessoas querem saber mais disso. Então, o que você puder fazer com [meu] procurador-geral [William Barr] seria ótimo. Biden saiu por aí se gabando de ter parado o processo, então se você puder investigar… Soa horrível para mim”, disse Trump.

Zelensky recebeu muito bem o pedido. Informou a Trump que tinha maioria no parlamento e que o próximo procurador-geral da Ucrânia seria “100% uma pessoa minha, meu candidato”.

O procurador-geral que desagradava a Trump era Lutsenko, que havia dito ainda em maio que não havia provas contra Joe e Hunter Biden e que sua presença na Burisma não era foco de investigação.

Pelos fatos seguintes, fica evidente que o pedido não foi suficiente, pois Trump pressionou Zelensky congelando um fundo de US$ 400 milhões em auxílio de segurança para o país. Desse montante, R$ 250 milhões, com origem no Pentágono, foram congelados no mesmo dia da ligação.

Os fundos só foram liberados em setembro daquele ano. Na data, Trump estava sendo investigado por três comissões do Congresso após um delator da CIA dizer que o pedido de Trump a Zelensky era um abuso do gabinete da presidência para ganho pessoal. Dias depois da liberação dos fundos, a então presidente da Câmara americana, a democrata Nancy Pelosi, aceitou a abertura de um processo de impeachment contra Trump. O impeachment passou na Câmara, mas morreu no Senado.

Zelensky parece ter cumprido a promessa, pois seu indicado para a Procuradoria-Geral, Ruslan Riaboshapka, reabriu a investigação da Burisma em outubro de 2019. Contudo, Zelensky demitiu Riaboshapka cinco meses depois.

Não foi só o primeiro governo Trump que reclamou da demissão do procurador-geral ucraniano: houve um clamor geral de embaixadores do G7 como um todo e entidades anticorrupção, segundo a ABC News.

Em maio de 2021 (agora já no contexto do governo Biden), o ex-procurador-geral da Ucrânia explicou por que foi demitido por Zelensky no ano anterior. Comentando a publicação de uma conversa em que Giuliani insistia na investigação contra os Bidens e a Burisma falando com o chefe de gabinete de Zelensky, Andriy Yermak, ele disse que agora estava claro que foi demitido por não ter encontrado nada contra os Bidens.

“Não sabia que Yermak havia prometido ajudar Giuliani”, disse Riaboshapka à Buzzfeed News. “Zelensky perguntou para mim várias vezes se há violações à lei neste processo iniciado por Lutsenko. Olhamos 15 ou 16 casos. Investigamos todos e não encontramos nada que poderia ser uma violação da lei.”

Na época, o governo Zelensky respondeu que “as afirmações do sr. Riaboshapka podem ser causadas por circunstâncias políticas internas à Ucrânia e não têm nada a ver com a política externa do Estado. O gabinete do Presidente está interessado em desenvolver um sistema forte de agências independentes de aplicação da lei na Ucrânia”.

Até hoje, a Wikipédia, dominada por progressistas, insiste que o caso Biden-Burisma nada mais foi que uma “teoria da conspiração”. Ao deixar seu cargo em janeiro deste ano, o ex-presidente Joe Biden emitiu um perdão preventivo a todos os seus familiares envolvidos em atividades estranhas no exterior, incluindo Hunter.

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