O retorno da sanidade: Comitê Olímpico recua da inclusão de sexo masculino no esporte feminino - Claudio Dantas
Brasília, Quinta, 18 de junho de 2026
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O retorno da sanidade: Comitê Olímpico recua da inclusão de sexo masculino no esporte feminino

Kirsty Coventry, nadadora do Zimbábue, competindo em 2009. Em 2025, Coventry tornou-se presidente do COI. Foto: JD Lasica
Kirsty Coventry, nadadora do Zimbábue, competindo em 2009. Em 2025, Coventry tornou-se presidente do COI. Foto: JD Lasica

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O Comitê Olímpico Internacional (COI) recuará, a partir do início de 2026, das políticas de inclusão de pessoas de sexo natal masculino nas competições femininas.

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O retorno à normalidade ocorre graças à presidente do órgão, a ex-nadadora Kirsty Coventry, natural do Zimbábue, que se comprometeu a defender o esporte feminino ao assumir o cargo em junho. Participou também a diretora médica e científica do COI, Jane Thornton, que teve carreira esportiva no remo.

A decisão decorre de uma nova revisão interna das evidências científicas, apresentada por Thornton na semana passada em uma reunião da entidade em Lausanne, sobre as vantagens atléticas do sexo masculino sobre o feminino, que necessariamente causam injustiça na inclusão de atletas trans na categoria feminina.

“Foi uma apresentação bem científica, factual e desapaixonada, que apresentou as evidências de uma forma bem clara”, disse um dos presentes ao jornal britânico The Times.

Antes, a política permitia que as atletas trans competissem com as mulheres caso apresentassem baixos níveis de testosterona. Mas o critério não foi suficiente para afastar suspeitas de vantagem, como demonstrou a vitória da pugilista argelina Imane Khelif, na categoria de 66 kg dos Jogos Olímpicos de Paris em 2024. Ela não é transexual, mas tem cromossomos XY (padrão genético masculino) e nasceu com uma condição rara de desenvolvimento das características sexuais.

Como você pode ler em uma revisão que este colunista produziu em 2018, a vantagem masculina nos esportes não é novidade nenhuma. Qualquer biólogo digno da profissão saberia informar aos tomadores de decisão sobre a vantagem e a improbabilidade de ela ser perdida mesmo com o tratamento hormonal transexualizador.

As pesquisas avançam, novos indícios são coletados e podem reformar as teorias vigentes. Mas, em todo o período da política de inclusão do COI e outras entidades esportivas, a vantagem masculina nunca deixou de ser a realidade científica mais bem assentada. O que precisa de explicações é como um órgão esportivo internacional permitiu injustiças em nome da justiça.

A inclusão foi política, e o recuo também

Mas não precisamos gastar muito tempo pensando em ângulo de inserção do fêmur, hormônios esteroides, densidade óssea e diferença de massa muscular esquelética. Porque a inclusão foi política, não científica, e o recuo também.

A suposta justificação científica da política moribunda sempre foi um fino verniz acadêmico, transparentemente ridículo. Foram usados como base, por exemplo, estudos com apenas seis ou oito participantes, feitos por ativistas de jaleco como Joanna Harper. Esses tamanhos amostrais são para fazer os estatísticos chorarem, de desespero ou hilaridade.

O nome da moda ideológica que criou a irresponsável inclusão de atletas trans no esporte feminino é identitarismo. Vulgo woke. Uma subseção do progressismo que, nos últimos 15 anos, conquistou corações e mentes jovens no Ocidente, além de instituições como o COI, levando ao atropelo de valores negligenciados como responsabilidade individual e mérito.

Em vez disso, o woke, herdando o excesso de ênfase que a esquerda em geral dá ao alicerce moral do cuidado, buscou o tratamento especial de grupos identitários pré-selecionados de forma dogmática, a censura e a imposição autoritária de políticas de inclusão e “diversidade” — excluída a diversidade de pensamento, quiçá a mais importante de todas.

Os estragos que o woke deixou no caminho

As mulheres dos esportes olímpicos são numerosas vítimas do identitarismo, mas não estão sozinhas.

Outra vítima do identitarismo foi Carole Hooven, bióloga que lecionava, entre outras, a disciplina “Hormônios e Comportamento” no Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade Harvard.

Em 2021, Hooven lançou o livro “T: A História da Testosterona, o Hormônio que nos Domina e Divide” (trad. livre). Para promover a obra, ela deu entrevista a um programa da Fox, emissora americana conhecida por seu viés conservador.

Seguiu-se uma campanha de “cancelamento” contra Hooven, incluindo uma manifestação pública da diretora da força-tarefa de “Diversidade, Inclusão e Pertencimento” do departamento — uma clara embaixada da ideologia, posta lá para desviar a função da instituição científica quando necessário.

A aparatchik da diversidade, chamada Laura Simone Lewis, alegou nas redes sociais que “A linguagem inclusiva, como ‘pessoas grávidas’ [em vez de ‘mães’], demonstra respeito por todos que têm capacidade de engravidar”.

“Respeito a Carole como colega e cientista”, continuou a ideóloga com PhD. “Mas essa linguagem perigosa perpetua um sistema de discriminação contra pessoas não-cis [ou seja, trans] dentro do sistema médico”.

Harvard abriu uma sindicância interna contra Hooven e a cientista, sentindo a pressão da ideologia dominante na instituição, deixou seu emprego.

Vale a pena reproduzir a parte da fala de Hooven que mais irritou os ideólogos identitários, segundo a própria:

“Os fatos são que existem dois sexos, há macho e fêmea, e esses sexos consistem nos tipos de gametas que produzimos. A ideologia parece dizer que a biologia não é tão importante quanto o que alguém sente que é o seu sexo, mas podemos tratar as pessoas com respeito e respeitar suas identidades de gênero, e usar seus pronomes de preferência. Então, entender os fatos sobre a biologia não nos impede de tratar pessoas com respeito.”

Isso é senso comum e bom senso. Quem se irrita com essa fala odeia a verdade diante de seus próprios olhos, estabelecida ao longo de gerações de observação. Em consequência, odeia a ciência, que tem essa mesma raiz.

Ainda assim, o caso de Hooven foi um dos mais leves. Dediquei a segunda parte do meu livro, “Mais iguais que os outros” (Avis Rara, 2025), a discutir cada faceta da natureza humana que foi politizada pelo identitarismo: os sexos, as sexualidades, as raças e as deficiências.

No fim de cada um desses capítulos, coloquei dois quadros: um dedicado a um caso de vítima dos preconceitos que o identitarismo alega combater, e outro com um caso de vítima da suposta solução do identitarismo em cada assunto.

Mostro o caso de um homem canadense que se matou, desamparado, após tentar fundar uma casa de apoio a vítimas masculinas da violência doméstica. E um caso de uma assassina trans americana que xingou as crianças que ela matou a tiros numa escola religiosa de “branquelas”. Que bom que estamos virando essa página.

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