Janeiro nem vermelho: o mês em que a imprensa ajuda o ativismo LGBT a mentir - Claudio Dantas
Brasília, Segunda, 20 de julho de 2026
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Janeiro nem vermelho: o mês em que a imprensa ajuda o ativismo LGBT a mentir

Imagem gerada por IA de Pinóquio com a bandeira do identitarismo LGBT.
Imagem gerada por IA de Pinóquio com a bandeira do identitarismo LGBT.

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Você já ouviu falar em setembro amarelo, outubro rosa e novembro azul. Mas conhece o janeiro nem vermelho? É o mês em que, tradicionalmente, aquela imprensa que passou os últimos anos estimulando a moda das agências de checagem, e a criminalização das fake news, dedica suas páginas a promover as mentiras do ativismo identitário LGBT.

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Por que “nem vermelho”? Porque, quando minha mãe me pegava mentindo, ela dizia “você não fica nem vermelho, menino?”

O janeiro nem vermelho de 2026 atingiu seu ápice no último domingo (18). Compare as manchetes: “A cada 34 horas, uma pessoa LGBT+ é morta no Brasil, revela ONG”, publicou a revista Exame. “Uma pessoa LGBT+ é morta a cada 34 horas no Brasil, aponta ONG”, reproduziu o G1 Bahia. Muitos outros veículos reproduziram, inclusive os estatais.

A primeira coisa que impressiona é a rapidez com que as configurações de jargão ideológico são atualizadas. As ONGs emitem uma atualização ideológica no estilo Windows 11 e os veículos baixam todos juntos. Por isso, se em 2023 o Jornal Hoje usava a sigla “LGBTQIA+” e o portal Terra ousava até publicar “LGBTQIAP+”, agora os jornalistas dos veículos nada críticos contra o identitarismo marcham juntinhos com “LGBT+”.

O desmentido tem a idade do Inquérito das Fake News

A ONG das manchetes citadas é o Grupo Gay da Bahia (GGB). Em maio de 2019, mostrei com quatro colaboradores que a taxa de erro da ONG ao classificar mortes como causadas por motivações homofóbicas era de 88%.

A mesma estatística que desmentimos foi usada por vários ministros do STF quando usaram de ativismo judicial para criminalizar a homofobia.

Nesses quase sete anos desde a nossa checagem, mostrei repetidamente que o GGB e outras ONGs supostamente dedicadas às minorias sexuais seguem com baixíssimo nível de rigor metodológico e errando na classificação dos casos de mortes violentas.

Os ativistas, em resposta, além de me fazerem ataques pessoais até em trabalhos acadêmicos, passaram a esconder seus dados para evitar mais checagens. No máximo, mencionam alguns casos em seus relatórios públicos — e nesses, continuam com frequência forçando a interpretação de que as mortes foram causadas por preconceito, mesmo quando não há indício nenhum disso.

O que é verdade na cantilena anual das ONGs é que dados melhores são necessários para saber a dimensão e as tendências na violência anti-LGBT. O que é falso, além das suas “estatísticas” anuais e afirmações de tendência, é a insistência de que precisamos de falsas estatísticas se as verdadeiras não estão disponíveis.

Por falar nas falsas tendências, não há significado nenhum em dizer que o número de mortos por intolerância “subiu” ou “desceu” de ano para ano sem amostragem representativa. Ainda assim, até alguns conservadores usam esses números fajutos das ONGs, quando é para atacar governos de esquerda.

Checando os poucos casos disponibilizados em 2026

No relatório publicado no domingo, o GGB disponibilizou apenas sete de 257 mortes supostamente causadas por “violência estrutural de ódio e sangue”, nas palavras da ONG.

Chequei os sete casos, em busca das motivações anti-LGBT dos assassinos alegadas pela organização.

  • Dandara Vick. Uma transexual de 34 anos morta em um presídio de segurança máxima em Campo Grande. Motivação: a própria fonte do GGB diz que a cela “era composta por três indivíduos, todos homossexuais” e que “a causa da morte foi uma desavença entre os três no isolamento”.
  • Sidnei Martins de Oliveira. Um homem de 56 anos, em situação de rua, esfaqueado em Riacho Fundo I, DF. O GGB alega que Sidnei era gay e que foi vítima de homofobia, mas a ex-companheira de um dos dois suspeitos de assassinato disse que a motivação foi ciúmes. O suspeito “acreditava que ela estava tendo um envolvimento amoroso com a vítima”, segundo a cobertura da CNN. A versão do GGB vem do depoimento do outro suspeito, que disse que na verdade havia um relacionamento entre seu comparsa e a vítima. O uso de drogas dos envolvidos também complica a explicação escolhida pelo GGB.
  • Fernando Villaça. Um homem de 17 anos que morreu em Manaus após ser agredido por outros menores de idade. Neste caso, a Polícia Civil confirma motivação homofóbica.
  • Gefferson Willian. Um homem de 33 anos executado com 17 tiros em Brejo Santo, Ceará. Segundo o G1, Gefferson era um influenciador conhecido como “Rei do Fuá” e fazia “postagens de fofocas e críticas a políticos, empresários e outras personalidades de Brejo Santo e municípios vizinhos”. Ele era réu por difamação. Não há indicação de motivação homofóbica até o momento; o mais provável é a retaliação dos alvos de suas postagens críticas.
  • Rhianna Alves. Transexual de 18 anos estrangulada em Luís Eduardo Magalhães, Bahia. O próprio GGB indica que o principal suspeito é o companheiro. O G1 noticiou que o namorado confessou o crime.
  • Heloysa de Alencastro. Mulher de 16 anos vítima de espancamento e asfixia em Cuiabá (MT). Segundo o G1, os dois suspeitos de assassinato têm relação de pai e filho entre si.  O pai “teria planejado o crime movido por ciúmes e inconformismo com o possível fim do relacionamento com a mãe da vítima”. A versão que o GGB reproduz em seu relatório não foi usada pela acusação, nem é mencionada pelo G1: que a menor seria “lésbica” e que “a própria mãe da vítima teria encomendado o assassinato por não aceitar sua orientação sexual”. O veículo detalha que a mãe também foi agredida. Logo, a versão do GGB é completamente irresponsável, reproduzida de sites menores e atribuída à Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso.
  • Rian Barroso e Brito, Thiago Silva. Dois jovens encontrados em uma cova rasa de Cruzeiro do Sul, Acre. Segundo o G1, as vítimas foram “julgadas pelo ‘tribunal do crime’ de uma facção criminosa”. O crime foi brutal: seus corações foram arrancados. A Polícia Civil diz que Rian e Thiago eram homossexuais, “contudo, a motivação dos crimes, levantada até o momento, é de que Thiago estava envolvido em furto de fios de cobre de um aparelho de ar-condicionado de um posto de saúde”. Quanto a Rian, “os criminosos acreditavam que ele tinha abusado sexualmente de uma criança”. O delegado do caso, Heverton Carvalho, explicitamente descartou motivação homofóbica no crime. Mas o GGB insiste: “A violência excessiva e a mutilação sugerem um crime de ódio”.

Portanto, em sete casos mencionados pelo GGB no relatório deste ano, com oito mortes, somente em um se pode afirmar motivação homofóbica. É aproximadamente a mesma taxa de acerto da organização que apontamos na checagem de 2019. Nada mudou, pelo visto.

Exceto que, talvez em resposta à checagem, a ONG agora reduz um pouco sua certeza na afirmação de motivações homofóbicas, dançando na ambiguidade entre apresentar mortes violentas de LGBT em geral e mortes violentas de LGBT motivadas por intolerância anti-LGBT.

O Atlas da Violência 2025, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), é mais honesto que as ONGs do ativismo identitário LGBT: “os dados do sistema de saúde aqui apresentados [são] uma das únicas informações oficiais sobre o tema” e “não indicam motivação do crime, ou seja, não é possível afirmar que os casos de violência contabilizados se originaram na LGBTfobia”.

Por que grande parte da imprensa continua ignorando até o IPEA para repetir de forma completamente acrítica o que alega Luiz Mott e sua ONG? Polarização política? Incompetência jornalística? Preguiça? Este colunista gay quer saber.

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