O populismo é uma retaliação justa à arrogância autoritária das elites intelectuais - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 03 de julho de 2026
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O populismo é uma retaliação justa à arrogância autoritária das elites intelectuais

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

Desde que a humanidade começou a registrar pensamentos por escrito e dispôs de recursos extras para sustentar escribas, os novos profissionais do palpite tenderam a pensar que as habilidades necessárias para esse trabalho são especiais o suficiente para fazer deles líderes naturais. O exemplo paradigmático é Platão, com sua proposição de um “filósofo-rei”.

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Essa ideia, combinada ao desrespeito por tradições estimulado pelas ideologias políticas construídas pela palpitaria intelectual, como o “progressismo”, torna inevitável que os “especialistas” pensem que devem mandar nos outros. Entre as posições opostas, estaria o “populismo”.

Há dois fenômenos políticos principais na década que se completa agora que mostraram a que ponto a classe tagarela intelectualizada está disposta a ir para afrontar os outros setores da sociedade, em sua autoafirmação de poder.

O primeiro foi a pandemia de Covid-19. No auge da crise, em junho de 2020, 1.288 influentes “profissionais de saúde pública, profissionais de doenças infecciosas e partes interessadas” assinaram uma carta aberta em que deram uma guinada em suas recomendações antes alarmistas contra aglomerações para apoiar aglomerações de protesto “contra o racismo”.

A carta começava, ironicamente, reclamando de “manifestantes predominantemente brancos e fortemente armados” que protestaram contra ordens de confinamento emitidas por recomendação de autoridades de saúde pública.

De forma incoerente, com base na cor da pele presumida de manifestantes do movimento Black Lives Matter, a carta concluía clamando pelo “direito de protestar” e pedindo que esses manifestantes tivessem “permissão para se aglomerarem”.

O segundo fenômeno é relacionado: o identitarismo, um setor do progressismo que se inflamou de gana revolucionária desde 2011, afetando agora leis e decisões nas mais altas cortes do Brasil. Esse ativismo tem raízes intelectuais claras: marxismo, “teoria” “crítica” e pós-modernismo. São constructos intelectuais que afrontam o senso comum.

Populismo como extensão política do senso comum

Como colocou a carta aberta contraditória dos profissionais de saúde, “há um fosso em expansão entre os líderes na ciência e um subconjunto das comunidades que eles servem”. O movimento político que inspira esse subconjunto a resistir é conhecido como “populismo”, como a própria elite intelectual o chama.

Apesar do quase consenso de desaprovação da Torre de Marfim, contudo, nem mesmo os cientistas políticos sabem dar uma resposta completa sobre o que seria populismo.

“O populismo é o nome de um fenômeno global cuja precariedade definicional é proverbial”, colocou pomposamente em uma revisão de 2019 a cientista política Nada Urbinati, da Universidade Columbia em Nova York.

Mas ela ensaia uma definição: “O populismo consiste numa transmutação dos princípios democráticos da maioria e do povo de uma forma que tem a intenção de celebrar um subconjunto das pessoas em oposição a outro, através de um líder que o incorpora e um público que o legitima”. Para Urbinati, trata-se de uma “estratégia para angariar poder em sociedades democráticas”.

O filósofo canadense Joseph Heath tem uma perspectiva diferente. Ele observou, em seu Substack, que a definição amplamente aceita para o populismo entre os intelectuais é superficial e enganosa, e que esse fenômeno político é como seus líderes Donald Trump e Jair Bolsonaro: quanto mais os intelectuais batem neles, mais eles se fortalecem.

De partida, segundo Heath, os intelectuais erram ao tratar o populismo como uma ideologia política. O que observo é que isso é uma projeção: porque sua postura política é, sem surpresa, intelectualizada e teórica, eles pensam que outras, opostas a eles, também serão.

Uma pista de que o populismo não é uma ideologia é justamente a diversidade de alinhamentos que ele permite: de Hugo Chávez a Bolsonaro. Ideologias genuínas têm princípios fundamentais que excluem essa flexibilidade.

A alternativa de Heath é simples, mas muito eficaz em explicar o populismo: ele é a política baseada no senso comum. Não é como o socialismo ou o liberalismo, que dependem de teorizações complexas, é aquilo que é evidentemente correto em si mesmo.

Isso não é necessariamente um elogio; Heath não é um adepto do populismo. Mas o poder explicativo é instantâneo, e derivado da teoria do cientista Daniel Kahneman em seu best-seller “Rápido e devagar” (Objetiva, 2012).

Segundo Kahneman, após a condução de experimentos célebres com seu colega Amos Tversky, o pensamento humano opera de duas formas principais. Uma é rápida, instintiva. Outra é lenta, mais racional. O senso comum é mais associado à forma rápida de processamento de informações.

É por isso que, como comentou o analista político Peter Zeihan em conversa com Sam Harris, o governo Trump pode ser resumido como uma gestão em que “eu sinto que…” é uma forma muito comum de tomar decisões.

Fatos que intelectuais fazem força para ignorar

Heath, Zeihan, Harris e outros críticos do populismo tenderão a enfatizar os riscos que esse movimento político do senso comum traz consigo. Antipatia pelos intelectuais e seus aliados na imprensa e nas instituições pode desembocar em posturas como a hesitação vacinal, a proliferação do que as pessoas “sentem” que é a verdade em vez de a verdade em si, com sua exigência de base factual, ceticismo sem base contra resultados eleitorais, entre outros problemas.

Mas há um aspecto de justiça no populismo como retaliação aos excessos das elites diplomadas, e está ligado justamente aos assuntos nos quais o senso comum está mais certo que as teorias dos doutores.

Como aponta o psicólogo social Lee Jussim, por exemplo, os estereótipos que compõem o senso comum são precisos. Isso não é o que Jussim sente que é verdade, é um dos resultados mais bem reproduzidos de toda a psicologia social.

Mais do que isso, a precisão é tamanha que somente 5% dos efeitos descritos pelas teorias da própria psicologia social se aproximam da taxa de acerto dos estereótipos.

Estereótipo não é sinônimo de preconceito. É uma estatística intuitiva que nossas mentes montam com base na experiência. Jussim comenta, inclusive, que eles não são dogmas aos quais o ser humano individual se aferra. Quando conhecemos uma pessoa nova, inicialmente fazemos previsões com base nos estereótipos, mas logo as abandonamos se descobrimos que aquele indivíduo é uma exceção. Isso nada mais é do que uma atitude racional, a de ajustar as crenças a novas informações.

Das atividades dos intelectuais que mais merecem ser valorizadas, a ciência é coroada como uma das mais importantes. Essa importância ganha uma veneração exagerada no preconceito do cientificismo, que ignora que há outros tipos de investigação importante e que há coisas que não se prestam a ser respondidas por métodos científicos.

Teorias cientificistas sobre o que é a ciência buscam folheá-la a ouro, distanciando-a de atividades humanas mais mundanas. Mas nem todos os filósofos da ciência concordam com isso. A filósofa britânica Susan Haack, que leciona na Universidade de Miami, propõe há décadas que a própria ciência é o braço longo do senso comum. Traduzi o livro em que ela delineia em detalhes sua teoria.

Haack não afirma que ciência é senso comum. Claramente, não seria o caso. Mas ela é um senso comum turbinado por vários auxílios, dos instrumentos científicos à estatística e à própria comunidade científica, quando os incentivos favoráveis à descoberta da verdade estão no lugar. O aspecto que a filósofa traz é que o senso comum não é um sinônimo do sistema rápido de Kahneman, mas uma convergência de muitas gerações, e incontáveis mentes independentes, pensando nos mesmos problemas.

Os profissionais de saúde que assinaram aquela carta de 2020 não estavam, claramente, orientados por ciência ou conhecimentos, pelo sistema mais lento do pensar racional. Pelo contrário, estavam inflamados de ideologia inimiga da verdade, que inflava a quantidade de negros mortos injustamente por serem negros pela polícia americana.

Em resumo, intelectuais traem princípios intelectuais quando algo em suas crenças e em seu modo de vida depende disso. Em seu livro sobre o identitarismo do ano passado, o sociólogo Musa Al-Gharbi explica que a onda woke foi causada, em última análise, por uma superprodução de intelectuais para os quais estava faltando emprego no começo dos anos 2010. Ele usa a categoria mais abrangente de “capitalistas simbólicos”, englobando acadêmicos, jornalistas e artistas.

Para esses profissionais em ascensão, a alegação de que a sociedade foi estruturada propositalmente para oprimir mulheres, negros, LGBT, imigrantes, deficientes etc. revelou-se muito lucrativa. Bastava estar nesses grupos, ou alegar uma proximidade com eles racionalizada de última hora, para colher os louros do identitarismo.

Eu, que escrevi meu próprio livro sobre e contra o identitarismo, fiz questão de incluir aqueles aspectos desse desastroso movimento que eram, em si, estimulados por vieses cognitivos, assim como o populismo.

Se os populistas são acusados de intolerância tribal, de alimentar um instinto humano basal e não pensar com cuidado a respeito, os wokes podem ser acusados da mesma coisa. Ou seja, a resistência populista a besteiras pseudointelectuais que são, no âmago, também baseadas em instintos sem escrutínio racional verdadeiro é apenas fogo contra fogo.

O gênio e o peso do boi

Por falar em “sentir” coisas, parte do que senti ao escrever meu livro foi que alguns problemas trazidos pelo identitarismo, como o bloqueio de puberdades de crianças diagnosticadas com disforia por causa de elucubrações e especulações acadêmicas baseadas em evidências escassas, eram tão obviamente danosos e baseados em falsidades, para qualquer um que siga o senso comum, que escrever com delongas a respeito parecia um exercício fútil.

Para trair um pouco o propósito desse texto, podemos usar Aristóteles: se uma coisa suspeita é defendida com base em teorias e argumentos, precisa ser enfrentada no campo da teoria e do argumento. Se não há que argumentar, há que argumentar.

Se surge um enfrentamento da loucura e do autoritarismo produzido por intelectuais que é baseado no senso comum, portanto, há grandes chances de que existem muitas verdades apoiando essa resistência que se escondem naquilo que é tabu entre esses intelectuais. O trabalho de destrinchar quais são essas verdades ainda é intelectual, mas leva à humildade dos intelectuais que o fazem.

Aos 85 anos, o gênio britânico Francis Galton, em 1906, visitou uma feira agrícola em sua nativa Inglaterra em que havia um jogo divertido em que o público era convidado a adivinhar o peso de um boi. Galton, um dos pais da eugenia e da estatística, sempre teve interesse em demonstrar a superioridade dos indivíduos com altas habilidades intelectuais, que ele chamava de “eminentes”, e desconfiava que a “eminência” era herdável.

Qual foi a surpresa dele ao descobrir, contudo, que a mais precisa de todas as tentativas não foi a de algum gênio, estudioso de bovinos ou autoridade eminente. Foi a média das respostas do público, distante apenas uma libra do peso real. Esta é a sabedoria da população. Este é o senso comum.

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