O discurso de Tarcísio de Freitas ontem na avenida Paulista foi interpretado por bolsonaristas como um aceno à família Bolsonaro. Já integrantes do governo Lula (PT) veem como um passo decisivo para uma candidatura presidencial em 2026, segundo a Folha de S.Paulo.
Em sua fala, o governador de São Paulo defendeu uma anistia “ampla e irrestrita”, afirmou que Jair Bolsonaro deveria ser autorizado a disputar em 2026 e que está sendo “condenado sem nenhuma prova”. “Ninguém aguenta mais a tirania de Moraes”, bradou.
A avaliação entre aliados de Lula é que Tarcísio acena à militância e à família de Bolsonaro para se consolidar como herdeiro político do ex-presidente, após cobranças de infidelidade vindas desse grupo.
Dois integrantes do governo federal afirmam que, com essas declarações, o governador se afasta do rótulo de moderado e sinaliza um “tudo ou nada” diante da proximidade de uma condenação de Bolsonaro no Supremo.
PT critica gesto pró-Trump e minimiza público nos atos
Nas redes, a ministra de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann afirmou que o governador foi “à manifestação pró-Trump defender os traidores da pátria e a impunidade de quem tramou um golpe contra a democracia”.
Para ela, “precisa entender que ‘tirania’ é o que eles queriam impor ao país, não as decisões do STF no devido processo legal. E o que ‘ninguém aguenta mais’ são as ameaças da família Bolsonaro contra o país”.
O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), disse à Folha que Tarcísio “rasgou qualquer fantasia de moderado”. Segundo ele, “ele assumiu o discurso da direita bolsonarista e anti-democrática. Ele vai pagar um preço altíssimo por isso”.
Aliados de Bolsonaro e do governador elogiaram o tom mais duro. Tarcísio, conhecido por um discurso mais conciliador, vinha evitando citar nomes e fazia apelos à pacificação. Às vésperas de uma provável condenação de seu padrinho político no STF, o gesto surpreendeu parte de seus aliados.
A leitura é que, se Tarcísio tem equilibrado diálogo com ministros do Supremo e gestos ao bolsonarismo, no 7 de Setembro na Paulista era imprescindível um aceno à militância. Um integrante do centrão minimizou o mal-estar no STF.
Avalia que o governador precisa se consolidar como herdeiro de Bolsonaro para capturar os votos do bolsonarismo e, num segundo momento, ajustar o discurso, sinalizando que não radicalizaria com a Corte.
Diante de críticas a movimentos de seu entorno para suceder Bolsonaro, hoje inelegível, Tarcísio frisou várias vezes que a direita tem candidato em 2026: “Deixa Bolsonaro ir para urna, qual problema? Ele é nosso candidato”.
No Congresso, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), apresentou a versão mais abrangente do projeto de anistia aos presos e condenados pelos atos de 8 de janeiro: incluiria todos desde a abertura do inquérito das fake news no STF, em 2019, e reverteria a inelegibilidade de Bolsonaro. O texto enfrenta resistência e o Palácio do Planalto atua para barrar a medida.
Segundo um aliado de Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, o parlamentar deve levar o tema ao plenário para aliviar a pressão de governistas e bolsonaristas, mas reconhece que isso não deve ocorrer agora, devido ao tensionamento provocado pelo julgamento de Bolsonaro no Supremo.
