O cemitério político está cheio de militantes fiéis
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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O cemitério político está cheio de militantes fiéis

Direita vive síndrome da sucessão carismática
Direita vive síndrome da sucessão carismática

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Por Claudio Dantas

O cemitério da política está lotado de herdeiros de araque e impérios implodidos por vaidade. O que assistimos hoje no campo conservador brasileiro não é apenas um racha eleitoral visando 2026. É o clássico, e muitas vezes letal, vácuo da sucessão carismática. Com Jair Bolsonaro imobilizado no xadrez jurídico, a direita tupiniquim repete um roteiro que a história já cansou de encenar: a guerra fratricida pelo espólio de um líder tutelar que, ausente das urnas, não consegue mais enquadrar a tropa.

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A síndrome não é nova e costuma cobrar um preço altíssimo.

Quando Alexandre, o Grande, morreu em 323 a.C., sem um sucessor óbvio, legou seu império “ao mais forte”. O resultado prático? Seus generais — os diádocos — passaram décadas se matando. Em vez de consolidarem a hegemonia, retalharam o maior império da antiguidade, servindo-o mastigado para o pragmatismo romano séculos depois. Hoje, nossos “generais”, líderes políticos, ativistas e analistas, trocam farpas diárias numa dinâmica fratricida, do purismo estéril à governabilidade fisiológica.

Vale dizer que a argamassa que ainda une essa direita é, essencialmente, o antipetismo. Mas a política pune severamente quem se une apenas pelo que odeia. Nos Estados Unidos da década de 1850, o gigante Partido Whig implodiu exatamente por isso. Seus membros eram unidos pelo ódio visceral ao presidente Andrew Jackson. Quando a realidade bateu à porta e exigiu posições programáticas inegociáveis, a legenda esfarelou e desapareceu, sendo engolida pelo nascente Partido Republicano.

Não precisamos sequer cruzar o Equador para ver o mesmo filme. A nossa velha UDN nasceu e cresceu nutrida pelo antigetulismo. Quando Getúlio saiu de cena em 1954, a legenda perdeu sua bússola. A fratura exposta entre o radicalismo moralista da ala de Carlos Lacerda e o pragmatismo dos caciques regionais impediu a UDN de chegar ao poder de forma orgânica, definhando muito antes de ser oficialmente extinta.

Até a vizinha Argentina oferece um espelho indigesto dessa dinâmica de orfandade política. O exílio de Juan Domingo Perón nos anos 50 fraturou o movimento de tal forma que a guerra interna se tornou literal. A extrema-esquerda e a extrema-direita do peronismo passaram a se assassinar nas ruas para provar quem era o “verdadeiro” herdeiro do líder. O caos resultante pavimentou o caminho para a tragédia institucional e ditatorial de 1976.

O movimento sobreviveu, mas mutilado e transformado numa máquina puramente fisiológica que entregou décadas de atraso ao país.

A direita brasileira não corre o risco de desaparecer da noite para o dia, claro. O eleitorado conservador nos costumes e com inclinações liberais na economia é uma força estrutural consolidada no país. O abismo que se desenha para 2026, no entanto, é o da inviabilidade eleitoral. O vício do “anti” e a dependência crônica do caudilhismo não sustentam um projeto de nação ou de Estado. Se a ala institucional não conseguir neutralizar a sabotagem da ala histriônica, o conservadorismo brasileiro fará exatamente o que as facções em guerra sempre fazem na história: entregar o poder ao adversário. De bandeja, com suas próprias cabeças.

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