O Bostil é intankável - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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O Bostil é intankável

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Por Claudio Dantas

O germe do golpismo está presente nas Forças Armadas, assim como em diferentes instituições civis. Basta notar que, a depender das circunstâncias e dos personagens, todo tipo de abuso é justificável. O legalismo é deixado de lado e o que vale é a lei da selva, a lei do mais forte. A história brasileira está aí a esfregar em nossas caras o quão distantes permanecemos de uma civilização.

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Por aqui, parece haver sempre uma justificativa para a violência, institucional ou não. O criminoso é vítima da sociedade, o black bloc está lutando contra o ‘capital’, assim como o invasor de terras. É preciso censurar em nome da democracia e, em nome dela, prende-se e arrebenta-se! Solta-se, também!!! Aplica-se a lei tirada da capa, não importa a Constituição.

É inaceitável, do ponto de vista moral, que um general no topo da hierarquia militar e exercendo um cargo de poder na administração pública sequer cogite um assassinato ou mesmo um golpe. Sorte a nossa que essa turma é minoria na caserna. Mesmo sob pressão das ruas e de parte do oficialato, a cúpula das Forças Armadas não cedeu um milímetro a aventuras institucionais, nem em 2022, nem em 2016 ou 2013, quando pequenos grupos se infiltraram nas passeatas para pedir intervenção militar.

Apesar de acampamentos em frente a vários quartéis pelo país após a polêmica vitória de Lula, em absolutamente nenhum deles registrou-se a adesão de oficias ou suboficiais.

Na própria administração de Jair Bolsonaro, que abrigou mais de 3,5 mil militares em cargos comissionados, tampouco houve acolhida — mesmo cientes de que a derrota nas urnas significaria a perda da posição de poder, de gratificações e outros penduricalhos. Nem mesmo o chefe de Mário Fernandes, o general Luiz Eduardo Ramos, deu ouvidos ao subordinado.

E o então presidente da República? As investigações até aqui sugerem que ele resistiu aos apelos golpistas, inclusive daqueles que pediam incessantemente a aplicação do artigo 142, antes e depois das eleições. Bolsonaro levantou suspeitas sobre a segurança das urnas, cobrou auditagem pública de votos, insuflou a militância contra o STF. Derrotado, guardou silêncio, facilitou a troca antecipada dos comandantes militares e entregou a transição aos subordinados. Depois, deixou o país.

Certamente, ao ouvir sugestões radicais por vários lados, deve ter pensado em “fazer justiça” contra o Judiciário que pesou a balança eleitoral para o seu concorrente, mas até aqui não há nada que indique ter tomado qualquer decisão nesse sentido. Ao contrário, as trocas de mensagens obtidas pela PF mostram a decepção de seus auxiliares com a inação do chefe. Para muitos, foi covarde e omisso, o que não é crime.

Afinal, há uma diferença brutal entre pensar e até planejar um crime e cometê-lo. No arcabouço legal brasileiro, não há punição prevista para atos preparatórios. Também há uma diferença brutal entre aceitar o resultado das urnas e concordar com ele, assim como é possível lidar com a realidade da descondenação de Lula pelo STF, sem aceitar sua inocência.

Nunca, nenhuma caneta por mais suprema que seja, conseguirá apagar a história, mesmo que todos os condenados da Lava Jato sejam descondenados e os bilhões recuperados pelo Ministério Público Federal acabem voltando para as offshores de seus ilegítimos donos. Se é grave pensar em golpe, o que dizer da corrupção que comprou (e compra) mandatos políticos, projetos de lei, resoluções e decretos… e até sentenças? Transfigurar a democracia na base do suborno chama como?

Em democracias frágeis, em republiquetas de bananas, a lei pode ser imposta à força, mas isso não lhe aufere legitimidade. Fazer justiça com as próprias mãos nunca será justiça e menos contribui para pacificar um país. Mesmo assim, Moraes conta com o apoio unânime dos colegas de toga, tem aliados nos demais poderes e até fãs ocasionais nas redes. Azar o nosso. 

Assista esse artigo em vídeo:

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