Por Júlia Lucy*
Dificilmente pode haver um habitante de Bruzundanga que não tenha sido noticiado da recente imposição de tarifas, pelos Estados Unidos da América, às exportações brasileiras. É só do que se fala aqui. Como tudo mais que acontece no País, esse fato gerou a famigerada “guerra de narrativas” com um lado do espectro político atribuindo ao outro a culpa pelos óbvios ônus que os brasileiros hão de suportar como resultado desse revés geopolítico.
É particularmente curioso, porém, que um desses polos tem abraçado uma narrativa, e os valores subjacentes, que até há muito pouco desprezava: o nacionalismo. Independentemente do mérito do argumento nacionalista em abstrato, no Brasil, neste contexto atual, a defesa dessa posição parece um tanto insinsera, se não ostensivamente cínica. Nesse sentido, tem circulado bastante na internet – oportunidade esta que talvez não tenhamos por muito tempo – vários memes, e até textos mais sérios, sobre as recentes intervenções do Presidente Lula em outros países, notoriamente, sua visita à ex-Presidente da República da Argentina, Cristina Kirchner, condenada pela Justiça Argentina por corrupção; e seu resgate à ex-primeira dama do Peru, Nadine Heredia, condenada pelo Poder Judiciário desse país, em avião da Força Aérea Brasileira. Em ambos os casos, muito recentes, trata-se de pessoas condenadas pelas respectivas jurisdições, mas em favor de quem o principal mandatário da nossa República (?) teve por bem realizar atos políticos pela libertação.
Essas situações, porém, não são de modo algum únicas. Tantas outras poderiam ser citadas em relação a vários outros países, mas, para os propósitos deste texto, e do contexto geopolítico atual, vamos nos ater aos fatos que envolvem os Estados Unidos da América. Recentemente, o Presidente do Supremo Tribunal Federal declarou publicamente que recorreu a um diplomata norte-americano para garantir a “democracia” no Brasil nas eleições de 2022, naturalmente, sob os mais nobres e puros propósitos.
Posteriormente, a mesma Suprema Corte, por ele presidida, chegou a emitir ordens judiciais, multas e mandados de prisão contra cidadãos brasileiros e americanos residindo nos Estados Unidos, segundo as leis americanas, por postagens feitas em território americano, em redes sociais cuja matriz é, também, nesse país. A justificativa, sempre tão nobre e elevada quando seus proponentes, é de que essas postagens, ao interferir na política brasileira, deveriam observar as leis brasileiras e a Suprema Corte, portanto, deveria atuar com altivez para coibir esses atos. Pouco importa, nesse contexto, o Direito Internacional, ou as leis americanas, desde que os propósitos sejam suficientemente justos, aos olhos de seus guardiões.
Ainda, no período eleitoral dos Estados Unidos de 2024, pareceu ao Presidente da República Federativa do Brasil ser uma boa ideia apoiar abertamente uma candidata, em detrimento do atual Presidente dos Estados Unidos, complementando essa hábil conduta diplomática com a acusação de que o então candidato Donald Trump seria um representante de uma versão moderna do nazismo.
Nesse contexto, soa um tanto inusitado arguir que, por ser o Brasil um país soberano, os Estados Unidos não podem reagir, por tarifas ou qualquer outra forma, a essas condutas da Suprema Corte e do Presidente da República. Não é como se elas afetassem os cidadãos e o próprio Estado Americano, certo?
Serei eu, então, a gritar que o rei está nu: ninguém acredita na tese de soberania nacional. Ninguém, sinceramente, acha que é este o problema, mesmo seus mais ardentes defensores. É esdrúxulo demais para um adulto capaz. Na prática, o que o atual Governo Federal e seus defensores acreditam é que eles não merecem ser retaliados pelas condutas que adotaram, desde as já citadas neste texto, passando pelas citadas na carta do Presidente americano, de perseguição a um ex-Presidente da República, até as de posicionamento geopolítico, como a defesa de rompimento da hegemonia do dólar. Afinal, tudo isso foi feito em nome da democracia, dos pobres, do bem, da virtude, da verdade e da justiça. Quem não gosta dessas atitudes, pois, há de ser autoritário, elitista, mal, cheio de vícios, e, sobretudo, mentiroso. Estes, os vilões, jamais poderiam punir os bons moços, se não por um mecanismo de roteiro para submeter os bons moços às provações que toda sua virtude acarreta, antes da recompensa da vitória final.
Convencidos dessa verdade, então, nada os pode convencer do óbvio: a eles é atribuível a causa do sofrimento, próprio e alheio. Pouco importa se esse mesmo discurso nacionalista parece muito com o dos defensores do regime venezuelano há pouco mais de uma década. Pouco importa que ele se assimile ao dos apoiadores atuais do regime iraniano, ou do norte-coreano. Nada interessa que pareça o discurso do próprio Regime Militar Brasileiro ou até, voltando quase um século, dos próprios nazistas e fascistas, a quem eles tanto desprezam, e, sobretudo, dos nacionalistas japoneses, após serem também embargados pelos americanos. É direito deles oprimir o próprio povo, perseguir a oposição e mesmo de causar sofrimento a cidadãos de outras nações, sob pena de ferir-lhes a soberania nacional.
Não há quantidade de evidências concebível capaz de provar aos defensores do atual regime brasileiro que somos nós, brasileiros, os autoritários. Toda evidência para que não haja dúvida razoável, a quem estiver disposto a contemplá-la, já existe. Citá-la poderia preencher – literalmente – várias centenas, talvez, milhares de páginas. Curiosamente, os que as rejeitam são justamente os que, muito recentemente, acusavam todos que discordavam de si, durante o período pandêmico, de negacionistas.
O nosso projeto autoritário, pois, conquanto de inspiração estrangeira, é nacional, made in Brazil. A franquia das ditaduras do mundo subdesenvolvido fez-nos a fineza de abrir uma filial em território nacional. Aqui, desenvolvemos um projeto próprio, com características brasileiras, de como eliminar liberdades fundamentais do nosso povo, perseguir opositores, concentrar poder em certas autoridades e desprezar o que vem do mundo livre. As patentes foram devidamente registradas nos vários autos processuais em que esses processos são conduzidos, ressalvado que são sigilosos, claro, para preservação do segredo industrial. Sem prejuízo, podemos sempre aproveitar tecnologia chinesa. Nesse caso, a intervenção é positiva, não fere a soberania, pois somos todos admiradores desse modelo, certo?
Bem, de ambos os polos do espectro político, de toda essa guerra de narrativas, podemos pelo menos achar algo em comum: viver a pátria livre ou morrer pelo Brasil. A esta geração de brasileiros, foi confiado um dever tão terrível quanto comum às gerações anteriores: resistir ao autoritarismo. Parafraseando um britânico, famoso tanto por enfrentar conflitos internos quanto por lutar contra o autoritarismo: ainda que nossa República dure mais mil anos, que as pessoas digam que é esta a nossa melhor hora.
* Júlia Lucy é cientista política, ex-deputada distrital e comentarista do canal.
