Alerta sobre falsificação de bebidas ignorado por autoridades seis meses antes de mortes
Seis meses antes das primeiras mortes por intoxicação por metanol em São Paulo, uma pesquisa interna da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp) apontava que até 36% das bebidas alcoólicas no país eram adulteradas, falsificadas ou contrabandeadas.
A crise ganhou destaque após pelo menos seis mortes suspeitas por metanol e 43 casos de intoxicação notificados ao Ministério da Saúde, sendo 39 em São Paulo e três em Pernambuco. O metanol é altamente tóxico e pode causar cegueira, danos cerebrais, falência de órgãos e morte.
O diretor-executivo da Fhoresp, Edson Pinto, destacou que a maioria dos estabelecimentos atua corretamente, mas é vítima da adulteração de fornecedores. “Há seis meses já alertávamos sobre a prática. Se as autoridades não agirem, este esquema, que agora coloca vidas em risco, não termina nunca”, afirmou.
Falta de controle e crime organizado
A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) associa a crise à ação de facções criminosas e à ausência de fiscalização do setor. O desligamento do Sicobe, sistema de controle da produção de bebidas da Receita Federal e Casa da Moeda, contribuiu para o aumento da falsificação em bilhões de litros e da sonegação fiscal.
Segundo a ABCF, facções como PCC teriam usado metanol armazenado em distribuidoras proibidas para adulterar bebidas, lucrando milionariamente e colocando consumidores em risco. O faturamento do mercado ilegal de bebidas no país é estimado em R$ 62 bilhões, com crescimento expressivo de fábricas clandestinas: de 12 para 80 entre 2020 e 2024.
Investigações e fiscalização
A Polícia Federal assumiu a investigação, devido à atuação de grupos criminosos em mais de um estado. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que ainda não há evidências do envolvimento do PCC, mas a apuração segue em curso.
Especialistas reforçam que quem serve bebidas falsificadas responde civilmente pelos danos à saúde dos consumidores, independentemente de culpa. O Ministério da Agricultura e Agropecuária regula e fiscaliza a produção de destilados; bebidas importadas são controladas pela Receita Federal.
O Ministério da Justiça emitiu recomendações a bares, restaurantes e distribuidores para compra segura, conferência de produtos, rastreabilidade e interrupção imediata da venda de lotes suspeitos.
Rastreamento e controle
O desligamento do Sicobe em 2016 reduziu o monitoramento da produção e aumentou a atuação do crime organizado. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a falsificação financia atividades criminosas, como tráfico de drogas e armas, e monopoliza mercados locais vulneráveis.
A Receita Federal, no entanto, afirma que não há relação entre o Sicobe e as mortes recentes, já que o sistema controlava principalmente cervejas, refrigerantes e águas. Bebidas destiladas são rastreadas por selos da Casa da Moeda, mas não há sistema de certificação que garanta a procedência dos produtos em circulação.
O anuário da ABCF de 2025 aponta que uísque, gim e vinho são os produtos mais falsificados e que o número de garrafas adulteradas aumentou, enquanto as contrabandeadas diminuíram. Especialistas defendem parceria entre produtores e associações de bares e restaurantes para identificar bebidas falsificadas e proteger consumidores.
