Em discurso na 80ª Assembleia Geral, presidente critica sanções dos EUA e pede regulação de plataformas
O presidente Lula abriu o Debate Geral da 80ª Assembleia Geral da ONU na manhã desta terça-feira (23) com um discurso de 15 páginas, posicionado como contraponto às posições do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao tratar de soberania, democracia, redes sociais e guerras, Lula afirmou que “democracia e soberania são inegociáveis” e que “não há pacificação com impunidade”.
O discurso ocorre após nova rodada de sanções do governo americano a cidadãos brasileiros, incluindo a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, além de membros do governo, em reação à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula declarou: “Mesmo com ataques, o Brasil resistiu. Não há justificativa para medidas unilaterais contra nossas instituições e nosso Judiciário vindo de direita de antigas hegemonias”.
O presidente afirmou que forças “antidemocráticas”, em todo o mundo, atuam como milícias “físicas e digitais” e cerceiam a imprensa. Segundo ele, “autoritarismo se fortalece quando a sociedade mundial se enfraquece diante da ameaça sobre soberania nacional”. E emendou: “Seguiremos como nação independente e sem tutela”.
Ao defender um conceito amplo de democracia, disse que ela “pressupõe trabalho, moradia, educação, saúde, social” e criticou a responsabilização de estrangeiros por crises internas: “A democracia perde quando culpa imigrantes pelas mazelas do mundo”.
Recados a Trump e confronto a intervenções unilaterais
Lula criticou ações militares estrangeiras na Venezuela: “Intervenções unilaterais estão se tornando regra” e, numa indireta ao governo americano, afirmou: “Usar força letal sem conflito armado, é matar inocente. É interferência”. Rejeitou ainda a inclusão de Cuba em listas de terrorismo: “É inadmissível Cuba estar listada como país do terrorismo”.
Guerras, Gaza e Ucrânia
Sobre a Ucrânia, Lula sustentou que “não haverá solução militar”. Em relação ao Oriente Médio, disse: “Debaixo de escombros, estão crianças e mulheres inocentes, ali está o mito da superioridade do Ocidente. Em Gaza, fome é usada como arma de guerra”. E alertou: “O povo palestino corre o risco de desaparecer”, reforçando seu apoio a criação de um Estado Palestino.
Fome, redes sociais e regulação
O presidente comemorou dados internos: “Foi com orgulho que recebemos a notícia que o Brasil saiu do mapa da fome”. Ele defendeu redirecionamento de gastos globais: “A única guerra que todos podemos sair vencedores é contra a fome. A comunidade internacional precisa reduzir seus gastos com guerra e diminuir a dívida externa dos países mais pobres, como os africanos; os mais ricos precisam pagar mais impostos”.
Lula cobrou regras para plataformas digitais: “Podem nos aproximar, mas têm sido usadas para espalhar intolerância e desinformação. Regular não é censura, é tratar da mesma forma que o mundo real. (…) É usada para tráfico de pessoas, pedofilia e contra o Estado Democrático de Direito.” E destacou: “Promulguei, na semana passada, uma das leis mais avançadas do mundo sobre proteção de crianças na internet”, em referência a Lei contra adultização de menores.
Agenda em Nova York
Além do discurso, Lula participou na segunda de conferência sobre a Palestina. Ainda hoje, terá encontro sobre clima com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e outras autoridades. Na quarta-feira, antes de voltar ao Brasil, participa do encontro “Defesa da Democracia”, que busca fortalecer o multilateralismo e para o qual Trump não foi convidado.
