Estudo prevê até 12 reatores flutuantes no Norte até 2035
O governo Lula estuda a possibilidade de importar usinas nucleares flutuantes da estatal russa Rosatom para abastecer regiões isoladas da Amazônia, aprofundando a controversa parceria com Moscou no setor de energia atômica. A proposta reforça a dependência brasileira da Rússia e pode abrir espaço para a instalação de até 12 pequenos reatores modulares (SMRs) até 2035.
A empresa, central no mercado nuclear global mesmo em meio à guerra na Ucrânia, já fornece urânio enriquecido para as usinas de Angra e agora busca ampliar sua presença no Brasil.
“Temos muito interesse em ampliar nossa cooperação”, afirmou Ivan Dibov, diretor da estatal russa para a América Latina, em entrevista à Folha de S.Paulo.
A tecnologia oferecida foi testada na barcaça russa Acadêmico Lomonosov, lançada em 2020 no Ártico, alvo de críticas de ambientalistas que a apelidaram de “Tchernóbil flutuante”. Ainda assim, a usina substituiu uma termoelétrica poluente e dois reatores ultrapassados. O Greenpeace segue alertando para os riscos de acidentes, mas o governo brasileiro mostra entusiasmo.
Segundo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o Brasil vê os pequenos reatores, inclusive os flutuantes, como soluções viáveis e estáveis para áreas de difícil acesso, como a Amazônia, que ainda depende fortemente de geradores a diesel e da importação de energia da Venezuela.
“Temos mantido um diálogo técnico produtivo com a Rosatom”, afirmou Silveira, que também citou o interesse no uso dos SMRs para datacenters e aplicações de alta demanda energética.
A instalação de reatores flutuantes depende de regulamentação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que levou dez anos para aprovar o modelo russo. Segundo Dibov, hoje a construção de cada usina levaria dois a três anos, mas o custo ainda é indefinido. A primeira estrutura flutuante da Rosatom teve um orçamento inicial de US$ 340 milhões, que saltou para US$ 870 milhões corrigidos.
Além da Amazônia, a empresa vê potencial para instalar outros 10 reatores em navios na costa do Nordeste, onde o déficit energético também é significativo. A capacidade adicional seria de 0,5 GW, metade da potência instalada da matriz nuclear nacional atualmente.
A Rosatom está presente no Brasil desde 2015 e ganhou destaque ao vencer, em 2023, duas licitações para fornecer urânio enriquecido a Angra pelos próximos cinco anos, um contrato estimado em US$ 140 milhões. Embora o histórico da estatal russa envolva também o fornecimento de isótopos para uso médico, é a expansão da energia nuclear que agora a coloca no centro da estratégia energética do governo.
