Lula, Boulos, Tábata, Hilton e seus militantes já agradeceram a Arthur Lira e a Hugo Motta pela aprovação da isenção do IR? Ou vão continuar fingindo virtude, depois de negociarem com aqueles que dias atrás chamavam de corruptos por causa da ‘PEC da Blindagem”? Os pecadores já podem ser perdoados? Afinal, até a oposição bolsonarista — golpistas, certo? — apoiou de forma unânime mais esse populismo de Lula!
Ninguém que dependa do voto popular pode ser contra a isenção de IR para quem mal sobrevive com pouco mais de 3 salários mínimos, certo? E a tabela de isenção já poderia ter sido corrigida há muito tempo, claro. Mas ninguém consegue explicar por que a oposição, da direita ao centro, topou aprovar um clássico cavalo de Tróia. Afinal, bastava uma Medida Provisória para resolver a fatura.
Mas poupar o pobre nunca esteve nos planos de Lula e sua tropa. O real objetivo do projeto aprovado ontem por unanimidade sempre foi a tributação dos dividendos de quem ganha de R$ 50 mil para cima. O governo espera embolsar quase R$ 40 bilhões com a medida, que afeta pequenos e médios empreendedores; e não os super-ricos que dizem combater. Os bilionários nascidos do patrimonialismo petista seguirão incólumes, pode crer.
Na prática, o projeto de ontem reforça o plano de poder do jurislulismo que repete a fórmula venezuelana de eliminação da classe média. Afinal, o próprio Lula já disse que quando o cidadão ganha acima de 5 salários mínimos “já tem dificuldade de votar na gente”. Essa ‘traição’ do eleitor que prova do mel do capitalismo explica o ódio disseminado por Marilena Chauí, a filósofa preferida do PT e da Folha de S. Paulo.
O cinismo petista é tão evidente e fácil de ser desmontado que me surpreende a inação da oposição, que perdeu essa batalha, não ontem, mas desde o dia em que o projeto foi distribuído para Arthur Lira. Ali, era o momento de enterrar qualquer nova tentativa de tributação e mandar o governo enviar uma MP de correção da tabela do IR, ou mesmo algum deputado apresentar um projeto nesse sentido.
Não é razoável que a oposição, do centro à direita, entregue de bandeja uma vitória política dessas àqueles que dias atrás tomavam as ruas do país acusando essa mesma oposição de corrupta, pela aprovação da PEC da Blindagem. Repiso: uma vitória retórica para Lula e uma derrota real para a maior parcela da sociedade que carrega o país nas costas!
Entregar uma vitória política desse porte para aqueles que pretendem exterminar a própria oposição, da direita bolsonarista ao Centrão fisiológico, é um erro estratégico colossal e que cobrará seu preço nas urnas no ano que vem — ou antes até. Repare que o apoio desta vez foi dado sem qualquer contrapartida, justamente no momento em que o Congresso discute o PL da Anistia.
Na política, se a barganha não é visível, o valor negociado certamente é inenarrável. Quem não se move por novos negócios, só o faz sob pressão judicial de velhas negociatas. E nada melhor para o jurislulismo do que um relator e um presidente da Câmara devedores de um Supremo que sabe a hora de investigar e a hora de engavetar, inclusive investigações contra pais e filhos sobre aplicação de emendas parlamentares em currais eleitorais.
Ontem, Motta disse que a aprovação da isenção do IR “é um alívio direto no bolso de milhões de trabalhadores e aposentados de todo o país”. “Quando o tema é o bem-estar das famílias brasileiras não há lados nem divisões.” Sim, mesmo com brigas de domingo e ressentimentos, a família política brasileira parece mais unida do que nunca e, a pacificação do país, mais próxima do que imaginei.
