Depoimentos citam pressão política e repasses atípicos ligados à antiga gestão da Câmara
O inquérito que levou a Polícia Federal a deflagrar operação contra Mariângela Fialek, ex-assessora de Arthur Lira (PP-AL), reuniu depoimentos de ao menos seis parlamentares. A apuração indica suspeitas de irregularidades no repasse de emendas parlamentares e relata possíveis pressões políticas atribuídas ao ex-presidente da Câmara.
Segundo o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação, os relatos apontam que Tuca, como Mariângela é conhecida, integraria uma estrutura voltada ao direcionamento indevido de emendas, supostamente atuando sob ordens diretas de Lira — ponto ainda em investigação.
As emendas parlamentares permitem que deputados e senadores definam destinos de parte do orçamento da União. Desde 2023, o STF exige mais transparência na distribuição desses recursos devido ao histórico de opacidade e denúncias de favorecimento político.
Foram ouvidos os deputados Glauber Braga (PSOL-RJ), José Rocha (União-BA), Adriana Ventura (Novo-SP), Fernando Marangoni (União-SP) e Dr. Francisco (PT-PI); o senador Cleitinho (Republicanos-MG); e a servidora Elza Carneiro.
Glauber relatou que antigas emendas teriam sido transformadas, de modo irregular, em emendas de comissão, concentrando recursos sob influência de um grupo ligado a Lira. Disse também que recebeu relatos de pressão política e citou repasses considerados atípicos para municípios de Alagoas, especialmente Rio Largo, administrado por aliado do ex-presidente da Câmara.
José Rocha afirmou que, ao assumir a presidência de uma comissão, recebeu de Tuca minutas e planilhas que somavam mais de R$ 1 bilhão, sem identificação de autores ou beneficiários. Ele relatou dificuldade em obter detalhes sobre os repasses e disse que uma das remessas previa R$ 320 milhões para Alagoas. Segundo Rocha, quando segurou o envio para esclarecimentos, Lira telefonou reclamando que ele estaria “criando problema”.
A servidora Elza Carneiro afirmou ter sido pressionada a encaminhar um ofício para assinatura do vice-presidente da comissão, Fernando Marangoni, sem autorização formal — prática incomum. Ela disse ter confirmado a irregularidade com Marangoni e Rocha e, por isso, se recusou a seguir com o documento. Dias depois, perdeu o cargo de secretária da comissão.
Adriana Ventura relatou aumento incomum nos valores de emendas de comissão a partir de 2023 e afirmou que não havia discussão interna sobre critérios ou destino dos recursos. Segundo ela, “a ordem vinha de cima”.
“O exame dos depoimentos transcritos revela que a Representada atua diretamente na operacionalização do encaminhamento de emendas, efetuando-as supostamente em nome do ex-Presidente da Câmara dos Deputados, o Deputado Arthur Lira”, escreveu Dino.
Mariângela Fialek teve sua residência e local de trabalho alvos de buscas nesta sexta-feira. A investigação apura possíveis crimes relacionados a peculato, falsidade ideológica, uso de documento falso e corrupção.
