Há anos, a oposição ao presidente americano Donald Trump tem tentado manchar sua imagem associando-o a influenciadores que se radicalizaram para posições antissemitas, racistas, neonazistas e anti-Ocidente.
Não tem colado, pois Trump já se distanciou de alguns deles ou sempre teve uma conexão muito tênue com outros.
Um assunto que merece exame, contudo, é se esses influenciadores de posições extremas são realmente tão influentes. É esta pergunta que o cientista social Eric Kaufmann, do Centro de Ciência Social Heterodoxa (CHSS) da Universidade de Buckingham, no Reino Unido, buscou responder com um estudo publicado na última segunda-feira (19).
Kaufmann deu atenção especial a três influenciadores americanos:
- Nick Fuentes, que diz admirar Adolf Hitler e faz generalizações negativas contra judeus, mulheres, negros, LGBT e imigrantes.
- Candace Owens, criadora de teorias da conspiração antissemitas que já culpou até a Legião Francesa pelo assassinato de seu amigo Charlie Kirk e alega que a primeira-dama francesa Brigitte Macron é um homem.
- Tucker Carlson, ex-âncora da Fox News que, desde que se tornou um criador de conteúdo independente, tornou-se cada vez mais crítico dos países ocidentais, entrevistou Vladimir Putin com perguntas fáceis e alegou que as ações de Trump contra o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, poderiam ter algo a ver com o pouco reconhecimento dos direitos LGBT na Venezuela.
O pesquisador descobriu que “as declarações de Fuentes, Owens e, em menor medida, Carlson parecem ter um impacto fraco até mesmo em seus seguidores”.
As descobertas do estudo “sugerem que o alarmismo a respeito da ascensão de uma direita jovem antissemita e racista é exagerado”, concluiu Kaufmann. A preocupação mais realista é “a emergência de um ‘voto conspiracionista’ flutuante, com tendência a ser jovem e não branco”, que poderia moldar a direção política e cultural dos Estados Unidos, tal como o país está hoje, com seu nível sem precedentes de baixa confiança social.
Principais descobertas do estudo sobre os influenciadores extremos
Algumas das descobertas de Kaufmann são surpreendentes. Por exemplo, apesar de toda a retórica de seus influenciadores, somente 13% do público de Fuentes e 9% do público de Carlson querem baixar a imigração nos Estados Unidos a zero.
Só um quinto dos seguidores de Nick Fuentes pensa que é necessário ter um sotaque americano para ser um verdadeiro cidadão do país, e 24% pensam que é necessário ser branco. Pode parecer muito, mas lembremos que é o público de um influenciador que insiste em retórica de supremacia branca e disse que todos os negros devem ir para a cadeia.
Entre os seguidores de Tucker Carlson, essas posições são de 20% e 12%, respectivamente.
Aplicando mais pressão nas crenças raciais dos públicos dos dois influenciadores, foi-lhes perguntado se os Estados Unidos perderiam sua identidade caso passassem a ser um país com maioria não branca. Discordaram dessa ideia 40% dos seguidores de ambos. Muitos dos que os assistem não são brancos: 35% do público de Fuentes e 25% da audiência de Carlson.
Qual é o tamanho da audiência de Fuentes? É grande no número absoluto, mas representa apenas 2% a 3% dos adultos americanos, e no máximo 7% dos eleitores de Trump com menos de 35 anos.
Os três influenciadores citados não são exatamente líderes de jovens: a média de idade de seus seguidores está entre os 45 e 50 anos. Os americanos de meia idade são tão comuns em seus públicos quanto os jovens.
Recentemente, a organização focada em universitários de direita, Turning Point USA, fundada por Kirk, teve entre os seus palestrantes o comentarista judeu e sionista Ben Shapiro, que lançou críticas duras aos três influenciadores mais extremos. O estudo de Kaufmann mostra que, apesar da inimizade, um terço do público de Fuentes consome o conteúdo de Shapiro ao menos ocasionalmente.
Além disso, metade do público de Fuentes lê ocasionalmente o New York Times, de linha editorial progressista. O mesmo é verdadeiro para 40% do público de Carlson.
Apesar do antissemitismo e, no caso de Carlson, no mínimo, grande desconfiança contra Israel, “O seguidor típico de Nick Fuentes, Candace Owens e Tucker Carlson simpatiza mais com judeus que com palestinos”.
Os seguidores de Fuentes, aliás, têm uma opinião “moderadamente positiva” sobre os negros.
Mesmo aqueles membros do público que acreditam em teorias da conspiração como “os judeus controlam a mídia” simpatizam mais com judeus do que com palestinos.
Kaufmann também aponta que não é a base de eleitores de Trump que é racista ou antissemita, mas os eleitores indecisos que mudaram seu voto para ele depois de 2016. Entre os eleitores de Trump com menos de 50 anos, “membros de minorias raciais têm a mesma probabilidade dos brancos de se identificarem como racistas”.
Alguns resultados chegam a ser engraçados: “Metade dos eleitores de Trump com menos de 50 anos que se autodeclaram racistas também endossam as ações afirmativas e cotas de diversidade (D.E.I.)”.
Um dos padrões que a pesquisa mostra é que as pessoas que realmente carregam os preconceitos que tanto assombraram os pesadelos dos identitários na última década são mais complicadas e mais contraditórias do que as caricaturas delas sugeriram.
Outro padrão é que a esquerda e o Partido Democrata não detêm nenhum monopólio da oposição ao antissemitismo. O republicano médio com menos de 35 anos tem simpatia pelos judeus hoje no mesmo nível moderadamente alto observado desde 1964, quando a memória do Holocausto estava mais viva.
Chega de pânico e de alarmismo sobre os preconceituosos
No artigo de divulgação do estudo que Kaufmann escreveu para a revista Compact, sua mensagem é clara e simples: “É hora de dar uma pausa no pânico sobre influenciadores antissemitas e racistas tomando conta do conservadorismo jovem”.
O conservadorismo nos Estados Unidos não está tendo seus portões arrombados por uma horda de intolerantes cheios de velhos preconceitos. Em vez disso, diz o cientista, devemos nos preocupar com o colapso na confiança social (um problema persistente no Brasil, uma sociedade de baixa confiança), que estimula teorias da conspiração que transparecem não valores conservadores, mas a ausência de valores — o niilismo.
Esta semana, viralizou um vídeo de influenciadores de opiniões extremas, entre eles Nick Fuentes, cantando juntos em uma limusine uma música do rapper bipolar Kanye West com um repetitivo louvor a Hitler.
Fuentes tem ascendência mexicana, e seus colegas eram mestiços com origens em países como Haiti, Filipinas e Sudão. Como disse o comentarista e influenciador centrista Brad Polumbo, se Hitler visse quem são seus fãs hoje, cometeria suicídio mais uma vez.
Os influenciadores extremos são mais entretenimento que informação, para seus próprios públicos. Se alguém ainda está preocupado com as mensagens que passam, fica uma última informação da pesquisa de Kaufmann: o transtorno de déficit de atenção é mais comum entre os seguidores desses influenciadores do que na população em geral.