Haddad mente sobre êxodo de empresas para o Paraguai
Brasília, Segunda, 08 de junho de 2026
Política

Fact-checking: Haddad mente sobre êxodo de empresas brasileiras para o Paraguai

Dados do regime de maquila mostram que migração de indústrias brasileiras ganhou força ainda nos governos Lula e Dilma

Haddad afirma que oposição está certa ao chamá-lo de “taxad” e cita medidas de aumento de tributos adotadas pela Fazenda

Compartilhe em

Foto do autor

Por Mariana Albuquerque

Jornalista e pós-graduada em Direito Legislativo.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou em entrevista recente à Jovem Pan News que as empresas brasileiras que migraram para o Paraguai teriam deixado o país durante o governo Jair Bolsonaro. Os dados disponíveis sobre o regime de maquila paraguaio, porém, mostram que o movimento é anterior e se consolidou ao longo de diferentes governos brasileiros.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

Durante a entrevista, Haddad declarou que “as empresas saíram para o Paraguai no governo Bolsonaro” e que “o governo Bolsonaro formou êxodo de empresas para o Paraguai”.

Os números oficiais do país vizinho indicam que a atração de empresas brasileiras começou anos antes e se tornou uma tendência contínua da indústria nacional.

Migração começou antes de Bolsonaro

O regime de maquila do Paraguai foi criado pela Lei 1.064/97, mas ganhou força a partir do final dos anos 2000, quando empresas brasileiras passaram a instalar unidades produtivas no país para aproveitar custos menores de produção.

Levantamentos do governo paraguaio mostram que o número de empresas brasileiras instaladas sob o regime cresceu de forma consistente durante os governos Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula.

Em 2015, ainda durante o governo Dilma, havia cerca de 40 empresas brasileiras operando sob o sistema de maquila.

Atualmente, o número supera 230 indústrias brasileiras instaladas no Paraguai, crescimento superior a 400% em aproximadamente uma década.

Diante dessa linha do tempo, não há evidências de que o fenômeno tenha começado durante o governo Bolsonaro.

O que atrai as empresas brasileiras

A principal vantagem oferecida pelo Paraguai é o regime de maquila, voltado para exportação.

O modelo permite que empresas importem matérias-primas e equipamentos sem tributação relevante, processem os produtos utilizando mão de obra local e exportem a produção pagando apenas 1% de imposto sobre o valor agregado.

Na prática, a carga tributária é significativamente inferior à enfrentada por empresas instaladas no Brasil.

Entre os principais incentivos estão:

  • Imposto único de 1% sobre o valor agregado;
  • Isenção de tributos de importação para máquinas e insumos;
  • Isenção de IVA nas exportações;
  • Menores custos trabalhistas;
  • Energia elétrica mais barata, impulsionada pelo excedente de Itaipu.

Especialistas apontam que a migração empresarial está ligada principalmente a fatores estruturais.

Enquanto o Paraguai desenvolveu um modelo voltado para atração de investimentos industriais, o Brasil continua operando sob uma estrutura tributária considerada uma das mais complexas do mundo.

No regime brasileiro, empresas podem enfrentar incidência simultânea de IRPJ, CSLL, PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI, além dos custos associados ao cumprimento de obrigações fiscais.

O tempo gasto por empresas para lidar com burocracias tributárias também é significativamente maior no Brasil.

Outro fator frequentemente citado por empresários é o custo da folha de pagamento. Encargos trabalhistas e obrigações acessórias elevam o custo total da contratação em comparação ao modelo adotado pelo Paraguai.

Movimento atravessou diferentes governos

Os dados disponíveis não indicam que o deslocamento de empresas para o Paraguai seja um fenômeno restrito a um único governo.

A expansão da presença industrial brasileira no país vizinho ocorreu de forma contínua ao longo dos últimos anos, atravessando administrações petistas, o governo Temer, a gestão Bolsonaro e o atual governo Lula.

Atualmente, empresas brasileiras representam a maior parte do parque industrial estrangeiro instalado sob o regime de maquila e respondem por milhares de empregos gerados em território paraguaio.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade