Haddad critica os 1% mais ricos enquanto faz parte dos 0,5% mais ricos do Brasil - Claudio Dantas
Brasília, Sexta, 26 de junho de 2026
Artigos Exclusivos

Haddad critica os 1% mais ricos enquanto faz parte dos 0,5% mais ricos do Brasil

Haddad estrelando o filme "Riquinho", imagem produzida por IA.
Haddad estrelando o filme "Riquinho", imagem produzida por IA.

Compartilhe em

Foto do autor

Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

“Não é razoável que 1% da população faça esse inferno na internet dizendo que nós estamos colocando ‘nós contra eles’”, disse hoje Fernando Haddad, ministro da Fazenda, em entrevista ao portal Metrópoles.

✅ Siga o canal do Claudio Dantas no WhatsApp

“Se eles pagassem pelo menos o que nós pagamos — [nós] os 99% — estava de boa. Mas não, esse 1% não quer pagar nem o que os 99% pagam”.

Foi assim que Haddad se incluiu entre os 99% mais pobres do país. Mas não é verdade.

Segundo o próprio governo federal, o salário de ministros de Estado como Haddad é de R$ 46.366,19 por mês. É o mesmo valor recebido pelo presidente e pelo vice-presidente da República.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do IBGE, a renda média por domicílio da fração dos 1% mais ricos do país foi de R$ 20.664 em 2023. Portanto, Haddad ganha mais do que o dobro dos 1% mais ricos — ele está entre os 0,5% mais ricos.

Mas isso não é tudo. Haddad está desde 28 de maio de 2024 no Conselho de Administração da Itaipu Binacional. Para isso, ele recebe mais R$ 27 mil por mês, segundo o Poder360. Logo, a verdadeira renda mensal de Haddad é de R$ 73,4 mil.

Pode ser ainda mais, já que a informação sobre pagamentos de Itaipu é de 2023, quando a empresa disse ao Poder360 que a ela “não se aplica a Lei de Acesso à Informação”, e Haddad se recusou a comentar.

É bem possível que Haddad esteja, na verdade, entre os 0,1% mais ricos do país. Grande parte de sua renda tem origem em impostos. Em 2022, o ministro declarou à Justiça eleitoral um patrimônio de R$ 595 mil. É quase seis vezes mais que o patrimônio médio do Distrito Federal, o maior do país, segundo o Mapa da Riqueza no Brasil da Fundação Getúlio Vargas (2023).

O Brasil é uma anomalia de diferença salarial entre funcionários públicos e do setor privado

Em diferentes levantamentos, a média salarial dos funcionários públicos no Brasil é em torno do dobro da média salarial de quem trabalha no setor privado, que sustenta os primeiros.

A diferença era de 84% em 2015, segundo o IBGE. Só perdemos para o México, com diferença de 210% (fonte: INEGI). A diferença é menor na Coreia do Sul (56%; fonte KOSTAT), Chile (52%; INE-Chile), Portugal (51%; INE-Portugal), Japão (47%; Autoridade Nacional de Pessoal), Espanha (42%; INE-Espanha), Estados Unidos (23%; BLS) e Alemanha (2%, Destatis). Na França, diferentemente dos outros países mencionados, a média salarial do setor privado é superior à dos funcionários públicos, com uma diferença de 7% (INSEE, 2024).

Na entrevista do Metrópoles, Haddad insistiu na retórica de luta de classes adotada pelo governo. A estatística específica de 1% parece diretamente importada do movimento Occupy Wall Street, dos Estados Unidos, uma ocupação do Parque Zuccotti feita pela esquerda progressista universitária em 2011. Foi ali que surgiu na prática a agenda woke, a lacração. E Haddad também adere à lacração, alegando que a retórica de seu governo contra os ricos tem algo a ver com reparação histórica para os negros.

A retórica de Lula e Haddad, claro, não traça nenhuma diferença entre ricos como eles, cuja renda e patrimônio vêm de dinheiro tomado à força dos outros, daqueles ricos cuja renda vem de trocas voluntárias com clientes.

Enquanto isso, Javier Milei adota outras ideias mais amigas da liberdade e reduz a pobreza na Argentina. Aí está a real luta de classes: a classe dos parasitas contra a classe dos produtivos.

Escreva seu e-mail para receber bastidores e notícias exclusivas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Publicidade