Não sei quem estava no ponto eletrônico do jornalista Octavio Guedes, da GloboNews, mas senti uma certa vergonha alheia ao ouvir sua “análise” sobre a decisão do presidente do TCU, Vital do Rêgo, de autorizar uma inspeção nos documentos que o Banco Central possui sobre o caso Master e que fundamentaram a resposta da autarquia ao tribunal na semana passada.
Guedes disse que “se o Vorcaro abrir a boca, mostrar documentos, colaborar, isso pode fazer com que parte da banda podre da República caia, seja do Legislativo, do Executivo, do Judiciário”. Segundo ele, o banqueiro seria “uma ameaça ambulante”.
“Ele já perdeu o banco. Para ficar caladinho (sic), precisa de indenização e só consegue indenização se botar a culpa no Banco Central”.
O jornalista garantiu que teria ouvido essa história rocambolesca de chantagem da boca dos próprios “investigadores”, mas não explicou por que esses investigadores optariam por vazar tal informação à imprensa em vez de enquadrar o banqueiro em mais alguns crimes e retorná-lo para a prisão.
Guedes também acusou o TCU de “meter o bedelho onde não deve”, alegando que “esse ministro Jesus não tem um passado voltado para órgãos de fiscalização, mas foi colocado lá pelo Centrão, pelos interesses do Centrão.”
Sim, parece o tipo de análise que qualquer um ouviria no boteco da esquina e não na maior emissora de TV do país. Acusações feitas sem provas, fulanização irresponsável, desconhecimento sobre o assunto e desonestidade intelectual profunda. Parece que existe um alçapão no fim do poço do jornalismo brasileiro!
Num país sério, o jornalista explicaria que a decisão de Vital do Rêgo foi tomada após pedido da área técnica do tribunal. Aproveitaria para esclarecer que Jhonatan de Jesus tornou-se relator do caso envolvendo a liquidação do Banco Master no TCU devido à sua lista de Unidades Jurisdicionadas (UJ).
No Tribunal de Contas da União, o Banco Central (BC) é uma das instituições fiscalizadas que compõem a lista de unidades atribuídas ao gabinete do ministro para o biênio atual. Por regra regimental, processos relativos a atos de gestão, fiscalização ou omissões de uma determinada unidade são automaticamente encaminhados a ele, que a “relata” naquele período.
Aproveitaria para esclarecer que o BC está sob a jurisdição e fiscalização do TCU. A Lei Complementar 179/2021 blinda a autarquia de interferências políticas diretas, mas ela permanece sujeita ao controle externo exercido pelo Congresso com o auxílio de seu tribunal de contas.
O TCU tem, não só competência, mas obrigação de realizar inspeções técnicas e fiscalizações, de certificar anualmente as contas do BC, inclusive estabelecendo prazos para que o órgão regulador preste esclarecimentos sobre decisões técnicas, como a de liquidação do Master.
Não que o TCU seja um órgão eminentemente técnico, pois sabemos que não é. Mas num país sério com imprensa séria, o jornalista lembraria outros casos polêmicos. Em 2019, por exemplo, o tribunal foi requisitado para investigar auditores que apuravam inconsistências fiscais envolvendo ministros do STF e do STJ; em 2022, escrutinou o contrato entre Sergio Moro e a Alvarez & Marsal, por suspeita de ‘revolving door’.
Num país sério, o jornalista não faria acusações sem provas nem usaria linguagem chula, como “meter o bedelho” ou “para ficar caladinho”, ao se referir a um órgão de fiscalização do Congresso Nacional, a um banqueiro investigado e a um caso de tamanha repercussão no sistema financeiro. Limitaria-se à análise de fatos e dados conhecidos e provados, sem alimentar boatos sobre supostas chantagens contra autoridades.
Afinal, não estamos dando pitaco sobre o próximo paredão do BBB ou o final da última novela da Globo; mas tratando de um escândalo do porte de dezenas de bilhões, com potencial risco sistêmico. Análise política ou econômica séria não pode ser confundida com fofoca e desinformação. Deixem isso para aquela parte da banda podre do jornalismo.
