Revista Piauí repete falsidade de ONG LGBT já refutada há anos - Claudio Dantas
Brasília, Quarta, 03 de junho de 2026
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Revista Piauí repete falsidade de ONG LGBT já refutada há anos

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Por Eli Vieira

Jornalista e Biólogo

O ambiente midiático está polarizado, mas isso não significa que fatos publicados por veículos com linha editorial conservadora sumam porque não interessam a veículos com linha progressista. Ou vice-versa. E, se um veículo associado a um lado finge que não viu uma correção feita pelo outro, a repetição consciente da falsidade tem nome: mentira.

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Este é o risco que corre a revista Piauí, associada a uma visão de mundo progressista. Neste mês, a publicação está terminando uma série de reportagens chamada “Geração Democracia”. No texto de setembro, foi publicada a quinta parte, “O cuidado e a desolação”. Na reportagem, a Piauí afirma: “No Brasil, a expectativa de vida de pessoas transexuais gira em torno de apenas 35 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)”.

A informação é falsa.

Fake news “do bem”

Mostrei que é falsa em 2 de fevereiro de 2021, na Gazeta do Povo. Esta parte da minha reportagem foi apurada por Ágata Cahill Florêncio de Oliveira, uma estudante de psicologia, e transexual, que faleceu de leucemia em novembro de 2022.

Ágata descobriu que a fonte da Antra era o psicólogo Pedro Paulo Sammarco Antunes, em uma dissertação de mestrado de 2013 transformada em livro. A ONG o citou em um relatório de 2017: “Apesar de não haver estudos sistemáticos sobre a expectativa de vida das travestis e transexuais femininas, Antunes (2013) afirma que a expectativa de vida desta população seja de 35 anos de idade, enquanto a da população brasileira em geral, é de 74,9 anos (IBGE 2013).”

Antunes, contudo, não afirmava nada disso. Seu estudo não foi quantitativo, mas qualitativo: ele entrevistou três travestis ao todo. No máximo, ele fala de forma genérica em baixa expectativa de vida, mas sem citar fontes quantitativas. Ou seja, o uso de seu trabalho pela Antra foi ou negligente ou desonesto.

“Expectativa de vida” é um termo técnico dos estudos demográficos. Para calculá-la, pega-se o número de mortes e de pessoas em cada faixa etária, calcula-se a “probabilidade de morrer” em cada idade, monta-se uma “tábua de vida” com uma coorte fictícia, e compara-se os sobreviventes ano a ano com o número inicial de pessoas.

Ágata também descobriu que o número de 35 anos resultou de uma média das idades de transexuais ao morrerem, em uma pequena amostra. Ou seja, nada a ver com “expectativa de vida”. Outra pessoa que apurou o assunto foi Daniel Reynaldo, crítico do identitarismo.

Depois da minha reportagem, o Guia Gay São Paulo contribuiu para a refutação da falsidade, no dia 14 de fevereiro de 2021, entrevistando o próprio Antunes e o IBGE. O IBGE disse que “Não possuímos dados sobre a população trans”.

Antunes, por sua vez, disse que seu livro continha apenas uma “entrevista com Keila Simpson, que fala algo por volta daquele número”. Reclamando do abuso de seu trabalho, ele acrescentou que “o correto seria não me citar como fonte direta ou dizer que eu afirmo, mas sim falar que o dado é fornecido por ela em entrevista para meu estudo, o qual se tornou livro”.

A citada, Keila Simpson Sousa, na época era presidente da Antra. Agora, não integra mais a diretoria, mas seu nome aparece no site da associação como autora de um artigo sobre sua história. “Tanto na entrevista dela a Pedro quanto nos relatórios de assassinatos da entidade, não é mostrada metodologia que embase a afirmação”, publicou o Guia Gay.

Ou seja, o que parece ter acontecido foi que alguém na Antra colocou suas próprias palavras na boca de um “especialista”, para passar nelas um verniz de autenticidade acadêmica.

Ao repetir a falsidade em 2025, a revista Piauí ignorou não só a conservadora Gazeta do Povo, como um veículo especializado no público LGBT e Ágata, uma checadora que era uma mulher trans.

A fofoca com o número atingiu órgãos internacionais. Uma revisão de 2014 da relatoria de direitos LGBT da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) reproduziu-a assim: “a CIDH recebeu a informação de que a expectativa de vida das mulheres trans nas Américas está entre 30 e 35 anos de idade”. Enigmático.

Não é a única falsidade na reportagem

A reportagem da Piauí, assinada por José Henrique Bortoluci, também reproduziu outra estatística questionável: “a diferença na expectativa de vida entre pessoas negras e não negras ultrapassa duas décadas”. Assim como a Antra, a revista erra ao achar que uma mera média de idade ao morrer pode ser chamada de “expectativa de vida”.

Fazendo um claro paralelo com a falsidade da Antra, o texto cita o Mapa da Desigualdade de São Paulo 2024 para alegar que “um morador dos Jardins, área rica da cidade, vive em média 80 anos; já no bairro Iguatemi, área pobre da Zona Leste, a expectativa mal chega aos 59 anos”. O que está implícito é que os bairros representam as raças, mas não há garantia nenhuma disso.

Se a Piauí realmente quisesse citar fatos por interesse na verdade, em vez de interesse em fazer alarmismo identitário, poderia ter citado um relatório de 2024 do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social). O IMDS realmente calculou a diferença de expectativa de vida entre raças, mostrando desvantagem dos negros na comparação com os brancos (não tocaremos aqui nas dificuldades apresentadas por esses rótulos raciais).

Não, a diferença não é de “mais de duas décadas”, como alega a Piauí. É de quatro anos entre as mulheres e de 5,87 anos entre os homens.

A esquerda progressista, especialmente na última meia década, tentou vender a si mesma como não só moralmente superior aos conservadores (o que é sua alegação de praxe), mas também como mais científica, mais amiga da verdade e dos fatos. As estatísticas falsas que nunca morrem em seu ativismo, e até no jornalismo feito em seu nome, provam que a verdade é bem outra.

A imagem que vem à minha cabeça é a do personagem Pepe Le Gambá, dos Looney Tunes. Se acha muito cheiroso, aterroriza as gatinhas incautas com suas tentativas incansáveis de sedução, mas acaba aterrorizando a todas com seu mau cheiro.

***

Agradecimento a Franklin “Frankito” Weise, por ter publicado o trecho da reportagem nas redes sociais.

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